* Por Ana Weiss, Alexandre Staut e Viviane Ka *

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, foi um encontro pulsante e comovente, sobretudo pela reunião inédita da diversidade de autores de escrita considerada `a margem dentro da produção contemporânea, possivelmente a representação mais afinada com a formação brasileira da história do evento.

Conceição Evaristo, Noemi Jaffe, a ruandesa Scholastique Mukasonga, Maria Valéria Rezende, a chilena Diamela Eltlit, o angolano Luaty Beirão, assim como boa parte das composições de mesas e performances escolhidas para a edição, são atuantes, donos de carreiras sólidas e de reconhecimento no mundo da cultura. A curadoria ainda apostou em nomes que despontam no mundo literário, como Natalia Borges Polesso, Ricardo Aleixo, Carol Rodrigues, entre outros, diferentemente de outras edições, que se restringiram a nomes de prestígio na mídia. Outro acerto: Lima Barreto como autor homenageado.

Nos cinco dias da festa, o público teve contato com nomes das culturas femininas, negras, indígenas e de gente atenta ao que acontece na sociedade brasileira, algo que já não se encontra mais no noticiário cultural nacional.

O envolvimento da plateia com as mesas foi grande, uma ressonância natural da aproximação da Flip de questões caras tanto para a literatura quanto para a sociedade contemporânea do país. A professora Diva Guimarães, de 77 anos, por exemplo, não estava entre os convidados para as mesas, mas se sentiu à vontade para se levantar da plateia e conceder seu depoimento pessoal sobre o racismo debatido por Lázaro Ramos e a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques. Ambos escutaram atentos e se emocionaram com a fala da visitante paranaense, cujo registro em vídeo havia sido visto mais de 5 milhões de vezes até o último dia do encontro.

Entre as vozes convocadas pela curadora Joselia Aguiar, o racismo e o machismo foram temas que predominaram. Houve equilíbrio entre escritores homens e mulheres, e a participação de 30% de autores negros. Em discordância,  a questão relativa à homoafetividade na literatura/ homofobia, que também tem urgência em ser discutida no Brasil, e que foi abordada en passant por Natalia Borges Polesso, apesar de diversos convidados serem LGBT.

A crise financeira e a diminuição de patrocínios levaram os debates para a Igreja Matriz, onde cabem 450 pessoas. Mas a tenda montada na frente da igreja deu conta de receber (bem) aos interessados nos debates.

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Programação paralela: Como em anos anteriores, a programação paralela, na maior parte criada por editoras, aproximou o público de temas e debates abordados da programação oficial. O destaque foi a Casa Paratodos, em que a editora Nós armou conversa emocionante da ruandesa Scholastique Mukasonga com Simone Paulino e o professor Leonardo Tonus, da Sorbonne. O Sesc também apostou na diversidade, com debates entre escritores, shows e mostras de artes visuais por toda Paraty, como as belas projeções de vídeos de índios da artista Roberta Carvalho.

Fez falta a série ‘Cozinhando com Palavras’, da CBL, presente em outras edições do evento.

Festas: Entre elas, destaque para a do site Publishnews, que reuniu centenas de pessoas na praia do Pontal, na sexta-feira, ao redor de uma fogueira, e o samba dos autores, no sábado à noite, com participação de autores com familiaridade quando o assunto é o gênero musical, como Marcelo Moutinho e Beto Mussa.

Vaia: Faltaram placas indicativas das casas em que aconteciam as programações paralelas. Assim como faltaram latões de lixo espalhados pelo Centro Histórico. Outro ponto negativo: o preço exorbitante (e vergonhoso) cobrado pelos restaurantes do Centro.

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Dicas para ler depois da Flip:

– Nossa Senhora do Nilo, de Scholastique Mukasonga (editora Nós)

– A mulher de pés descansos, de Scholastique Mukasonga (editora Nós)

– Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende (Alfaguara)

Lima Barreto: triste visionário, de Lilia Moritz Schwarcz (Companhia das Letras)

– O vendido, de Paul Beatty (editora Todavia)

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foto: Portal O Mundo dos Inconfidentes

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