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* Por Paulliny Tort *

Matxa: Iawi fez a minha barriga crescer e a vida se movimenta fazendo cócegas cá dentro, abaixo do umbigo. É difícil acreditar que existe uma pessoa, um avá dentro de mim, e que ele andará pelo mundo e realizará grandes feitos. É difícil acreditar, mas não existe nada mais concreto. Estou tão pesada que minha rede parece fina, não oferece o mesmo conforto. Penso que engoli a Lua e que ela sairá de mim iluminando a mata e acordando os pássaros antes do amanhecer. Será uma madrugada memorável, nascerá enfim um txigapitxega, meu parente, gente do meu tipo. Nakwátxa, com a fumaça do cachimbo, invocará os espíritos de proteção. Quero que seja menino, porque só temos Iawi, que é forte, mas apenas um. Quero que seja menino e bom de caça, que traga carnes gordas, que seja generoso e faça pontas de flecha afiadas com o ferro que encontrarmos nas terras dos maíra. Penso tanto na criança que está por vir, no rosto que me sorrirá, nas mãos e nos pés, na completude dos dedos, na abundância de cabelos, que esse filho já nasceu dentro de mim.

Pilar: Nenhum de vós se achegará àquela que lhe é próxima por sangue para descobrir sua nudez. Esta é a lei e os selvagens não a respeitam. Compreendo a falta de oportunidade que tiveram para apreender as coisas divinas, mas nem por isso as consequências serão menos nefastas. Ló foi embebedado pelas filhas e fez imundícies com elas, resultou que sua única posteridade foram Moabe e Amom, povos vis e idólatras, inimigos de Israel. Então me pergunto, e pergunto a cada habitante de Buriti Pequeno, o que será dos frutos dessa árvore perdida? Que espécies de monstros nascerão dos incestos dos canoeiros? E o que esta descendência estará disposta a fazer contra nós, povo de Deus? O nascimento dessa criança, a criação dela entre os selvagens, é inadmissível. Eles querem se perpetuar por meio do pecado e da sujidade espiritual. Mas nós, que temos conhecimento do Evangelho, que sabemos as leis de Moisés, vamos assistir calados a essa mixórdia?

Matxa: O menino, eu gostaria que ele ganhasse o nome de Tutau. Depois receberá outro nome, quando for rapaz. E mais outro, quando for homem. Mas, enquanto couber nos meus braços, quero chamá-lo Tutau. Venha, Tutau. Olhe como o umbuzeiro está carregado, Tutau. E ele virá correndo, com os pés no chão e as bochechas meladas de caldo de fruta. Iawi nasceu Jagutika. Naquela época, brincávamos muito no rio, eu e ele, com nossos primos e irmãos. Os maíra ainda não haviam sujado a água, o rio era um caldo doce e carregava peixes saborosos, mas pouco depois tudo acabou. Os maíra colocavam cachorros bravos em nosso encalço e dormíamos juntos, abraçados, nas úmidas cavernas. Às vezes, também passávamos as noites nos galhos altos das árvores. Os cachorros latindo, latindo, o coração batendo forte, forte, as velhas petrificadas, até que as folhas verdes que nos cercavam paravam de respirar. Seguíamos ouvindo apenas os cachorros e as vozes, os passos e os tiros. Jagutika segurava a minha mão com firmeza e eu entendia que, se ficássemos bem quietos, os cães não nos encontrariam. As velhas também se davam as mãos. Minha avó, Makakira, fechava os olhos e ficava tão dura que parecia um galho, seco e morto. Eu temia que ela morresse de verdade e despencasse lá de cima. Se ela caísse, os cachorros acabariam com Makakira e, ao pensar nessas coisas, me advinha uma vontade muito grande de gritar. Jagutika me continha, apertava a minha mão com força, quase a quebrar os dedos. Assim ele nos salvou muitas vezes.

