* Por Victor Heringer *

26 de outubro de 2015, 8:01 (hora de Abu Dhabi)

Primeiro pôr do sol. Do alto, à noite, Abu Dhabi parece simétrica por dentro, iluminada aos quadradinhos, com uns enormes borrões escuros transmanchando. No início pensei ser água, mas logo decidi que era areia e, por fim, que podem ser ambos. Dormi a maior parte do voo. Não sofro em trânsito.

No aeroporto de São Paulo, minutos antes de embarcar, três senhores japoneses rezaram de olhos fechados, sentados nas poltronas do saguão. Viajaram ao meu lado, 14 horas quietinhos. Todos têm lá os seus ritos, e o viajante tem o privilégio de presenciá-los despidos de suas conotações sociais mais profundas (um japonês presenciando um culto evangélico, por exemplo, sem saber da existência da bancada evangélica). Esta também é uma das vantagens de não se ter um país. Ou nos irritamos com todos os países, ou com nenhum. Quando estou viajando, não me irrito com nenhum. Quando sedentário, com todos.

 

27 de outubro, 13:50 (hora de Mumbai)

Cheguei às três da manhã em Mumbai.

O avanço do avião pelo globo gasta tempo, faz avançar o relógio. No destino, após quase vinte horas de viagem, nos pedem para adiantar ainda mais os ponteiros. É assim que se adentra o dia seguinte, num duplo salto carpado horário. Seu olho nunca mais vai saber a hora de dormir.

Mr. Khan, o motorista do consulado brasileiro, estava à minha espera. O caminho para a Residência, onde estou hospedado, é pela Marine Drive. Primeiro contato com o sotaque: Mr. Khan me disse como se chamava a avenida e, até encontrar uma placa e descobrir que o nome estava em inglês, supus que se tratava de algo impronunciável numa das 23 línguas oficiais da Índia.

Dormi ao amanhecer, ouvindo pássaros crecrendo e tuiuiuindo. O barulho vem de um jardim na ruazinha em frente, mas à noite e recém-chegado, imaginei que era a selva ali mesmo, imaginei quadros de Gauguin no Taiti, imaginei que era assim que Corto Maltese devia se sentir etc. Mas à luz do dia tudo é outro. Os crés eram do formoso Corvus splendens, o corvo indiano: é o pombo deles, estão por toda parte. Os tuiús, ainda não sei.

A minha ideia é viajar macumbeiramente. Tentar ao máximo não ser turista. O turista é aquele que não incorpora o outro. É o antimacumbeiro por excelência. O turista é um trabalhador: vim, vi, fotografei. O turista sempre mantém o outro a uma distância que assegure o exotismo. Sem o exótico, não precisa do desconforto que é viajar. O viajante macumbeiro, por outro lado, quer o transe, quer que todas as distâncias se anulem, ao menos por alguns instantes. Ele vibra quando os exotismos se desfazem, para se refazerem em diferença. Há um abismo fundo entre o exótico e o diferente.

Os cálculos estéticos fazem parte da predisposição do viajante. Este é outro ponto em que turista e viajante se diferenciam, pois o turista não busca ativamente a beleza, mas espera sempre recebê-la (afinal, pagou caro).

Viajar macumbeiramente é querer viajar bonito.

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18:29

Saí às três e pouco para explorar a vizinhança. Minha anfitriã, a cônsul Rosimar Suzano, já me havia escrito que a casa era bem localizada. O Gateway of India fica a menos de 50 metros daqui. Em frente a ele, o Taj Mahal Palace Hotel.

Em menos de cinco minutos na rua, eu já estava ensopado. O calor é tanto quanto no Rio, ou melhor: são menos graus Celsius, mas mais suor. Todos os homens andam com lenços e se secam envolvendo o rosto inteiro com eles, à la santo sudário. À noite, paira uma névoa abafada nas ruas, como se o suor do dia inteiro, de todos os habitantes, estivesse voltando à forma líquida após ter evaporado.

