A partir de 7 de agosto, escritora publicará as narrativas que compõem seu novo projeto literário

 

Se eu tivesse de escolher entre o céu e o inferno, escolheria Buriti Pequeno.

E agora sou cicerone dessa cidade, onde se passam os 13 contos do meu novo projeto literário, Amanaçu. Eu poderia tê-los publicado em um livro, mas decidi fazer uma experiência inusitada: durante 13 semanas, publicarei os contos de Amanuçu em diferentes plataformas digitais, com livre acesso para leitura e escuta. Ao longo desse tempo, também publicarei pós-escritos aos contos e curiosidades sobre meus processos de criação. A ideia é que possamos avançar pelas ruas e pelos morros de Buriti Pequeno construindo espaços de leitura.

As impressões das minhas muitas andanças pelo interior de Goiás, que vi se transformar drasticamente nos últimos vinte e cinco anos, foram a tônica dessa coletânea de contos. Amanaçu é, portanto, retrato de um Brasil ainda pouco conhecido e quase ausente nas páginas da literatura. Por isso, precisei prestar atenção em cada pedra, cada bicho, cada mangueira no quintal de Buriti Pequeno. Porque é nessa cidadezinha encravada no cerrado que vida e morte se misturam para dar vazão a personagens extraordinárias, como a curiosa que faz partos e abortos com igual fé na virgem Maria. Buriti Pequeno assiste à resistência de seu último sineiro, à gravidez da indígena Matxa e à letargia dos espectros que fumam crack às margens do rio. Em silêncio, permaneceremos, eu e você, ao lado dessa gente.

O primeiro conto de Amanaçu se chama carne de paca e será publicado na próxima sexta-feira, dia 7 de agosto, nos seguintes canais:

  1. São Paulo Review (contos)
  2. Medium (contos, pós-escritos e curiosidades)
  3. Wattpad (contos)
  4. Spotify e outras plataformas de streaming (audiocontos)

As publicações serão feitas todas as sextas-feiras até o dia 30 de outubro. Uma excelente oportunidade para que você possa conhecer a minha escrita e eu, a sua leitura. Sendo esta uma proposta de publicação para lá de independente, conto com seu apoio no espalhamento desses textos: indique, compartilhe, divulgue. Caso queira propor um debate ou discussão sobre algum conto que a/o tenha impactado, ficarei contente em participar. Por ora, agradeço à generosidade do amigo, escritor e editor Alexandre Staut, que tão lindamente conduz a São Paulo Review e me abriu esse espaço. Espero por você no dia 7.

Um beijo grato,

Paulliny Tort

***

Carne de paca

A terra do Joaquim Baiano fica perto da cabeceira do rio e dá cada abóbora que ninguém acredita. Quando chega à feira com a caminhonete carregada, o barulho desgraçado do carro sem surdina, é pelas abóboras que o povo procura. Nem todos querem comprar, são grandes demais, mas gostam de ver, de medir com as palmas das mãos as curvas alaranjadas, de ouvir o som que fazem quando alguém bate na casca com os nós dos dedos. Toc-toc, toc-toc. Ninguém entende por que na terra do Joaquim Baiano as abóboras são tão grandes, desconfiam que faça alguma coisa em segredo, embora não se saiba que coisa é essa. Pacto com o diabo, deus não faz abóbora desse tamanho, balbuciam às vezes entre as barracas da feira, motivados pelo fato de Joaquim Baiano nunca, jamais ir à igreja. Mas ele não vive só dessas abóboras e trouxe também banana, mandioca, folhas e feijão guandu. O feijão ele leva já medido e envasado em garrafas PET que ganha da mulher do dono do mercadinho. Com tanto guaraná Jaó que andam bebendo, o que não falta é garrafa de plástico nos monturos, nos becos, na correnteza do rio, então a mulher do dono do mercado, em vez de jogar fora, distribui as garrafas vazias entre os miseráveis. É uma mulher séria, de coque, não dá conversa para ninguém, só vem dos fundos do mercadinho com as sacolas cheias de garrafas PET, entrega e vira as costas. Joaquim Baiano não tem mulher e se já namorou ninguém sabe. Sozinho no ermo, dá conta de si. Desde moço, lava e remenda as próprias roupas, cozinha a própria comida, cuida do roçado, tudo em silêncio. E assim calado ele carregou a caminhonete com os víveres, desceu os morros, sacolejando entre tons de terra e verde, até avistar os telhados da vila e a igreja branca no cume do outeiro.