Pilar: Até outro dia, andavam sujos de terra e fuligem, tendo por veste apenas o suor. Muitos pensam que isso se deve à inocência com que levam suas vidas, que não percebem a vergonha que há na nudez, mas os canoeiros, e toda sua parentada, javaés, craôs, tapirapés, sacodem assim as indecências porque escolheram viver como bichos. Não faz muito que roubavam nossas panelas, nossas sacas de arroz, que matavam e comiam nossos animais na calada da noite. E agora a índia aparece grávida. Como se são todos parentes? Não chegam a dez, os índios daquela tribo. Centenas, milhares de hectares para gente que nada planta, que nada cria, que não tem critério. Há um único macho para todas as fêmeas, moças e idosas, foi o que me contou bispo Abelardo. E estão dando descendência, se multiplicando.

Matxa: Quando meus seios despontaram, me deram o nome Txiele. E Txiele reclamava bastante; caminhávamos distâncias que não sei calcular, mas que dariam muitos morros, incontáveis, enquanto apurávamos os olhos e os ouvidos, atentos à menor fagulha da morte. Makakira exigia que pisássemos as folhas secas com cuidado, que respirássemos sem fazer barulho, que fôssemos invisíveis. De longe, observávamos os maíra em suas casas de barro cobertas de palha, suas lâminas afiadas, suas panelas de ferro. Conhecíamos os rostos de cada um, seus trabalhos, as pegadas que largavam nos caminhos, mas nunca nos aproximávamos, nunca. Os maíra fizeram mal aos nossos parentes, mataram muitos, quase todos. Eles eram uma doença comendo a nossa carne. Eu sentia medo deles, principalmente dos caçadores – uma espingarda engole uma pessoa mais rápido do que um sapo devora uma mosca. A bala entra na cabeça e o coração para de bater. Era nisso que Txiele pensava o tempo todo, nunca descansava. A bala, o coração, a bala, o coração, a bala. A Txiele que fui vivia amargurada. Só tinha Makakira para nos proteger.

Pilar: O que os padres que aqui chegaram fizeram pelos canoeiros? Empurraram sua fé, como fazem em toda parte. Um tal dom Alberto Tomaz, da prelazia de Conceição do Araguaia, tentou se aproximar deles e foi recebido a flechadas. Minha mãe era menina na época e ainda se lembra. Os selvagens jogaram o corpo no Amanaçu e ele nunca foi encontrado. Dizem que estava carregando uma imagem de santo quando atingido pelas flechas dos índios. Além de imprudente, dom Alberto Tomaz era um idólatra. Estátuas de madeira e gesso não são do agrado de Deus, jamais serão, de modo que os idólatras se colocam no mesmo patamar dos selvagens. Os índios são capazes de acreditar que este rio, este rio mísero e imundo, esconde uma divindade em seu leito. Pensam o mesmo do sol e das árvores, a tudo atribuem um espírito. Não têm inteligência para compreender que somos feitos à imagem e semelhança de Deus, que não nos curvamos a nada, que é a natureza que se dobra à nossa vontade. Por isso, os índios são tão desafortunados. Em outras paragens, há tribos que se deixaram batizar, que aceitaram o Evangelho. Agora são mansos, trabalham nas plantações e ajudam a cuidar do gado. Mas esses índios pretos são os piores. Dão-se a todas as práticas abomináveis, como hoje prova a gravidez dessa mulher.

Matxa: Eu tinha Jagutika para brincar, mas meu filho não terá ninguém. Decerto gostará de conhecer os macacos. São divertidos e fazem boa companhia. É provável que também queira um papagaio, para andar com ele no ombro. Vai colher sementes de baru para alimentar o papagaio no bico e isso fará com que sejam como irmãos, pois confiarão um no outro. Se eu não tiver outros filhos, uma vez que a velhice se aproxima, teremos muitos animais, Makakira há de concordar. Assim meu filho talvez não perceba sua solidão. Se ele me perguntar por que não há outras crianças, terei de contar a verdade e sei que nesse dia chorarei. Ele sentirá medo, como eu senti, mas não precisará se esconder nas matas, nem dormir nas cavernas, nem passar as noites nos galhos altos. O meu filho que ainda não nasceu é a semente de uma árvore grande que há de espalhar suas raízes pelos morros. Eu o protegerei, como Makakira protegeu a mim, e farei o possível para que ele nunca se sinta só. É bom saber que os macacos são amigos dos avá, principalmente das crianças.

