* Por Nilma Lacerda *

O Pantanal é uma das regiões mais sedutoras do Brasil, renda natural em que os rios, riachos, ribeiros, veredas desenham motivos únicos. Um susto tomar um barquinho e singrar as águas, pois os jacarés, as onças, as piranhas, as sucuris! Não é lenda, não são causos: as cobras engolem um boi inteiro, as onças caçam à noite turistas audazes. Mas o rio, o rio oferece uma identidade às pessoas que moram em suas margens e é um caminho para chegar ao interior do homem. 

 Cais de Cáceres, 14 de outubro de 1999.

Cícera chegou antes de tudo. Cícera com seu rosto calmo e distraído me falou de exclusão, partilhando uma angústia comum: a falta de acesso a livros de grande parte das crianças no Brasil. Só depois de Cícera é que Cáceres apontou no meu roteiro, Cáceres, quase Bolívia, quase o Outro, o Estrangeiro, ainda que tão próximos todos nós, latino-americanos emla cárcel de uma cultura em que a palavra é posse do poderoso e traída por ele sempre que assim convier.

Estou em Cáceres para confirmar, na companhia de algumas pessoas, umas dúvidas antigas, procurar respostas, dividir ações produtivas. Não preciso de palavras para abraçar uma líder do Movimento dos Sem Terra na manifestação em frente à agência do Banco do Brasil, nem para acompanhar o aperto de mão que dou ao homem curtido e franzino segurando a bandeira do MST. Em Cáceres, ouço comovida uma professora dizer que precisa aprender a gostar de ler porque é dela a responsabilidade de fazer com que seus alunos leiam: não podemos perder mais uma geração, diz, sem perceber que está dizendo.

Em Cáceres ao crepúsculo, o Sol é uma anilina nas águas do Paraguai; e nesse mesmo crepúsculo vai-se afastando dos olhos a margem tão próxima, a manta de aguapés já sumindo num olho da noite que tudo devora. Mas em Cáceres está muito claro que quem lê, escreve.

O cemitério de São João Batista fica em Botafogo, bairro da alta burguesia da cidade do Rio de Janeiro – como nos informaram Machado de Assis e José de Alencar, em seus romances do último quartel do século XIX e início do XX. Atualmente, Botafogo é um lugar de trânsito entre a zona norte e a zona sul, entre as duas porções da própria zona sul. O quinhão de belos palacetes não consegue mais emprestar nobreza à alma de um bairro cujo índice de criminalidade é dos maiores da cidade. Em tempos de chuva, a água que desce dos morros e sobe dos bueiros torna a vida difícil, e nem se percebem nela os traços de sangue que a terra bebe e devolve, farta de um combate desigual.

Rio de Janeiro, 1º de novembro de 1999.

Morreu ontem Nise da Silveira, uma mulher que escreveu a morte do Diabo. Psiquiatra que se empenhou pelo fim dos manicômios, pagou por sua ousadia com uma prisão política na ditadura do Estado Novo. Vou a seu enterro e sinto a falta enorme de uma bandeira brasileira sobre seu caixão. Não há bandeira brasileira, há uma bandeira da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro. Vermelha e prata, sublinha, quiçá, a frase de Nise, que leio num jornal desdobrado à minha frente:

            “Todo mundo é jovem e pirilampo”.

 O tacacá foi recomendado como especialidade da culinária amazônica, apreciado de forma especial pela gente do Acre. Provei-o num restaurante de beira-rio, em cuia natural, o tucupi fervente, a porção de folhas de jambu e de camarão rosa. De lembrança, ficaram o amargor da erva, o caldo ralo e certo arrependimento de querer provar, em viagem, pratos da culinária local.    

 28 de abril de 2000, ainda em solo de Rio Branco, Acre, o avião taxiando, e eu escrevendo em folhas de um bloco que tem por capa um belo desenho de padrão kene, do povo Kaxinawá. 

Acabei de comprar três livros no aeroporto e paguei por eles o dobro do que pagaria no Rio de Janeiro, São Paulo ou Brasília. Isso dá bem a dimensão da distância do Acre em relação aos grandes centros do país. Recebo ainda a notícia de que a livraria vai fechar as portas, transferindo-se parte dela para a banca de jornais próxima.

Chama-se Lupa, a livraria.

Já estou no ar, sobre o Acre. Pela janela do avião, toda a sorte de verdes, dos mais claros aos mais escuros, rios barrentos. É o fim da época das chuvas, e a terra de um vermelho chocolate intenso não resiste ao chamado das águas. Dois dias na capital deste estado e vi um bocado de coisas, ainda que tenha ficado restrita ao perímetro urbano.

Não trouxe os bombons de cupuaçu que pretendia: nem os que me prometeram, nem os que desisti de comprar. Trouxe a beleza e o orgulho dos Ashaninka, o conceito de florestania, emitido por Jorge Viana, o jovem e consciente governador, o padrão geométrico dos Kaxinawá, a revista outraspalavras, publicação de qualidade da Fundação Cultural Elias Mansur.

Entre as letras de uma, as linhas de outro, está se escrevendo um país que revê seus recalques, escreve a História em que caberão igualdade de oportunidades, justiça e bem-estar para toda a gente.

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Nilma Lacerda é autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil

 

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