L ourival escora a enxada na terra, arranca o boné amarelado, crispa os olhos e esfrega a testa na camiseta. Uma papa de suor e barro se deposita sobre o rosto do vereador Amaury Barbosa 15500, político que morreu de infarto há doze anos, durante um churrasco com correligionários na fazenda São José, atrás do Morro da Fátima. Lourival não se lembra se votou ou não em Amaury Barbosa, nem se ele foi ou não um bom vereador, de modo que o rosto na camiseta de campanha lhe passa sempre despercebido, como um braço que faz parte do corpo. As cigarras cantam nas árvores perto da casa e, nos morros, as últimas queimadas atraem os gaviões-fumaça, que planam caçando insetos no ar aquecido pelo fogo. Encostado no cabo da enxada, Lourival olha para os gaviões, o céu escuro de chuva e fumaça. Deve chover de hoje para amanhã, o que deixará a terra pronta para receber as manivas. Quer o solo bem destorroado para que a mandioca cresça livre. Vê Maria caminhar em direção ao futuro mandiocal com um copo de vidro na mão. Agradece com um aceno de cabeça, engole a água de uma vez e devolve o copo enlameado para a mulher. Com a mão na cintura, Maria olha desgostosa a terra remexida, você sabe que nunca plantei aí, nunca. Fica em silêncio, cruza os braços, sacode a cabeça; a minha avó falava que nada vinga nesse canto, tem muita argila, apodrece tudo, não sei por que você teima. Lourival passa mais uma vez a camiseta na testa, suja de novo a expressão sorridente do falecido Amaury Barbosa 15500, e retoma a enxada. A mulher volta para casa com o copo vazio.

Antes de conhecer Maria, Lourival plantou de tudo nas terras dos outros. Só de olhar, de sentir o cheiro, de cavoucar um pouco, sabe se o solo vai ou não com a mandioca e acha essa história de argila uma bobagem. Os vizinhos mantêm vastos mandiocais e nunca tiveram problema, exceto com percevejo-de-renda e mandarová, pragas que aparecem vez ou outra e que não têm nada a ver com a qualidade da terra. Em um chão bom como aquele, as manivas crescerão fortes, grossas, disso ele tem certeza. Mas Lourival não quer discutir com Maria, não quer brigar, gosta dela. Então não retruca, segue na lida em silêncio. Um mandiocal é coisa que vem querendo desde que se juntou com ela. Procura respeitar a mulher, mas não é homem para receber ordem de Maria nenhuma, ainda mais em assunto de lavoura. Com o tempo, Lourival pensa, Maria se lembra como é ter marido e entende que não carece preocupação com certas coisas. Com o tempo, ela alivia.

A forragem da mandioca, Lourival pretende usar para alimentar os bichos. Fará bom feno com as ramas novas, partes mais tenras da planta, e porá fora as partes lenhosas, por medo de ferir o estômago dos animais com alguma lasca. As raízes, comerá cozidas, com arroz, feijão, galinha e umas gotas de pimenta curtida no azeite de babaçu. E Lourival trabalha pensando: a mandioca é uma planta muito boa, feita para atender às necessidades dos pobres, às precisões de gente como ele, que nunca teve nada além de dois braços e duas pernas para trabalhar, nem à escola nunca foi, nem ao médico, nem à cidade grande, embora esta tivesse até vontade de conhecer, só para ver como é. Revolvendo a terra com a enxada, Lourival pensa nessas coisas, pensa. A lida lhe arranca o suor do corpo, engrossa os calos nas palmas das mãos e ele não percebe. Mal sente a força que sai do corpo a cada golpe da enxada, o ranger das articulações gastas, a fome que se avizinha à hora do almoço; sonha com o futuro mandiocal. Está tão distraído que só volta a si quando a enxada bate contra algo duro, talvez uma pedra. Lourival afasta a terra que cobre o achado, descobre uma ripa comprida e curva. Tenta puxar, mas está presa a algo, talvez a raízes de capim. Ele se ajoelha e segue afastando a terra com as mãos até descobrir que várias ripas estão dispostas umas ao lado das outras. Isso são costelas, ele diz, e de porco. Mas quem teve o diabo da ideia de enterrar um porco aqui?