Mal estacionou a caminhonete, foi tomado por um nervoso; colocaram postes com caixas de som na praça do coreto. Não são caixas grandes, mas potentes o bastante para vibrar os vidros das janelas nas casas próximas. Sem refúgio, os moradores se sentam em cadeiras nas calçadas e assistem conformados à movimentação estridente da praça. A cantoria que sai das caixas de som é de amor, coisa que Joaquim Baiano detesta, e abafa o zum-zum-zum dos feirantes, o cacarejar das galinhas nos cestos, o som fino dos facões que cortam tubérculos, cocos e raízes. Tudo o que se ouve é amor, amor, amor, um troço que dá nojo. Há turistas na cidade, o prefeito disse, é preciso agradá-los ou vão embora para Pirenópolis. Com o rosto franzido, Joaquim Baiano larga a traseira da caminhonete aberta e sai atrás de um pedaço de fumo. Quando encontra, cheira a peça, sentindo nos calos dos dedos a trança retorcida e resinosa, resmunga que quer um pedaço. A vendedora cospe no chão e corta o fumo com uma faca de lâmina emborcada, depois enrola o pedaço feito queijo de trança. Joaquim Baiano tenta pagar com moedas, a maioria de cinco e dez centavos, mas elas escapam entre os dedos, o que lhe causa uma vergonha muito grande. A vendedora diz que está bom, que esse tanto chega para um pedaço de fumo, e joga em uma caixa de sapatos metade das moedas que Joaquim Baiano segurava. Na barraca, há também uma pilha de toucinho que atrai a atenção dele – quer vender bem para comprar uma peça, mas não sabe se aguenta ficar na feira com essa cantoria. Joaquim Baiano não frequenta quermesses, festas de aniversário, batizados de crianças, nem à missa ele vai, então é capaz que saia hoje no prejuízo. Volta para perto da caminhonete e permanece de pé, braços cruzados, mastigando o fumo que comprou há pouco. As abóboras gigantes ainda chamam a atenção dos fregueses, vende duas, mais uma garrafa de feijão guandu. Com isso, não dá para comprar a peça de toucinho, mas não importa. Quer subir logo os morros e voltar para casa. Quando está para partir, chega perto a vendedora de fumo.

Está acompanhada de dois homens, jovens e altos. A vendedora chama Joaquim Baiano de lado, caminha com ele ao extremo da praça e explica que são turistas, querem um lugar para acampar por algumas noites. Pagam bem, ela diz, gente de Brasília. Vieram conhecer as cavernas da região e o sítio do Joaquim fica a menos de uma légua da Pedra Negra. É dinheiro fácil, homem de deus, eles vão só deitar as barracas no terreiro por uns dias, usar a latrina e a água do poço, já expliquei que é banheiro de roça, coisa simples, e não acharam ruim. Joaquim Baiano vira a cabeça, olha para os dois homens, que vestem calças com vários bolsos laterais e calçam botinas estranhas. São só esses dois? Não, tem mais três. E o que você ganha com isso? A mulher ri, sabe como o Joaquim Baiano é desconfiado, grosseiro, parece bicho. Vou aprontar comida para eles lá em casa, já falei que é comida de pobre, também não deram importância. Joaquim mede os forasteiros, calcula o tamanho da paciência que terá de gastar com essa gente, cospe no chão. Quanto é que eles pagam? A vendedora de fumo meneia a cabeça. Ah, isso eu não sei, bote seu preço.

Devagar, voltam ao lugar da caminhonete. Joaquim Baiano não consegue conversar naquela confusão e, com um gesto, convida um dos rapazes para atravessar a rua. O rapaz confirma o que a vendedora de fumo explicara, não precisam de qualquer conforto, apenas um lugar para acamparem durante cinco dias, talvez um a mais ou um a menos, a depender do que encontrarem nas cavernas. Cobro dez reais a jornada, Joaquim Baiano arrisca, esperando protesto diante do preço, e por cabeça! Sem consultar os outros quatro, o rapaz diz feito e estende a mão para selar o acordo. Joaquim não gosta da prontidão com que firmam aquele trato, mas aperta e sacode a mão do rapaz, ao que a vendedora de fumo, que observava a tudo de longe, desce os ombros aliviada. Joaquim cospe mais uma vez no chão, ajeita o chapéu na cabeça, coça os bagos, torce a fuça, endireita as calças enlameadas. Balbucia algo, parece incomodado. O rapaz pede desculpas, diz que não entendeu e se inclina para ouvir. Nada não, deixa pra lá.

