O cordel e as putas

Não foi por devoção que Eulália deu ao primeiro filho o nome do santo que batizava a cidade mais próspera. O preferido era santo Antônio, a quem chamava de Tonho nas rezas em que lhe pedia a vinda de um varão, e não de uma mulher, mais uma a sofrer. Como Ilhéus deixara de ser chamada pelo nome mais longo — São Jorge dos Ilhéus —, a mãe, que talvez não se recordasse do padroeiro, adivinhava a fama no pertencimento.

No registro ficou Jorge Amado. Sem o Leal, da mãe, e o de Faria, do pai, João. Não é incomum a perda do sobrenome materno em cartórios brasileiros, no entanto o que fica é o último paterno. Três vezes fizeram a certidão de nascimento para consertar os nomes das avós, grafados incorretamente — o de Jorge Amado se manteve igual. O Amado prevalecia geração após geração, e quem se propôs a desenhar tal árvore genealógica encontrou judeus sefarditas tornados cristãos-novos cuja expansão no território nordestino somou outras origens. Da parte de Eulália, a avó fora uma pataxó caçada a laço por um português. Entre os avós de João, uma sinhazinha branca se apaixonou por um africano escravizado.

Com tal mistura étnica, o filho de Eulália e João cresceu, como se dizia entre os conterrâneos, com cara de turco.

Turco era como se designava o imigrante árabe, que atravessava meio mundo para escapar do domínio otomano e acabava identificado com o gentílico daquele contra quem lutava. Não apenas árabes, os forasteiros arribavam de todos os cantos para progredir naquela região do sul baiano, chamada grapiúna como a ave branca e preta que os indígenas, seus primeiros habitantes, avistavam sobrevoando as praias. Havia franceses, suíços, americanos, noruegueses; eram caixeiros-viajantes, marinheiros, exportadores e donos de firmas de crédito. A maioria migrava de dentro da própria Bahia e de outros estados nordestinos, em especial Sergipe e Alagoas, os fugitivos da seca, como João e Eulália.

João vinha de Estância, no estado vizinho Sergipe, ao norte. Eulália chegou de Amargosa, cidade mais ao centro da Bahia. Ao se conhecer, contavam cada qual a própria desilusão amorosa. Ela, aos 27 anos, para sempre magrinha e de cabelos de pouco volume, acreditava-se no barricão, a idade para constituir família tinha sido ultrapassada. Ele, aos trinta, de cabeleira e bigode negro espesso, não era o sujeito roliço que chegaria a ser. Noivos de outros pares, viram seus amores frustrados por falta de dinheiro. O primeiro noivo não podia bancar Eulália. Quanto a João, não tinha o bastante para conseguir a aprovação dos pais da primeira noiva. Casaram-se, pois, um com o outro em 1911, por sugestão de Fortunato Leal, irmão da moça e amigo daquele que se tornava seu cunhado. Para convencer Eulália e João, lançou mão de argumento sensato: se gostam tanto de conversar um com o outro, deviam mesmo se casar. A união, em seu aparente frio pragmatismo, era descrita como pacífica, apesar dos percalços financeiros dos primeiros anos e da branda infidelidade do marido.

O risco de ocupar a própria terra não intimidou João. Contava que entrou na mata “como um desesperado”, no afã de derrubá-la, semear e colher cacau, salvando-se de epidemias, emboscadas e confusões políticas. O patrimônio erguido fora suficiente para ser chamado de coronel — título que, não sendo de uso exclusivo da caserna, se baseava na prosperidade.

Em sua fazenda Auricídia, num arraial próximo a Itabuna, nasceu o primeiro filho em 10 de agosto de 1912. O dia exigiu operação de monta. O pai contratou duas parteiras, e do ladode fora duas eram também as mulas caso houvesse emergência — o que quase aconteceu. O bebê chegou ao mundo sem que se rompesse a bolsa amniótica: vinha à luz empelicado, um presságio de sorte por toda a vida. Como as duas parteiras hesitavam sobre como proceder, quem gritou não foi o bebê, mas Eulália, a ita por ajuda. Atrás da porta em vigília, o pai entrou e, aparentemente sem experiência com parto, teria concluído o procedimento livrando o bebê do invólucro. Na algazarra que se seguiu, com cachaça distribuída a quem quisesse, João levou o recém-nascido no colo até o quintal e o ofereceu à Lua, ritual pagão para que crescesse protegido. Anos depois, o pai confessava que, para reforçar a inteligência do filho, ainda pendurou em sua roupa um broche com a efígie do jurista baiano Rui Barbosa, o gênio da moda na época, republicano de gabarito e oratória empolada.

