* Por Rafael Gallo *

Que belo e estranho romance é Desejo, da austríaca Elfriede Jelinek (editora Tordesilhas, 2013). Detesto insinuar que certos livros são para poucos – por conta da pretensa elitização intelectual que comentários assim parecem reservar à obra (e, pior, ao emissário) – mas realmente a leitura de Desejo não deve oferecer um tempo muito agradável à maioria das pessoas.

Não digo isso como demérito do livro. É que se você gosta de “ler uma boa história”, definitivamente esse romance não será dos seus preferidos. Agora, se está buscando novas formas de se abordar a linguagem e a construção textual, para se alcançar efeitos inesperados, e algo que te deixe perplexo pelo inusitado da costura de ideias, então, meu amigo e minha amiga, Desejo pode ser um prato cheio.

Jelinek tem uma escrita repleta de metáforas, as quais adquirem concretude bem maior do que o habitual. Como as ações concretas também são carregadas de simbologia, as águas acabam se misturando bastante. Muitas vezes, em meio à leitura, torna-se difícil separar o que é meramente simbólico daquilo que realmente está “acontecendo” na narrativa. Além disso, as associações de ideias são vertiginosas: a autora salta de uma a outra, através de conexões imagéticas e pareamentos de sentidos, em velocidade e intensidade impressionantes. É difícil não se perder, em meio a tantas linhas de construção entrelaçadas. A leitura requer atenção o tempo todo.

Eu já tinha lido antes A pianista da mesma autora – que inspirou o filme A professora de piano, do cineasta Michael Haneke, altamente recomendável – e ficado perplexo com esse estilo de escrita dela. Em Desejo, tais expedientes são levados a ainda mais longe, criando um romance quase a-narrativo. Seria difícil apontar, por exemplo, o que “acontece” na história – alguma ação concreta e nova – nas primeiras 100 páginas; alguma mudança nas personagens ou coisa assim. A escrita de Jelinek parece permeada pela obsessão: as personagens ficam fazendo as mesmas coisas, os pensamentos sobre elas (por parte da narração) é que rodam e rodam, realizando os movimentos do livro. Por outro lado, não é exatamente uma “escrita do mundo interior”, como a de Clarice Lispector ou Virginia Woolf. No caso de Gerti, por exemplo, a protagonista de Desejo, não temos praticamente acesso nenhum aos sentimentos dela. Observamos o mundo do qual ela faz parte, revirado de dentro para fora e de fora para dentro o tempo todo.

Deixo aqui um trecho do romance, que demonstra bem melhor esses traços do que qualquer coisa que eu possa dizer. Se você achá-lo estranho, difícil de compreender, não pense que é por não ter lido o resto. O livro causa, de qualquer modo, muita estranheza. Também não pense que esse trecho é um momento “especial”, no sentido de ser exceção dentro da trama; a escrita dela é, por regra, dessa maneira. Imagine dezenas e dezenas de páginas nessa toada. Uma loucura, no melhor sentido da palavra. Perceba também as associações de ideias, saltando vertiginosamente de uma para outra; os pareamentos entre a forma como o diretor da fábrica se apossa sexualmente da esposa e financeiramente dos empregados dele. Estes, por sua vez, das mulheres deles. Em Desejo, como em A pianista, a sexualidade é um campo de batalha, repleto de transtornos emocionais e jogos agressivos de dominação física. No romance tratado aqui, o capitalismo faz par a esses conflitos de ordem íntima. Por fim, atente para o uso de imagens poéticas e inusitadas, e o quanto elas adquirem ressonância por serem colocadas junto aos outros elementos. O grito no final, por exemplo, não pode ser só dos… bom, leiam aí.

Com um golpe baixo, há pouco o aparelho de som foi incendiado, agora a música corre no prato de discos e (co)move o diretor um pouco mais depressa. Braços do aparelho saltam para a frente para intervir, um diretor precisa levar seu pau ao mundo! Sua diversão deve sobreviver, até que se possa ver o chão, e os pobres, dos quais foi esvaziado o amor, sejam arrancados da linha e tenham que se dirigir à Central de Emprego. Tudo deve ser eterno e, além disso, poder ser repetido com frequência, assim falam os homens e esticam as rédeas que outrora carinhosamente sua mamãe segurava. Sim, isso parece dar certo. E agora esse homem entra e sai fácil, fácil de sua mulher. Nesse campo a natureza não pode ter se equivocado, pois nós nunca iríamos mesmo querer deixar algo diferente crescer. Eles se encontram aqui dentro de uma comunidade da carne, e os agricultores de tempo parcial, que choram fácil quando não são contratados, sim, eles ficam furiosos se suas mulheres acariciam suavemente as reses surpresas. Os senhorios prazerosamente fazem amizade com a morte, mas as operações têm que continuar. E mesmo para os mais pobres a diversão é consentida de bom grado pelos pobres braços do sexo feminino, onde eles todos os dias a partir das vinte e duas horas podem crescer. Para esse diretor, no entanto, não é a hora que vale, pois afinal ele mesmo a produz, em sua fábrica, e os relógios são perfurados até gritar.

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Rafael Gallo 03 - Alta (Wilian Olivato)

Rafael Gallo nasceu em São Paulo. É autor de Rebentar (Ed. Record, 2015), romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, e Réveillon e outros dias (ED. Record, 2012), coletânea de contos ganhadora do Prêmio Sesc de Literatura. Ambos os livros foram finalistas do Prêmio Jabuti. Tem ainda contos publicados em diversas revistas e antologias, como a Desassossego (Ed. Mombak, 2014) e a Machado de Assis Magazine (Ed. Biblioteca Nacional, 2012), que publicou tradução do conto Réveillon para o espanhol.

 

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