Negócio feito, Joaquim Baiano fecha a traseira da caminhonete e pede um adiantado aos hóspedes. Um deles tira prontamente da carteira uma nota de cinquenta reais, uma nota tão nova que parece engomada a ferro. Joaquim, que há tempos não pegava dinheiro tão graúdo, se apressa para a barraca da vendedora de fumo. Passa pelo nariz três peças de toucinho e escolhe a mais gorda, uma fatia oleosa de couro e sal, que a vendedora enrola em papel cor-de-rosa, comentando como o turismo seria bom para Buriti Pequeno. Não seria, Joaquim? Ele não responde, só faz um aceno com a cabeça e enfia o troco no bolso da camisa. Com o pacote de toucinho no banco do carona, se apruma na caminhonete. Os rapazes se aproximam em dois jipes, modelos novos, salpicados de adesivos e pó de estrada. Por um instante, Joaquim Baiano duvida, acha que o acerto não foi vantajoso, que o dinheiro não chega para tanta dor de cabeça, mas olha para o pacote e se lembra que não tem como devolver o dinheiro, nem morto voltaria à feira para se humilhar assim. Pelo retrovisor, vê que estão a postos. Faz um sinal pela janela, engata a primeira e vai.

 

No sítio, os rapazes descarregam uma porção de sacos coloridos, lonas, ferros. Elogiam muito a propriedade, os morros, os pequizeiros carregados de frutos, o córrego que sabem desaguar no Amanaçu, mas Joaquim Baiano não dá trela. Mostra o poço e o banheiro, onde os rapazes se surpreendem com a patente de madeira. Os cinco riem, fingem que estão fazendo cocô para tirar fotos. E Joaquim Baiano fica impressionado de ver como existe gente idiota nesse mundo. Por último, ensina a tirar água do poço, que nem isso eles sabem, e antes de ir embora dá um aviso importante: tem que olhar a latrina antes de sentar, às vezes entra cobra. Os cinco caem na gargalhada e Joaquim Baiano sai com o sangue azedo, talhando nas veias. Vai para dentro de casa e fecha a janela de tábuas. Está curioso com tanta tralha que tiraram daqueles carros, mas não passará por matuto, não ficará em volta deles igual criança. Passados alguns minutos, Joaquim Baiano não se aguenta, espia pelas frinchas e quase cai de costas com o que vê. Construíram uma cidadezinha de barracas coloridas, cruzadas por lonas e cordas de nylon. Também montaram uma tenda e puseram embaixo um fogareiro, uma caixa térmica, uma rede, uma mesinha e quatro cadeiras de descanso. O sangue de Joaquim Baiano borbulha que nem rapadura no tacho, esquentando e dilatando as veias do pescoço. Ele sai de casa e afunda as botinas no barro, enquanto sente o frio da garrucha na cintura, coberta pela camisa.

Esse trem aí, vocês vão ter que tirar. Joaquim Baiano aponta com a cabeça para a tenda. Os rapazes, pegos de surpresa, ficam em silêncio. Depois um deles diz que podem armar a tenda em outro lugar, perto do córrego, por exemplo. Mas outro corrige dizendo que farão o que o dono da casa preferir: se o senhor quiser que a gente desmonte, a gente desmonta, não tem problema. Joaquim Baiano encara, percebe que eles não têm medo, mas ao menos não são debochados e isso lhe parece suficiente. Perto do córrego então, diz e volta para dentro de casa. Da janela, acompanha a tudo pela fresta, a desmontagem e a nova montagem da cidadezinha, que agora parece mais discreta. De repente, um deles se aproxima da casa. Joaquim Baiano procura depressa o fumo e começa a enrolar um cigarro, sentando de frente para a porta aberta. O rapaz pede licença, diz que precisam de indicações para chegar à caverna da Pedra Negra e mostra um mapa da região, algo que Joaquim mesmo nunca viu. O rapaz aponta linhas e cores no mapa, linhas e cores insignificantes, irritantes como caixas de som. Joaquim rumina uma palavra que o rapaz não entende, coça a cabeça com violência e sai da casa. Segurando o cigarro, aponta os caminhos, os trilheiros, os morros. Explica o que sempre soube explicar. Atento, o rapaz acompanha os gestos e agradece com um sorriso. Antes de voltar para o grupo, bate nas costas de Joaquim Baiano, de leve, como se fossem amigos. Por pouco, não leva uma na fuça.