De pé, Lourival usa a enxada para desencravar o esqueleto que se esconde à flor do mundo. Escarafuncha onde, pela disposição das costelas, imagina que esteja a cabeça do animal. Demora um pouco, mas alcança. Vê uma placa que deve ser do crânio, se põe de joelhos novamente e afunda as mãos no barro. Quando consegue pegar por baixo, puxa para fora e então solta um urro engasgado. Larga o crânio como se este lhe queimasse a casca das mãos, patina até conseguir se levantar. Segura o peito na altura do coração, na altura também da orelha esquerda do Amaury Barbosa 15500. Lourival já passou dos sessenta, os músculos do coração murcharam, como murcharam os do Amaury Barbosa 15500 no dia daquele churrasco na fazenda São José. Não é que nunca tenha visto homem morto, viu vários, mais do que gostaria, só não esperava encontrar um ali, na terra mansa onde esperava plantar suas manivas. Sente a boca secar, nem parece que acabou de tomar um copo d’água. Solta a mão do peito e respira compassado, também não vá ter um treco por causa de uma coisa dessas, exagero. Mais calmo, se ajoelha novamente e toma nas mãos o crânio avermelhado pela terra. Limpa, apalpa, vê que faltam alguns dentes. Há um buraco grande do lado direito, acima de onde antes ficava a orelha. O buraco tem mais ou menos o formato de uma estrela de cinco pontas.

Agachado, Lourival desenterra o esqueleto todo, sem tirá-lo do lugar. Está inteiro, com exceção do buraco na cabeça. Há ainda restos de uma calça no corpo e uma aliança no dedo anelar da mão esquerda. Tocando os ossos com cuidado, pelo feitio da ossatura, crê que tenha sido um homem, mas não pode desvendar nada além disso. Apoia as mãos no joelho, se ergue e chama pela mulher. Grita o nome dela uma, duas vezes, três, até que ela aparece na porta da casa, aos berros. O que foi, diacho? Não sabe que estou com panela no fogo? Lourival faz sinal para que ela se aproxime. Maria responde também com um sinal, para que espere. Entra em casa, leva alguns instantes e sai aos resmungos. Conforme avança, seca as mãos nas coxas, no desbotado do vestido, até perceber que na expressão de Lourival há algo grave, uma cara que nunca viu antes. Maria diminui o ritmo, esquece as mãos soltas sobre o pano da roupa. Olha para o chão aberto onde jaz o esqueleto e encara o marido. E agora?, ele pergunta. Ela não diz nada. Lourival se abaixa e pega o crânio, vira para a mulher a face quebrada. Acertaram uma nesse caboclo aqui, não acertaram? E eu que sei? Uai, sabe mais que eu, vive dizendo que conhece essas terras melhor que ninguém, que nasceu e cresceu nesse rancho, pois então. Maria abre a boca para brigar, não botou homem dentro de casa para isso, mas sabe que é melhor não dizer nada. Vendo o desagrado da mulher, a quem também não quer contrariar, Lourival larga o crânio sobre a terra. Esfrega as mãos sujas no rosto a essa altura irreconhecível do Amaury Barbosa 15500, arranca o boné e coça o cocuruto. Maria, você não se aborreça, mas tenho pra mim que sua avó tem envolvimento nisso. Ficou doido? Não era sua avó que falava pra ninguém plantar nesse terreiro? Vai ver tinha medo que descobrissem o defunto. Ah, minha nossa senhora, Lourival, você só me fala absurdo!