Pilar: Não bastassem as perversões que cometem entre si, esses índios são aves de rapina, ladrões. Não se lembram? Eles entravam em nossas terras, se serviam de nossas lavouras, destruíam nosso patrimônio. Há um cidadão deste município que, em uma noite, perdeu três cavalos pelas mãos dos índios pretos. Isso aconteceu há anos e até hoje ele espera ressarcimento por parte das autoridades. Somos tementes a Deus, trabalhamos seis dias por semana, pagamos impostos e à menor falta somos punidos, mas e os índios? O que será de Buriti Pequeno se continuarmos a aceitar que os selvagens tenham mais direitos que nós? É o que pergunto aos senhores, ciente de que falo a homens e mulheres de bem. Pois quando nos encontrarmos com uma fera, digamos as palavras de Davi: você vem contra mim com espada, com lança e com dardos, mas eu vou contra você em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem você desafiou.

Matxa: Às vezes me pergunto se a criança que carrego já sonha dentro de mim. Com o que será que ela sonha? Ou será que sonhamos juntas, as mesmas coisas, ao mesmo tempo? Essa pergunta ficou mais insistente depois de um pesadelo que tive noites atrás. Tomávamos banho no rio quando de repente Iawi desaparecia. Eu chorava e procurava por ele, então Nakwátxa desaparecia. Eu chorava também por Nakwátxa e Tatxía desaparecia. Por último, desaparecia Makakira, restando apenas a superfície quieta da água. Acordei ofegante, cordas de suor descendo entre os cabelos, e segurei minha barriga. A criança estava agitada, esperneando como se tivesse visto o que vi. Tentei confortá-la, pobrezinha. Nem chegou ao mundo ainda. É estranho, eu e ela estamos tão próximas e tão distantes. Há muitas perguntas que me inquietam nesses dias, mas Makakira diz que é normal, as mulheres ficam assim quando a barriga cresce, e dá boas risadas das minhas preocupações. Makakira está tão feliz que voltou a fiar algodão, coisa que não fazia desde que saímos da Mata do Café. E ela fez um chapéu de palha também. Quando Makakira coloca as mãos no meu ventre, a criança lá dentro pula, quer sair depressa para encontrá-la, para ouvir suas histórias. Makakira me contou todas as histórias, muitas e muitas vezes.

Pilar: Alguns dos senhores podem argumentar que é preciso ter misericórdia para com esses infelizes e eu direi que estão certos. Deus é amor, infinita compaixão. As escrituras apresentam esta qualidade divina com palavras muito claras: deem graças ao Senhor porque ele é bom. Mas, para que possamos ver a bondade do Deus vivo, para que haja salvação, tem de haver arrependimento por parte daquele que pecou. Esses índios de nada se arrependem, de nada sentem remorso, pelo contrário, regozijam-se no pecado com grande euforia. Dizem que a velha é a pior deles, que os atiça. Os senhores acham que Deus não vê isso? Como nós, eles têm livre arbítrio, mas escolheram permanecer nas trevas. Pois que aguardem o dia do juízo. O Pai não usará uma medida diferente para avaliar o peso de suas faltas, não terá pena por serem eles apenas índios. Mas, como membros da comunidade cristã, podemos nos compadecer da criança, que nascerá inocente. Embora fruto do mais odioso dos pecados, não carregará a culpa dos pais, irmãos de sangue que se entregaram à luxúria. Sim, irmãos de sangue, essa é a informação que me chegou da parte de missionários. Irmãos ou primos-irmãos, pouco importa. Os adultos daquela tribo estão todos perdidos, não resta dúvida, mas a criança, a criança pode ser salva.

