Tonico toma um copo de café com bastante açúcar antes de sair da casinha na rua Doutor Américo Damasceno, atravessar a Manoel Rocha e passar ao largo do sobradão da dona Amélia. Porque é quaresma, ele veste uma calça de tergal azul e uma camisa de cambraia de linho branca. De resto, usa a colônia de sempre e os sapatos de missa. Os cabelos, meio crespos, estão penteados para trás e formam um topete prateado; Tonico sabe que logo não terá um único fio de cabelo escuro. Embora tenha medo da morte, percebe que ela tem se aproximado sem escândalo, e isso lhe dá certa tranquilidade, a ideia de uma morte branda. Tonico acha que quando morrer não chorarão no velório. E, se chorarem, será pelo drama tradicional dos enterros, não por sentirem que foi uma perda. Alguns dirão “ele viveu muito, agora descansou” e disso não passarão as condolências. E, tendo Tonico vivido tão catolicamente, a ponto de chegar aos oitenta e dois anos sem vícios, quer um velório limpo: o corpo de terno azul claro no centro, dormindo para sempre, cercado de rosas brancas e amarelas. Esse terno, Tonico já tem separado, que ninguém deve escolher a mortalha de um velho. Quase todos de sua geração já morreram. As sete irmãs, a maior parte dos primos e colegas de escola, moças que desejou e que acabaram casadas com homens melhores, mais bonitos ou mais estabelecidos, o padre João e o médico que tratou sua fimose em 1966. Morreram todos. Sem falar nos que já eram velhos quando ele ainda era moço. Se botassem toda essa gente junta, deitada no chão, os mortos cobririam o Largo da Cruz inteirinho. Nas poças que se formam entre os paralelepípedos, Tonico vê os reflexos dos postes que se apagam rua após rua, beco após beco. Choveu de madrugada e uma umidade fresca sobe das pedras que cobrem a cidade. Dos quintais, chegam os cantos dos primeiros galos, um chamando o outro, e o outro, e o outro, até que o sol se debruce sobre os morros e os telhados das casas. Então o tio Tonico terá chegado à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e subirá devagar as escadas da torre. Do Largo, vê a igreja imponente, branca no amanhecer. Lembra-se de quando era menino e fazia esse mesmo caminho na companhia da mãe e dos irmãos. Nos dias santos, o povo se apinhava ali esperando o galo cantar. O padre, paramentado, dava ordem para o repique do sineiro assim que o primeiro galo anunciasse o dia. Quando abriam as portas da igreja, os fiéis se agitavam para tomar assento e depois cantavam gloria in excelsis deo. Acabada a missa, Tonico menino saía da igreja, olhava para a torre e via o pai lá em cima, manobrando o badalo. Não demorou a aprender com ele a linguagem dos sinos. Agora quer que o sobrinho, Josué, tenha dedicação para assumir essa responsabilidade. Josué precisa estar afinado nos dobres e repiques, embora ainda não tenha se mostrado muito apto. O sobrinho não tem ritmo, por isso deverá ser ainda mais estudioso do que foi o tio quando começou. Também terá de aprender a polir a bacia com óleo queimado, a conferir as amarras do badalo, a empinar o meião. Terei tempo de ensinar tudo? Tonico para em meio ao Largo, diante da escadaria, olha para trás, encara a vila sonolenta que se levanta aos pouquinhos. Devia ter ensinado antes para outra pessoa, agora é tarde, vai o Josué mesmo.