Fechadas as barracas com telas mosquiteiras, os rapazes saem em seus carros. Os porta-malas cheios de cordas, capacetes, apetrechos, Joaquim Baiano viu. Que diacho vão fazer na caverna, ele não sabe. Mas Joaquim Baiano não se interessa pelas invenções dos outros, eles que se danem. Hoje não come o toucinho, almoça arroz com abóbora e farinha, passa um café e calça as botinas de trabalho. Está construindo um depósito para guardar as ferramentas, as sementes e o adubo. Sempre dormiu com tudo dentro de casa, mas cansou. Comprou quatro telhas e um conjunto de tábuas, com um dinheiro que vinha juntando há dois anos. Agora as vigas de pau já estão armadas e também o telhadinho. Joaquim põe as patas duras para trabalhar, medindo e cortando as tábuas com um serrote, e só interrompe a lida para abaixar o volume do rádio que toca na janela da casa. Às vezes gosta de ouvir rádio depois do almoço, para saber das notícias e ouvir conversa de gente, mas baixinho.

Entretido com o trabalho, até se esquece dos hóspedes, que chegam pouco antes de o sol se pôr. Os cinco estão enlameados e sorridentes, à vontade demais na opinião de Joaquim Baiano. Com o balde de alumínio, tiram água do poço conforme ensinado e se banham de cuecas, esfregando na pele sabonetes cheirosos. A espuma branca que desce em direção ao córrego emporcalha a terra e turva a água, fazendo no caminho uma lama diferente. Joaquim Baiano tenta não se importar, desliga o rádio e se limpa em uma tina com sabão, esfrega a cara, o pescoço e as axilas e isso basta por enquanto. Um dos cinco se aproxima, avisa que vão jantar na casa da vendedora de fumo, vão a pé, já sabem onde fica. Joaquim Baiano dá de ombros, não vê necessidade no informe; quanto mais tempo passarem fora, longe, em qualquer lugar, melhor. Ainda mais agora que cheiram a putas. Tanto perfume chega a dar engulho, e é por isso que Joaquim Baiano nunca achou diversão nas mulheres da vida. Perfumadas demais.

Mas o fato muito estranho é que, depois de comer e arrumar a espingarda para a caçada matinal, de encostá-la à parede, Joaquim Baiano se deita e não consegue dormir. Não consegue porque fica na expectativa de que os cinco rapazes de Brasília voltem, é como se os ruídos em torno da casa tivessem preenchido algum vazio que antes não se notava. Não compreende, eles não servem para nada, sujam o terreiro, falam demais, mas Joaquim Baiano os quer por perto. Diz a si mesmo que prefere ficar de olho neles, não confia, portanto a dificuldade em pegar no sono. Amanhã cedo sairá para caçar paca, duvida que aqueles lá tenham caçado alguma vez, devem comer só frango mole de granja. Em Buriti Pequeno, há uma granja de frango e Joaquim Baiano sabe que esses bichos parecem umas lesmas cobertas de penas, nem os ossos prestam, tudo se desmancha. São frangos doentes. Quando voltar da caçada, vai assar a paca e dar um pouco para eles. Quer mostrar o ferruginoso do sangue, as fímbrias da carne, o voo da fumaça que sai do braseiro. Já anoiteceu dentro da noite, é muito tarde. Pela fresta, vê a lua ceifar as estrelas, sente o ar frio e úmido, ouve o que os animais dizem: Joaquim, não é hora de estar acordado. E eles, os cinco, ainda não voltaram. Foram a pé! Talvez tenham se perdido, não têm tino para os caminhos a que Joaquim Baiano está acostumado. Quem não vê que eles têm tecidos moles, pastosos, lentos? São homens de granja, pensa Joaquim Baiano, que pragueja ao se levantar. Quero mais é que se estrepem! Veste a calça e a camisa, calça as botinas, pega a espingarda e sai caminhando por entre as abóboras gigantes que refletem os brilhos da noite – ele sabe que em nenhum outro lugar do mundo há um campo de abóboras como este. Tomara que aqueles pamonhas não tenham se perdido demais, resmunga. Tomara que estejam por perto. Joaquim Baiano roga a um deus no qual não acredita de todo e faz o sinal da cruz, por costume. É um homem que reza sem fé.

*

Paulliny Tort é jornalista e escritora de ficção. Seu romance de estreia, Allegro ma non troppo (Oito e Meio, 2016) foi finalista do Prêmio Oceanos de Literatura. Atualmente, produz e apresenta o podcast Sem Papas – Literatura para novos tempos.

 

 

 

 

 

 

 

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