No Portão, centenas de turistas. Alguém me disse, antes de partir, que você nunca fica sozinho na Índia. Fui abordado dezenas de vezes por fotógrafos profissionais que imprimem seu retrato na hora, em miniepsons que, de tanto calor e trabalho, precisam ser constantemente abanadas. Agentes tentam vender viagens de barco até a ilha de Elefanta e tours pela cidade. Água mineral, comidas dialetais, buzinas, pés encracados, as pessoas dormem nos cantos mais improváveis, nas quinas dos banheiros públicos e nas sarjetas.

Um dos vendedores que me abordaram se chama Raj. Foi o único que conseguiu minha atenção, explicando que os pársis “não são indianos” e que na Malabar Hill há uma torre na qual os mortos eram deixados ao léu para serem excarnados pelos corvos. “The Tower of Silence”, ele disse. Me ofereceu um tour com cerca de dez paradas. Viciado em falar com turistas, terminava a descrição de cada atração do seu itinerário com: “You go there, you take nice picture“.

Foi Raj, também, quem me explicou por que as pessoas estavam pedindo insistentemente para tirar foto comigo. No interior da Índia, não há homens brancos. Por isso, quando os interioranos vêm a Mumbai, tiram fotos com estrangeiros para depois mostrarem em suas vilas.

Receoso de transformar indianos em ponto turístico, eu mesmo virei atração turística – para os próprios indianos.

Hoje devo ter tirado mais de vinte fotos com desconhecidos. Depois de um tempo, comecei a perguntar: por que você quer um retrato comigo? Um homem de camisa polo me respondeu “Because you are beautiful“. Não consegui me desfazer da impressão de que estavam tirando sarro de mim. Uma fotógrafa: “Smile!“. Braços, muitos braços, please!, a picture with me, me too. Ao final da ciranda pelo pátio do portão, eles nem me pediam mais, já me agarravam e repetiam: “Smile!“.

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28 de outubro, 20:52

Às duas da tarde, fui ao Portão em busca de Raj. Pelo visto, está sempre ali. Ele me reconheceu e, embora não saiba nem meu nome, me deixou fotografá-lo sem hesitar. Quando viu o retrato, disse “A nice smiling face“. Eu respondi: “Yes, a strong face“. Isso foi depois que comprei o bilhete para a travessia até Elefanta. Não sei se antes ele estaria tão bem-disposto.

A viagem até a ilha leva cerca de uma hora e meia, em um barquinho de dois andares (para subir ao segundo andar: 10 rúpias). Fiquei no primeiro, observando mais o sortimento de gente no deque do que a paisagem. Ainda não sei diferenciar os grupos, os trajes, os adornos – então olho muito. Eles olham também. Leva um tempo até se acostumarem com a minha presença.

A ilha de Elefanta foi batizada assim pelos portugueses, que a tomaram no ano de 1534, pois havia uma gigantesca estátua de elefante numa das colinas. Hoje a estátua, de pedra negra, está no zoológico de Mumbai, o que diz muito sobre a nossa espécie em geral. Até os elefantes de pedra nós metemos em zoológicos.

Em Elefanta, só tirei foto com desconhecidos uma vez. A única do dia, aliás. Estou me acostumando. Não sei se é mais respeitoso negar ou simplesmente deixar que me fotografem. Na internet não há explicações plausíveis (além da que Raj me deu) para esse costume. Sou tímido demais para recusar.

As cavernas de Elefanta são um complexo de templos dedicados a Shiva. Sua idade é desconhecida, pois os portugueses não só acabaram com os cultos como destruíram as inscrições relacionadas à construção do santuário, mas presume-se que tenha sido construído entre os séculos V e VIII. Os portugueses também costumavam usar os relevos das cavernas para praticar tiro ao alvo. Pouparam somente o trimúrti, a imensa estátua central de Shiva trifronte, cada uma das faces representando a criação, a preservação e a destruição. Por que não a destruíram? Lembrava a Santíssima Trindade?