Quando o randevu da Teresinha pegou fogo no ano de 1962, foi o toque de rebate que acordou o povo no meio da madrugada. Uma das meninas da Teresinha esbarrou em uma lamparina de querosene e acabou incendiando um pano que cobria a janela do quarto. As meninas da Teresinha, quase nuas, de camisolas ou enroladas em toalhas, correram pela rua gritando por socorro. Não fossem as pancadas do sino, muita gente não teria acorrido para socorrê-las – ao chamado de um sino de igreja, pelo menos naqueles tempos, não se recusava. Ainda me lembro de como os sinos, o grande e o médio, soaram naquela noite, despertando e unindo em esforços toda a gente, que acorreu com baldes e vassouras para apagar o fogo do randevu da Teresinha. Em Buriti Pequeno, os toques reuniam as pessoas em torno das calamidades, dos nascimentos, dos enterros, dos dias santos. De repente, ninguém sabe precisar a data, os sinos perderam a importância. Na igreja do Bonfim, colocaram alto-falantes nas torres onde antes serviram Bonifácio e Zé da Maria Santana, excelentes sineiros, quiçá os melhores de Goiás, mortos por doenças de velho não faz muito tempo. Tonico achou aquilo uma tragédia, chegou a escrever uma carta para a diocese, mas alguém disse em nome do bispo que a diocese não podia intervir; na falta de sineiro, os alto-falantes atendiam bem ao propósito de comunicar os acontecimentos à população, além de refletir os anseios das novas gerações. Tonico não aceitou a resposta, continuou aborrecido e ficou ainda mais quando soube que havia planos de instalar alto-falantes também na sua igreja, a igreja dos pretos. Tonico nem se lembra a última vez que subiu as escadas da torre, em 1998 talvez, não tem certeza, a memória anda engasgando, mas hoje o fará novamente, do mesmo jeito que fez milhares de vezes antes. Dará ao sobrinho a primeira aula no campanário, algo inesquecível para qualquer aprendiz. Ainda guarda as chaves da entrada da torre, não que alguém tenha pedido que ficasse com elas, mas é um direito subentendido. Branca, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos encabeça um outeiro. Tonico para diante do portal de mogno que guarda a nave e se vira para a cidade. Aperta os olhos a fim de enxergar os telhados das casas que se estendem até as ruas mais distantes, os pés de tamarindo nos quintais, as mangueiras sem frutos à beira das calçadas, as estradinhas de chão que singram os morros, a curva que o Amanaçu faz antes de entrar na vila. Não consegue entender como pode estar tudo tão diferente e tão igual. Das coisas novas, gosta da escola Madre Cristina Sodré Dória, do centro de saúde, do campo de futebol, da facilidade para comprar um eletrodoméstico. Os anos trouxeram benesses, o povo já não sofre carências como as que ele sofreu quando menino, mas ganhou problemas de outra ordem. O rio mesmo acabou, virou uma água podre, cor de chumbo, sem peixe, sem nada. É que o mundo não é e nunca será justo. E o mundo está sempre mudando, Tonico sabe. Só pede que não silenciem os sinos. Isso ele não pode aceitar.

Por detrás do Morro da Fátima, vê despontar uma luz terrosa em que flutuam os passarinhos. Antigamente, àquela hora, era possível ouvir o trinado dos bicudos bem perto. Hoje os bichos são menos ou mais tímidos, ele não tem certeza. Gira o pulso esquerdo para ver as horas no relógio, o sobrinho está atrasado. Tonico precisa subir devagar as escadas da torre, as pernas não têm a desenvoltura de antes, e não poderá esperar por Josué se esse atraso se estender; faltando quarenta e cinco minutos para a missa, tem de tocar o sino pequeno. Ah, primeiro dia de aula e o sobrinho, que na verdade é sobrinho-neto, já mostra esse descaso! Destranca a porta da torre e espera mais um pouco. Não tem jeito, esses rapazes de hoje só querem saber de motos e bebida. Tonico fala sozinho. Não que tenha sido santo quando jovem, mas sabia respeitar a Igreja, os mais velhos, os compromissos. Naqueles tempos, ninguém deixava de cumprir com obrigação por ser moço, pouca idade não era desculpa para falta de vergonha. Mas hoje em dia. Mas hoje em dia. O tio Tonico continua falando sozinho. Empurra a porta da torre e uma lufada varre as folhas secas e as cascas de insetos que descansavam nos primeiros degraus. Olha para cima, respira as paredes de pedra, a umidade de séculos, sente a felicidade miúda dos sineiros, o desejo metálico. Por instantes, pensa que jamais devia ter abandonado o campanário, que precisa trabalhar para a virgem enquanto lhe sobrar uma réstia de vida. Mal começa a subir as escadas, muda de ideia. Os degraus são muito estreitos e altos, exigem de Tonico uma elasticidade impossível, não há corrimão para apoio, os joelhos doem, a cabeça entontece. E imaginar que ele subiu e desceu milhares de vezes aquelas escadas. Agora se lembra por que parou, por que abandonou os sinos, seus amigos da vida inteira, seus irmãos. No meio da subida, tira do bolso da camisa um lenço de pano, enxuga a testa e assoa o nariz. Enquanto se prepara para subir mais um degrau, ouve a porta da torre ranger lá embaixo, deve ser o sobrinho-neto que chegou. Ainda se lembra do dia em que o pai de Josué nasceu. Avisaram que a cunhada entrara em trabalho de parto e Tonico correu para a igreja. Tocou nove pancadas de meia em meia hora, conforme manda a tradição para que o povo saiba que há uma mulher dando à luz, e só parou no momento da délivrance. Depois Tonico correu para a casa do irmão, estava suado, eufórico, e sorriu ao conhecer aquele garotinho de olhos inchados que dormia enrolado no cueiro. Para o pai de Josué, Tonico também tocou no batismo, na primeira eucaristia, na crisma, no casamento, na agonia e no enterro. Três dobres de uma pancada para se despedir do sobrinho que morreu novo, vítima de uma doença nos intestinos. Agora é o filho deste sobrinho que sobe as escadas da torre com a missão de ser o próximo sineiro.

