* Por Ana Weiss *

A Festa Literária Internacional de Paraty debuta com a edição mais enxuta e ousada de sua história. Com cerca de R$ 1 milhão a menos do que a última realização, a 15ª edição do evento, que homenageia Lima Barreto, volta seu epicentro para questões sociais e políticas, como o racismo e o machismo, e privilegia a produção literária pouco – ou nada – absorvida pelo mercado. Não por outras razões, uma das críticas à proposta deste ano é a falta de medalhões do mercado editorial, que abundaram em anos anteriores. Sob a curadoria da historiadora e jornalista baiana Joselia Aguiar, a Flip anunciou como vai organizar as quase 20 mesas e seus convidados, a coluna vertebral da festa. Pela primeira vez, o festival terá mais mulheres do que homens e a presença marcante de negros – cerca de 30% de sua participação, o que provavelmente representa um recorde em organizações do tipo no Brasil. Dizer que faltam grandes nomes nesta seleção de convidados é, porém, um equívoco. As brasileiras Ana Miranda, Conceição Evaristo, Maria Valéria Rezende e a espanhola Damiela Eltit são referências incontornáveis da literatura sul-americana. Paul Beatty e Marlon James são vencedores do Booker Prize, sendo James o primeiro jamaicano a ser reconhecido pelo mais importante prêmio literário da língua inglesa. Para dar alguns exemplos.

Ainda que todos os debates tenham alguma ligação – algumas vezes indireta – com o autor pré-modernista, a programação deste ano permite mais de um cardápio de experiência. Os eventos serão distribuídos entre a Praça e a Igreja da Matriz, que passa a receber as principais mesas em substituição à Tenda dos Autores, o centro da Flip até o ano passado. A única tenda deste ano será a do telão – um recurso para os convidados que não quiserem pagar pelos ingressos para as mesas, que, este ano custarão R$ 55, cada e começam a ser vendidos no dia 13 de junho. Além da Flipinha – núcleo infanto-juvenil, com programação matutina.

Assim, tem mais de uma forma de passar pela Flip este ano. A equipe da São Paulo Review optou pelo modelo imersão: da segunda-feira à noite até o Livro de Cabeceira – a mesa extra de domingo de manhã, em que os autores falam sobre o que estão lendo ou sobre leituras que mudaram suas vidas, a escolha dos editores é esgotar a programação, que está inteira aqui: http://flip.org.br/edicoes/flip-2017/programacao

Quem vai com pressa e para um mergulho no universo de Lima Barreto pode pular a programação-mirim e mesas de autores contemporâneos como Fux X Fuks e se concentrar na mesa de abertura e nos lançamentos sobre o autor previstos para a festa e mesas com especialistas no autor. Sob o título de Triste Visionário, a mesa 1 reúne Lilia Schwarcz, autora de uma biografia importante escritor homenageado de mesmo nome, com o ator Lázaro Ramos, sob a direção de Felipe Hirsh. A conversa- performance – Ramos “emprestará a pele” a Barreto – deve girar em torno da vida e do papel antecipador de Lima Barreto como escritor e pensador social. Obrigatória – no mínimo, porque se trata da pesquisa que consumiu quase uma década de trabalho da historiadora. As mesas 2 (terça, ao meio-dia) e 7 (sexta, ao meio-dia) complementam o entendimento biográfico, o modernismo precoce e a visão política visionária do escritor. Lembrando que as discussões não são pré-combinadas e surpresas acontecem recorrentemente.

Essa é uma Flip provocadora, com cardápio de primeira para quem tem paladar também para política e história. Assim como Lima Barreto sobreviveu à sua segunda internação psiquiátrica escrevendo (“Cemitério dos Vivos”, de 1920), o angolano Luaty Beirão (ou rapper Ikonoklasta) denunciou a vida no cárcere da Angola autoritária de José Eduardo Santos em “Kanguei no Maiki” (Peguei no Microfone). Ele vai conversar com a ativista, conselheira da São Paulo Review e escritora premiada Maria Valéria Rezende, que a curadora lembra ter sido a responsável pelo transporte das missivas do cárcere de Frei Betto,  perseguido e preso pela ditadura militar, levando-as para a Itália, onde foram publicadas sob o título “Dei Soterranei Della História”, pela Mondadori, em 1969. Os encontros terão também performances de uma série batizada Fruto Estranho, título da canção incrustrada na cultura norte-americana pela voz de Billie Hollyday, sobre os enforcamentos de negros nas árvores de cidades sulistas dos Estados Unidos. Não espere aula de literatura nessa parte da programação. A mesa 10 (sexta, 19h15) coloca o cineasta Carlos Nader e a chilena Damiela Eltit juntos em outra mesa afeita à transgressão.

Por fim, e não menos importante, as mulheres como tema. Joselia Aguiar notou que em edições anteriores, o título “Em Nome do Pai” e “Em Nome do Filho” nomeou algumas mesas e decidiu propor o encontro “Em Nome da Mãe”. A curadora falou da dificuldade em se encontrar e reunir mulheres para o evento. “Além de serem menos publicadas pelas editoras e menos estudadas nas universidades, as mulheres pela forma como vivem têm mais dificuldade em se deslocar. Uma programação mais masculina teria sido imensamente mais fácil e rápida de montar”, contou. “Em Nome da Mãe” (quinta, às 21h15) reúne as experiências da brasileira Noemi Jaffe, que tem parte da obra dedicada à história da mãe, sobrevivente ao campo de concentração nazista de Auchwitz, e Scholastique Mukasonga, ruandesa tutsi que presenciou o extermínio da família e de amigos e tem sua escrita influenciada pelo holocausto. E, claro, a mesa de fechamento (domingo, ao meio-dia) em que com Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves prestarão homenagem a mulheres negras que influenciaram e influenciam a literatura e o pensamento contemporâneo.

Se havia uma demanda por justiça histórica em relação a esses setores da produção intelectual que mal cabem na classificação, a curadoria foi além da resposta. Com esse trabalho quase escavatório de trazer vozes importantes e desabituadas do circuito editorial, a Flip retoma um papel importante da curadoria literária, que é pensar além – e antes – das águas por onde corre o dinheiro do livro.

FLIP: 26 a 30 de julho de 2017.

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Ana Weiss é jornalista e editora da São Paulo Review 

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