Hoje em dia, no templo de Shiva se pratica a selfie. Tentei a mão em algumas, mas não deram certo. Vim, entre outras coisas, para dar um workshop sobre selfies, ficção e autoimagem num festival e não consigo tirar uma única selfie que preste. Derrotado, pedi para uns franceses me fotografarem diante do relevo de Shiva Yogishvara, o aspecto meditativo do deus. Por sorte, é a parede mais macumbeira de toda Elefanta. O transe de Shiva não é oposto à atividade criativa, diz Camel Berkson em Elefanta: The Cave of Shiva. Muito pelo contrário, é o que o possibilita “kill demons, beget heroes, and dance the world alive“.

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23:52

O mar da Arábia me pareceu melancólico desde a primeira vez. Não é difícil encontrar, no meio da agitação e do barulho do Gateway e dos barcos, um homem quieto, com os olhos n’a água, perdido. Vítima do mar.

 

29 de outubro

Há algo de fundamentalmente pervertido em comer coisas apimentadas cinco minutos depois de acordar.

Hoje começou o festival. Tata Literature Live. Estou aqui para participar. Os Tata são uma família empreendedora, que faz de tudo, de automóveis a iogurte. Não sei, acho que um dos filhos virou mecenas cultural.

Saí da Residência e lá estava Raj à minha espera, numa rua lateral. Quando cheguei, me disseram que aqui todo mundo sabe da vida dos estrangeiros, há uma névoa de fofocas sussurrantes sobre as nossas vidas, que nos envolve mas que não entendemos. Então, essas aparições repentinas parecem mágica. Como ele soube que eu sairia àquela hora? Os porteiros avisaram?

Pode ser só coincidência.

Assim que cheguei ao prédio do NCPA (o National Centre for the Performing Arts), fui buscar o crachazinho de autor e topei com o jornalista Nick Davies, que esteve recentemente no Brasil para o Festival Piauí e me perguntou se era uma boa ir ao Rio no carnaval. Well, yes. It always is. Ele está aqui para falar sobre como derrubou o tabloide News of the World, de Rupert Murdoch (é dele a reportagem sobre o uso indevido de escutas telefônicas no jornal), entre outras coisas. Muitas coisas. Quando as pessoas se apresentam, raramente dizem “Oi, meu nome é fulano, lenda do jornalismo”. Conversamos bastante e falamos pouco de literatura, o que é bom. Um dos defeitos dos festivais literários é que todo mundo só fala de literatura.

A cerimônia de abertura foi uma conversa entre Vikram Seth e Germaine Greer, dominada pela verve palestrante de Greer. Seth é um dos escritores mais conhecidos da Índia e, até onde pude notar, um homem bastante reservado. Soube depois que saiu na capa da revista India Today segurando uma placa onde se lê “Not a criminal“, em referência à infame Section 377 do código penal indiano, que criminaliza atos sexuais “contrários à ordem natural”. As vítimas principais do 377 são homens gays, segundo me contou Malavika Jayaram, estudiosa do cyberespaço e admiradora de Oscar Niemeyer. Lésbicas ou mesmo casais héteros que praticam atos contra natura não costumam ser espancados pela polícia.

Depois expliquei a ela que Brasília é o retrato arquitetônico exato de um pesadelo brasileiro. Ela não pôde senão concordar, porque de pesadelos brasileiros supostamente sei eu.

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30 de outubro

A última mesa de ontem tinha o bombástico título “Freedom of Expression is in Imminent Danger”. Nik Gowing, jornalista da BBC, foi o mediador. Há uma divisão entre governistas e oposição, mas, mais do que isso, entre nacionalistas hindus (que apoiam o governo) e secularistas. Durante a conversa, houve gritaria. Um dos participantes, o ator Anupam Kher, tomou o microfone e gritou que a plateia havia sido comprada. Muitos foram embora em protesto.

Hoje almoçamos eu, Nick Davies e Nik Gowing.

Segundo Gowing, a polícia está monitorando o festival.