Maria faz que vai, mas acaba ficando ali mesmo, com os braços cruzados à frente dos peitos abundantes, espremidos dentro do sutiã velho. Como pode permitir que um sujeitinho manche assim a memória de sua avó, que criou onze filhos e uma renca de netos? Não fosse por ela, estaria toda essa gente sem eira nem beira no mundo. Até quem não era parente de sangue, sendo estimado, acabou recebendo um dinheiro quando ela morreu. Quanto aos filhos (e Maria era tratada não como neta, mas como filha, porque orfã de pai e mãe), cada um recebeu sua parte e fez com ela o que bem quis. Em menos de dois anos, todos se desfizeram de suas parcelas, restando apenas Maria na fração que lhe coube. Com os lábios contraídos, ela diz que a avó era uma santa. Agora você, Lourival, não era nada antes de se juntar comigo, nunca tinha plantado uma couve que não fosse em terra dos outros. Plantei, sim, Maria. Ah, plantou muito, plantou com sem-terra! Eu sou um homem sem terra mesmo, ao contrário de você, não herdei nada de ninguém. Você estava era correndo risco de tomar bala de fazendeiro, seu trouxa. Maria, não diga essas coisas. Digo, sim. Com meu trabalho, só fiz enriquecer os outros, a vida inteira, até que conheci… Ah, lá vem você com essa história de novo! O que eu fiz agora? Você devia ter vergonha de falar da minha avó, que ela nunca fez por merecer essa falta de respeito. Lourival entende que tenha soado ofensivo, realmente não se deve falar assim dos mortos, e pede desculpas, mas não consegue imaginar outra razão para que a velha tenha proibido cultivo naquela parte do terreno. Ao contrário do que Maria afirma, repetindo o discurso da avó, não tem argila nenhuma ali. O que tem é um homem sem camisa morto e por sinal muito mal enterrado, já que Lourival não cavoucou a terra tanto assim. Talvez o cadáver tenha aflorado com o tempo, mas a impressão é a de que o criminoso enterrou de qualquer jeito, como deu. Se a avó não tinha culpa nessa morte, no mínimo, sabia de alguma coisa. Não quero ofender você, menos ainda a sua finada avó, mas é que não tem argila aqui, Maria, não tem, de repente encontro esse defunto, fica confuso, acho melhor a gente descer na vila e avisar a polícia. Ainda com os braços cruzados, Maria dá de ombros. Olha mais uma vez para o esqueleto esticado na cova, ergue a cabeça, diz que vai terminar o almoço e caminha de volta para casa.

Brincando de montar, Lourival encaixa o crânio onde o encontrou. Isso já foi um homem, meu deus. Um homem! Faz o sinal da cruz, se levanta e deita a enxada no ombro. Os gaviões continuam a caçar os insetos que são empurrados pelo calor do fogo em direção ao céu, onde já não se pode distinguir nuvem de fumaça. Os últimos dias da estiagem são os mais duros, os mais quentes e pálidos. Atrás da horta, o mato seco parece crepitar e as ervas ao longo do caminho que leva à casa estão cobertas de folhinhas marrons e amarelas, mortas ou quase mortas. Antes da chuva, nem verde é o verde que se costuma ver, até as plantas sadias têm outro tom, descorado, lívido. Mas agora Lourival não espera mais pela chuva nem pensa nas manivas. Caminha com a imagem muito viva do esqueleto na vala, as órbitas profundas, as fossas do nariz, os ossos soltos como restos de um frango na lixeira. E imaginar que um dia ele também será isso, partes sem carne nem pele, inúteis. Lourival suspira. Larga a enxada na varanda, bate as botinas no pano úmido esticado em frente à porta da casa e encontra o prato fumegando em cima da mesa. Maria está de costas, perto da pia. Lourival se aproxima para lavar as mãos antes de comer, sem apetite. Aborrecido com a situação, com a necessidade de ir à polícia, raça da qual jamais gostou, por pouco não nota que a mulher está chorando. Calma, Maria, não precisa deitar pranto, eu não quis botar a culpa na sua avó, não. É que não tenho jeito pra conversa, você sabe, abro a boca e desando a falar besteira. Minha preocupação é esse defunto no terreiro, temos que avisar o delegado. Não gosto de polícia, não gosto mesmo, mas fazer o quê? Maria nem ergue o olhar, apenas diz que, se ele for à delegacia, acabou.

Quando se conheceram, a primeira coisa que chamou a atenção de Lourival foi a arrogância de Maria. Nos preparativos para a festa de são João, discutia com o padre como se não fosse aquele um homem, cura e estudado, como se fosse um igual. Depois Lourival reparou que era boa de corpo, ainda que tivesse passado dos cinquenta. Soube pela boca do povo que ela não tinha filhos e que possuía um sítio onde criava e plantava sozinha, tendo por ajudantes apenas uns pobres coitados que apareciam de vez em quando. Jovem, foi casada, mas o marido sumiu no mundo. Dele, Maria só teve notícia quando o infeliz morreu de tiro num puteiro em Luziânia. Ela devia ter mandado trazer o corpo para enterrar em Buriti Pequeno, mas acabou nunca fazendo isso e o homem foi enterrado por lá, mais ou menos indigente. As pessoas comentaram que era uma brutalidade permitir que enterrassem o sujeito assim; por pior que fosse, era marido dela, casado na igreja, mas Maria não ligou. Ela é forte, brigona, fala alto, não chora, Lourival pensa, sem entender a lógica daquilo tudo. Mulher, por que você está com medo da delegacia?