A sorte por toda a vida começou a aparecer aos dez meses. Engatinhava na varanda da casa, e, ao seu lado, o pai cortava cana para uma égua sem notar a presença de um jagunço de sua confiança prestes a atraiçoá-lo, escondido atrás de uma goiabeira. O tiro acertou o animal, e nas costas do coronel cravaram-se estilhaços de chumbo que passaria a exibir como prova física da emboscada sofrida sempre que a mulher assim lhe pedia, desejosa de impressionar as visitas. Não foi com orgulho do heroísmo do marido que Eulália reagiu nos minutos que se seguiram à tocaia. Ao vê-lo entrar com a camisa ensanguentada, a criança nos braços, reclamou da falta de cuidado e prometeu que dali em diante só dormiria com a espingarda sob o travesseiro. Nessa época das grandes lutas pela posse da terra grapiúna, seu irmão Fortunato perdeu um olho e três dedos de uma das mãos.

A natureza era mais difícil de enfrentar do que os homens. Uma tempestade que durou dias sem cessar em janeiro de 1914 fez a correnteza do rio Cachoeira arrastar plantações, animais e casas. Diz-se na cidade que o aguaceiro só foi acalmado por milagre depois de uma procissão realizada às pressas em meio à torrente. Na fazenda Auricídia, João e Eulália, com o filho no colo, abandonaram o que tinham para acolher-se com os demais desabrigados no lazareto, lugar onde no começo daquele século reuniam-se os portadores de doença contagiosa. Encontrariam depois onde ficar no Pontal, um lugar nos arredores de Ilhéus com ruas cobertas de areia, na confluência entre o mar e os rios Cachoeira e Engenho.

Coronel sem posses, João dedicou-se a fazer tamancos, ofício aprendido antes de deixar Estância, para o que contava com a participação da mulher na costura do couro com máquina de mão. O segundo filho, Jofre, nascido nesses anos de dureza, morreu de tifo antes dos dois anos. Quando economizaram o bastante, voltaram, em 1918, à vida numa nova fazenda, a Tararanga, tendo Pirangi como povoado mais próximo — mais tarde ia se transformar na cidade de Itajuípe. Na bem-aventurança não abandonavam hábitos simples. João gostava de comer sem talheres, o arroz com a farinha amassados, e Eulália por muitos anos continuou a cozinhar para os empregados. A única extravagância do casal foi a aquisição de um gramofone, dispensando a encomenda do piano de cauda que os vizinhos mandavam trazer do exterior. A medida da fartura se dava pela quantidade de frutas e bichos em torno da casa alteada, vazada por baixo — erguida sobre o chiqueiro, os porcos espantavam as cobras.

Não há registro de que João tenha nascido empelicado como seu primogênito, e era inegável que tinha sorte. Ganhou certa vez a loteria federal, e o dinheiro extra, quinhentos contos de réis, o ajudou a estender a propriedade para além da fazenda. Chegavam a Ilhéus: o sobrado cava ao lado do hotel Coelho, nas proximidades da praça principal. “O palacete”, como falava Eulália, fora coberto de cortinas, mobília e tapetes escolhidos por um decorador contratado, tudo “vindo do sul”, ela se gabava, referindo-se ao Rio de Janeiro, a então capital do país. Quem os visitou naqueles anos se lembrava do desconforto em cômodos tão requintados. De todo modo, um cartão-postal com a foto foi providenciado, com os dizeres: Palacete João Amado de Faria. No dia da inauguração, Eulália assistiu a tudo do alto da escada de jacarandá, vestida com robe de chambre. Entre os ilheuenses que não sabiam que evitou descer até a sala para cuidar de Joelson, pego pelo sarampo, passou por excêntrica.

Àquela altura a família estava ampliada: nasceram mais dois varões, Joelson, em 1920, e James, quatro anos mais tarde. A intervenção de Tonho continuava dando certo; e eram mais dois varões com cara de turco.

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Jorge Amado, uma biografia, de Joselia Aguiar (Todavia, 640 págs.)

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