Angústia

Num lapso arrancou os botões da camisa cravou as unhas na pele forçou até encontrar os ossos que um a um pôs na mesa.

Pegou seu coração ainda batendo e depositou devagar no chão.

A dor da angústia que supunha vir de lá não cessou.

Com o oco no peito deitou na cama.

De repente, a chuva.

O Porco

Lambe a faca e o sangue gota a gota encontra o chão imundo. Mudo ele passeia a lâmina cinza pelos pulsos. O quarto torna vermelho.

A mãe dorme ao lado. Não ouve. Ele deita. Consome a dor que sente. Os olhos fecham. Tamanha violência. A faca soca o estômago e ele geme. De dor, prazer.

Enfim, ele grita! Não mais aguenta. Sente desfalecer. Ouve a mãe levantar da cama. Correr em direção e abrir a porta. As mãos em desespero no rosto ao ver o filho. Cair sobre seu corpo encharcado.

E é com o abraço da mãe que ele fecha os olhos. O último toque de carinho ante o inconformismo. Ela não entende. Ele não ousa.

Apenas cede.

Solidão

Demasiado terno o abraço em torno do corpo jogado na cama. Os braços fortes dele acorrentando-a e o cheiro de macho o suor exalando e grudando em cada canto do quarto.

Ela sorriu e sentiu o vácuo. Quando Abriu os olhos, o travesseiro.

Pedro Não Tinha Pernas

Pedro não tinha pernas.

Os dedos tortos compunham a deformidade do copo às mãos.

Deitado na cama co’s olhos no teto. Pedrinho. Mamãe diz. Pedrinho. Ele suspira.

A lágrima passeia pelos pelinhos do rosto olhando para os olhinhos de Pedro. Pedrinho. Diminuto. Di-mi-nu-ti-vo.

As muletas estão cansadas do peso de seu corpo. Mas elas sustentam. Ele se apoia. Elas o apoiam. Até à janela.

Lá fora tem sol e ilumina o corpo e ilumina o quarto e ilumina o copo.

Lá fora eles jogam bola.

A lágrima de Pedro pula pela perna e encontra o mundo. Os olhos fecham e é quando eles gritam gol e é quando ele joga o corpo e é quando pela primeira vez ele sente sentir asas a baterem no lugar das mãos extensão de seus braços.

O corpo bate no chão de concreto qué cinza o concreto qué sujo o concreto que agora com cor torna rubro o concreto incolor feito Pedro a pedra o pa-ra-le-le-pi-pe-do. Pedro.

Não tinha pernas.

O Outro

Tudo aqui dentro está morto. E Ele não teme o relógio que canta o tempo e diz que o corpo é apenas a essência do resto das horas. Ele vai para o outro canto do quarto e zanzando sem saber para onde. Que vontade é essa de jogar o corpo fora do próprio corpo? A mente cansa e é quando deitado no chão, o corpo em formato concha.

Faz frio.

De repente faz frio e os dentes tremem. Aí é que o corpo se encontra no próprio corpo e ele geme algo, mas o resto do corpo não ouve. O resto do corpo treme! O corpo cansa e na desordem de estar com frio é o momento em que seus olhos fecham. A alma descansa. O corpo dorme? A mente insana não morre e come os pensamentos sem nem deixá-los sobreviver para vir lembrança.

Fecha os olhos e observa o vão da porta. Alguma coisa diz que tem algo lá fora. Abre os olhos e o escuro é maior que quando o olho fecha. Enquanto a mão coça a perna que coça ele ouve um barulho no outro extremo do quarto, mas tá escuro!

Assusta.

O silêncio come um bocado do tempo e ele até se esqueceu do frio, mas sente frio de novo. Volta a tremer. De repente novo barulho e esse diz que tem alguém ali na frente d’Ele. Faz que vai levantar, mas desiste quando descobre que quem está ali na frente é seu próprio Eu deitado em forma de concha. Os dentes do Outro-Eu tremem.

Ele balbucia algo que o Outro não ouve. Então grita para que o Outro pare de tremer, pois o incomoda! O Outro não para. Ele grita mais alto, mais forte e é como se agora fosse conseguir escapulir com o corpo fora do próprio corpo. O frio é intenso e a noite no quarto engole o mundo. Meu Deus, ele diz para si, e já com a baba escorrendo pela boca ele grita mais alto Para! Para! O Outro não ouve e treme o corpo. Ele sente o desespero a subir pelas pontas dos dedos. Ele chora com a baba a escorrer pelos cantos!

Para Para Para! Ele não aguenta e enfia a mão debaixo do colchão tirando a arma. Dá um tiro seco tornando o quarto uma nuvem de fumaça.

O Outro para.

Ele para.

Os minicontos acima são de Lucas Rolim. O autor nasceu em 1988 e é advogado. Participou da coletânea Geração em 140 Caracteres, organizada pela Geração Editorial. Mora em Planaltina, Distrito Federal

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