O lábio inferior dela treme, até que os olhos explodem em lágrimas. Você nunca vai me perdoar, vai contar pra polícia e eles vão vir aqui me prender, minha virgem santa, eu vou ser presa! Maria tropeça por dentro em soluços, Lourival pede que se acalme, embora também esteja assustado. Ela apoia uma das mãos na pia e com as costas da outra enxuga a secreção que brota das narinas. O meu marido, o meu ex-marido, ele… Lourival fica olhando para ela naquela pausa e então tudo soa absurdo, sua Maria ter um cadáver no quintal, os acontecimentos parecem irreais, rarefeitos. O meu ex-marido, ele não foi embora, Lourival. Os dois se olham, quase nem respiram. O homem comia da minha comida e me batia, depois sentava nessa cadeira bem aí e ficava dando ordem, faz isso, faz aquilo, parecia um rei. Mas rei só se for dos infernos! Eu não aguentava mais, Lourival. Eu não aguentava. Ele acertou meu nariz, meu nariz! Aí um dia eu disse chega, chega que não vou aturar mais, que não vou… Os olhos de Maria desabam. Entre soluços, conta que bateu na cabeça do homem com um machado, em uma noite de muita violência, depois arrastou o corpo e abriu uma vala para enterrar. Como o falecido vivia falando pelos bares que não nascera para roça nem para mulher feia e que um dia largaria aquele urutau, ninguém duvidou quando Maria disse que fora abandonada. E o defunto de Luziânia, aquele que diziam ser do seu marido? Ah, esse não sei quem é, confundiram.

Minha vó nunca encostou a mão em mim, pois fui apanhar de quem? Maria se senta em uma cadeira ao lado de Lourival. Olhando fixamente para a moringa de barro, mexe em um botão do vestido. Lourival sente como se fosse ele próprio a receber o machado na têmpora, a ser enterrado igual a um cachorro na cova rasa. Não se justifica matar um homem por causa de umas brigas, se justifica? Não que a situação dela fosse boa, mas uma mulher cristã não faria uma coisa dessas, ele pensa, imaginando também a extensão dos ferimentos que o ex-marido deixava nela. Seriam tão graves? Por que você não pediu ajuda? Lourival espera por uma reação hostil à pergunta, mas Maria, ainda girando o botão do vestido, ri de tristeza. E quem viria me ajudar nesse fim de mundo, homem? Posso gritar, espernear aqui o dia inteiro, ninguém ouve. Ó o tamanho desses morros. O grito da gente se perde aí no meio. Eles se calam. Lourival não acredita que Maria tenha sido capaz de cravar um machado na cabeça de alguém. Ela é nervosa, gosta de reclamar, mas não é de fazer maldade. Ele jamais atribuiria a Maria um assassinato, ainda mais considerando a fé exagerada que ostenta nas festas de santos, nos terços e nas novenas do padre Pelágio. Como Lourival gostaria que nada disso fosse verdade, esse cadáver no quintal, e que pudesse continuar com Maria sem qualquer mudança na vida comezinha que vinham levando. Mas como? Para ser o próximo a levar uma machadada e apodrecer no terreiro? Por que você não pediu ajuda? Por quê? Ele não tem coragem de repetir a pergunta, apenas coloca a mão direita sobre o ombro dela e pede que não se preocupe, vai enterrar o defunto de novo. Maria agradece e vira o rosto para a parede, onde um retrato da avó, uma fotografia colorida à mão, descansa ao lado de um calendário de campanha. O rosto de um homem rechonchudo, de camisa social azul e dentes monstruosamente brancos, estampa o calendário. Em verde e amarelo, abaixo da foto, lê-se: vote Amaury Barbosa Júnior 15111. Lourival sai de casa, olha para a fumaça que acinzenta o céu, deita a enxada no ombro e caminha lento rumo ao extinto mandiocal.

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Paulliny Tort é jornalista e escritora de ficção. Seu romance de estreia, Allegro ma non troppo (Oito e Meio, 2016) foi finalista do Prêmio Oceanos de Literatura. Atualmente, produz e apresenta o podcast Sem Papas – Literatura para novos tempos.

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