* Por Itamar Vieira Junior *

Faz algum tempo que acalento o desejo de ir à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Antes, os recursos eram escassos. Depois, os compromissos foram tolhendo meu tempo: trabalho, doutorado, projetos que atravessavam minha possível semana em Paraty. Mas não deixei de planejar a viagem. Seria o momento de encontrar escritores, editores e leitores com quem compartilho interesses nesse universo chamado literatura. Pronto. No final do ano passado, depois do anúncio de que a homenageada era a grande Hilda Hilst, decidi que era a hora de partir: marquei férias para o período, procurei pousadas e passagens. Separei a pequena mala vazia para voltar repleta de livros.

Aí o pai adoeceu. Diagnóstico: insuficiência renal. Esperei um mês, dois, e pensei: “ele vai se recuperar”. Mas a recuperação é lenta, muito mais lenta do que imaginava, e julho se aproximava. Aquele plano de ir à Flip precisou ser adiado novamente.

Deixei para trás toda aquela lista de coisas para fazer durante os dias de evento: os lançamentos de Glitter, de Bruno Ribeiro, e Tríptico Vital, de Mariana Basílio; as mesas com Alexandre Staut e Marcelo Maluf no Espaço do Museu da Língua Portuguesa; a visita à Casa Bondelê para ouvir Sheyla Smanioto e Carola Saavedra ( aproveitaria para pegar a dedicatória do seu Com armas sonolentas); a mesa sobre os golpes de 1964 e 2016 com Rodrigo Novaes e Rosângela Vieira Rocha, autora do pungente O indizível sentido do amor, na Casa do Desejo – Literaturas que desejamos. Aliás, a Casa do Desejo, seria visita obrigatória. Um espaço de conquista mais que especial das pequenas editoras que publicam ano a ano escritoras e escritores que fazem a nova literatura brasileira.

E a programação principal, pelo segundo ano consecutivo sob a curadoria de Josélia Aguiar, promete: Maria Teresa Horta, uma das autoras de Novas Cartas Portuguesas, um marco sobre a condição da mulher que abalou o fascismo do regime de Salazar na década de 1970. E estarão também presentes Sérgio Sant’Anna, André Aciman, Djamila Ribeiro, Liudmila Petruchévskaia e Geovani Martins.

Alguns eu não poderia deixar de ouvir: é o caso do americano Colson Whitehead, autor do necessário The Underground Railroad, vencedor do Pulitzer 2017. O romance narra a fuga da escrava Cora, do Sul ao Norte dos Estados Unidos da América, via uma fantástica – e problemática – ferrovia subterrânea. A saga da protagonista pelos diferentes estados do Sul e suas diferentes legislações sobre a escravidão conta com toques de fantasia – a ideia de ferrovia subterrânea existia entre os abolicionistas americanos, mas como uma metáfora para a rede de apoio que se estabeleceu em torno da libertação de escravos – e uma pesquisa histórica detalhada sobre as diferentes camadas do horror em cada fração do espaço americano. É um romance necessário por ser uma poderosa narrativa sobre um dos períodos mais nefastos da história de nosso continente. E antes de qualquer coisa, The Underground Railroad é uma inquietante pergunta sobre o que é ser livre. Mesmo passado tanto tempo da barbárie que Cora presenciou em seu ambiente e em seu corpo, resta aos leitores a sensação de que a opressão e o terror subsistem de outras formas contra os mesmos personagens.

Não poderia deixar de ver Leila Slimani, francesa de origem marroquina, que publicou, em 2016, um romance que tem despertado amor e ódio nos leitores brasileiros: Canção de ninar, vencedor do Goncourt, o mais prestigiado prêmio literário de seu país. A frase que abre o romance – “O bebê está morto” – já entrou para o rol de melhores começos dos últimos anos. Um resumo simplista poderia dizer que se trata da história do assassinato de duas crianças por uma babá. Mas o romance de Slimani é um interessante estudo sobre as questões de classe e gênero de nosso tempo. A narrativa quase sem diálogos examina os sentimentos mais íntimos das personagens que dão corpo à história: Myriam, a mãe que deseja voltar ao mercado de trabalho e entrega os cuidados de seus dois filhos a outra mulher; Paul, o pai workaholic e pouco participativo na educação dos filhos; e Louise, a babá, uma das personagens mais complexas da literatura recente e que consegue despertar ao mesmo tempo compaixão e ódio no leitor. E é a visão de Louise, predominante na narrativa, que talvez tenha causado certo incômodo por aqui, onde a relação patrão e empregados domésticos carrega traços do Brasil Colonial.

Por fim, não perderia a mesa com Thereza Maia e Franklin Carvalho, autor do premiado Céus e Terra (Prêmio Sesc, Prêmio São Paulo de Literatura para estreantes acima de 40 anos e finalista do Prêmio Rio de Literatura). O livro é um retrato do país profundo, esse Brasil tão diverso onde a vida do próximo, por vezes, se torna quase irreconhecível ou tragicamente desumanizada. Com uma linguagem viva e alegórica, acompanhamos o menino Galego, narrador morto no primeiro parágrafo do romance, em sua epopeia pelo Sertão Baiano na década de 1970. O Sertão é o mesmo cenário de cânones da nossa literatura como Vidas Secas e Grande Sertão: Veredas. O mesmo sertão que arrebatou leitores e prêmios em Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende. O que se diferencia nele é sua voz original. É através da voz de Galego que alcançamos esse espaço que resume de forma única a alma deste país. Ele que, teoricamente, se encontra destituído de um corpo – a materialidade da desumanização – mas em sua alegoria nos mostra com simplicidade que, sim, existem muitas mortes na existência humana, mas que nenhuma delas significa exatamente um fim. Com humor e lirismo Galego nos diz que a morte, num dos seus inúmeros significados, pode ser apenas um começo.

Essas são as coisas que faria na Flip. Coisas da imaginação.

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Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia. É autor dos livros de contos Dias (Caramurê, 2012) e A oração do carrasco (Mondrongo, 2017)

Na foto: Leila Slimani, autora participante do evento, este ano

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