Tonico espera. Josué pede desculpas, explica que o despertador não tocou, que a moto deu problema, que a mãe está adoentada. É, mas a missa não vai mudar de horário por causa das suas confusões. Josué concorda e pede desculpas mais uma vez. Com a ajuda do sobrinho-neto, que o ampara pelo braço, Tonico termina de subir as escadas. Lá em cima, nos quatro vãos abertos da torre, reencontra os sinos que por tantos anos foram sua melhor companhia. Passa a mão sobre a superfície das bacias como se tocasse ombros amigos, sente que os sinos se alegram com seu retorno. A primeira coisa que você tem que saber, Josué, é que esses sinos são batizados que nem gente. Antes de virem para a torre, o bispo batizou com água benta e ungiu com óleos santos cada um deles, fazendo o sinal da cruz, assim, quatro por dentro e oito por fora. Gente não é batizada por dentro, mas os sinos são. Depois o bispo queimou incenso e mirra no turíbulo e colocou assim ó, na boca do sino, para encher de perfume. Esse maior é consagrado a são Benedito e é por isso que chamam ele de Benedito, mas eu chamo de Bené. Josué acha graça, mas segura o riso para não ofender o tio. Não tem demônio que fique onde o som desse sino aqui alcança, isso eu garanto. Mas o batismo do sino não serve para afastar só os maus espíritos, afasta os raios também. Como é que você acha que esses sinos ficam no alto das torres sem que nunca um raio caia em cima deles? É o batismo, Josué. É o batismo. Tonico quer que o sobrinho entenda que os sinos de igreja são mais parentes dos anjos que dos violões. Por isso, continua a falar, a contar em detalhes a história de cada um dos seus sinos. Recostado ao peitoril da torre, Josué ouve por alguns minutos, depois se desinteressa. Tio, aqueles cinquenta reais da aula de hoje, o senhor trouxe? Tonico já estava se esquecendo; como o rapaz deixou de fazer uns bicos para estar logo cedo na igreja, o tio se comprometeu a compensá-lo. Tira do bolso de trás da calça o pente e a carteira de couro, arranca um maço de notas e conta na frente do sobrinho. Toma, seus cinquenta. Ô tio, será que não dá pro senhor me adiantar mais cinquenta, da aula da semana que vem? Tonico enfia de volta o maço na carteira e meneia a cabeça. Não sabe nem fazer um repique ainda e já quer me explorar, Josué? Não, tio! De jeito nenhum! Fica pra semana que vem então. Tonico encara o sobrinho, os cabelos raspados na nuca, a tatuagem de leite de castanha de caju na mão direita, um J de Josué, que ele diz para o tio ser um J de Jesus. Para a semana, você estude os toques da Via Crucis que eu já ensinei, pode usar panela, enxada, lata, o que for. Quero que você ponha a mão no sino na próxima aula. Enquanto tira um cigarro do maço e leva à boca, Josué faz que sim com a cabeça. Saca um isqueiro e acende o cigarro. O senhor quer um? Tonico não responde, vira o rosto e perde a vista nos morros muito azuis que se desdobram no horizonte, onde não existe cidade. Josué traga profundo, tosse, escarra perto dos sapatos. A fumaça do cigarro atravessa a sineira e desaparece no vento que roça o Largo.

para seu Ico (em memória)

Paulliny Tort é jornalista e escritora de ficção. Seu romance de estreia, Allegro ma non troppo (Oito e Meio, 2016) foi finalista do Prêmio Oceanos de Literatura. Atualmente, produz e apresenta o podcast Sem Papas – Literatura para novos tempos.

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