Matxa: Makakira fazia fogo para nos aquecer e assar algum rato ou cotia que houvéssemos caçado. Enquanto preparava a caça no fogo, contava histórias. Falava como eram as festas na aldeia onde vivíamos, com oito ocas grandes que abrigavam nossos parentes, contava que tocavam maracás até o amanhecer para que a mandioca brotasse, que à noite caçavam bois e cavalos nas terras dos maíra e serviam banquetes com abundância de carnes e faziam enfeites com o couro e os chifres dos animais. Todos brincavam, todos sorriam, éramos fortes. Até que, uma manhã, pouco antes de o sol nascer, os maíra vieram. Dormíamos em nossas redes quando o fogo das espingardas atravessou a escuridão. Nossas flechas foram inúteis, não houve tempo para luta. Com chumbo, mataram os homens, as mulheres, os meninos, as meninas. Na confusão do sangue e dos gemidos, Makakira e Nakwátxa agarraram três crianças e fugiram. Eu tinha quatro anos. Outros parentes fugiram também, por outros caminhos, e nunca mais nos reencontramos. Isso é tudo que sei. Eu estava lá quando mataram meu pai e minha mãe, quando destruíram nossa gente, mas não me lembro. É um amanhecer que desapareceu dentro da longa noite que vivemos andando pelos morros. É como se essa aldeia fosse história de um tempo distante, como se não me pertencesse.

Pilar: A caridade é expressão da fé, portanto sejamos caridosos com esta criança. Ela nascerá com a carga do pecado original, mas de resto será tão pura quanto nossos filhos e netos. Desde que não cresça assistindo aos horrores que os índios pretos praticam, poderá desenvolver um espírito são. Senhores, basta chegar àquela terra para ver como andam sujos, o único homem vive bêbado e eles mal têm o que comer. Com uma denúncia bem feita, o Conselho Tutelar toma a guarda da criança, estou certa. Após trâmites um pouco morosos, reconheço, ela poderá ser adotada por uma família cristã que oferecerá as condições para desenvolver sua humanidade. Ou crescerá em um abrigo, atendida por profissionais, o que não é o ideal, mas melhor que muita coisa. Em uma instituição, ao menos não estará exposta ao incesto e à pajelança, à fome e à falta de remédios, ao analfabetismo e ao desconhecimento da língua pátria. Ainda que carregue as feições dos índios de cara preta, não terá relação com eles, estará viva.

Matxa: Makakira decidiu o momento de confiar nos homens das casas de barro e passamos dias em torno do Marcelino, sem que ele percebesse, até que o surpreendemos na mata. Não trocamos palavras, porque não nos compreendemos, mas houve uma irmandade naquele encontro. Marcelino nos levou para casa e nos deu comida. Marcelino, que era bom, chamou os maíra que tentam entender nossa língua e nossa história mudou outra vez. São sempre os maíra que decidem os destinos do meu povo. Eles, que são donos de toda a terra, que dizem onde podemos nos assentar, o que temos direito de caçar e o que devemos fazer. Sempre eles, os maíra, que se julgam os adultos do mundo. Desde que nos trouxeram para cá, aconselham Makakira. Alguns conselhos, ela aceita. Outros, não. Olham para a minha barriga como se estivessem diante de um mundo desconhecido, um mundo que não compreendem, que jamais compreenderão. Aborrecida com eles, Makakira resmunga que os maíra não conseguem diferenciar o que tem importância daquilo não tem. Sei que direi isso ao meu filho e repetirei ao longo de toda a sua vida: Tutau, os maíra não diferenciam o que tem importância daquilo não tem. Talvez ele possa entender, como eu nunca entendi, por que os maíra fazem o que fazem, por que os maíra são como são. Talvez Tutau possa me explicar, talvez Tutau possa justificar e assim, quem sabe, eu conheça dentro de mim isso que eles chamam perdão.

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Paulliny Tort é jornalista e escritora de ficção. Seu romance de estreia, Allegro ma non troppo (Oito e Meio, 2016) foi finalista do Prêmio Oceanos de Literatura. Atualmente, produz e apresenta o podcast Sem Papas – Literatura para novos tempos.

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