Davies falou sobre Assange: é um homem manipulador, com traços de autismo e zero empatia pelos demais seres humanos. No caso das acusações de abuso sexual, armou toda uma história de conspiração e intriga da qual Davies duvida. “É enfurecedor”, diz ele, “que muitas pessoas inteligentes da esquerda tenham caído nessa conversa”.

Davies abrigou Assange em sua casa, ajudou a vazar os dados do WikiLeaks para os grandes jornais. Assange passava as noites no computador. “Assange is flatulent“, diz Davies. Quando acordava, o anfitrião descia para a sala e tinha que abrir todas as janelas, fingindo que nada tinha acontecido, só queria mesmo abrir as janelas, sem razão especial: It’s a beautiful day!

 

31 de outubro

Raj não aparece mais. Nunca mais o verei, provavelmente.

Sou fascinado pelas formas como as pessoas entram e saem das nossas vidas. Na esmagadora maioria dos casos, elas simplesmente desaparecem, sem cerimônia, para sempre. A cônsul-geral do Sri Lanka se despediu de nós com uma fórmula bonita: “Espero vê-lo de novo”. Nunca a verei novamente.

***

À noite, festa no Taj Palace Hotel: bêbado com DBC Pierre, Karishma Attari, Malavika Jayaram e um inglês avulso. O rei do Marrocos está hospedado lá, com 250 acompanhantes. Ontem, um dos escritores do festival voltou para o quarto e encontrou um capitão do exército marroquino na cama.

 

1º de novembro

Hoje foi a melhor mesa. Workshop sobre selfies e autoimagem. Audiência receptiva e ambiente cordial. Falei que fiquei encantado pelo sufixo -wala do marathi (a língua deste estado, Maharashtra): um sufixo que se cola a basicamente qualquer substantivo para expressar a ideia de agência – de onde são, o que fazem, o que vestem etc. Me disseram que eu sou “Brazilwala”. Jornalistas são “presswala”. Quem vende manteiga é “mantegwala” e quem vende pão, “paowala”. A língua portuguesa deixou raízes por aqui.

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2 de novembro

Dia livre em Mumbai. Chhatrapati Shivaji Terminus Station. Uma última olhada melancólica para o mar da Arábia. Almoço no Leopold Café, uma espécie de Lamas mumbaikar. O Leopold foi o primeiro local atingido nos ataques terroristas de 2008, a tiros e granadas. Imagino granadas no Lamas.

Li em Bombay, meri jaan, uma coletânea de textos sobre a cidade, que a primeira grande regra de Mumbai é: “Vai dar tudo errado, mas está tudo bem”. Perto da estação, um corvo cagou na minha camisa. Não encontrei o Crawford Market. Prendi meu dedo na porta de uma loja.

Estive pensando em empalhar um espécime do Corvus splendens e levar para o Brasil. Quero comprar uma casa na roça para colocar o Corvus splendens empalhado. Foi meu único impulso de viajante-naturalista europeu.

 

3 de novembro

Nova Délhi. Casa de Bernarda Alba, a casa do Hugo e do Carlos.

Depois do almoço, fui visitar a Tumba de Humaium. Todos sabem mais ou menos como é um mausoléu mugal (o expoente máximo do estilo é o Taj Mahal), mas eu não estava preparado para o que vi.

Tive calafrios, uma reação comum diante de grandes monumentos, aquela espécie de pavor delicioso que acomete quase todo viajante que não está somente à caça de fotos. Mas, mais do que isso, senti ternura. A Tumba de Humaium é um titã de arenito perfeitamente calculado, milimetricamente moldado à forma do nosso desejo mais persistente: o de que o universo seja compreensível. A disposição das câmaras, em múltiplos de oito, evoca a cosmologia islâmica, o paraíso contado à régua, no qual tudo tem seu lugar. É uma geometria ingênua, porque está cercada por todos os lados pela evidência contrária: a bagunça orgânica da cidade, os vivos, os cheiros curvos, as raízes asfixiando as paredes das casas, a proliferação desalinhada de tudo, a buzina, o suor e o sono. Universo é balbúrdia.

Fotos tiradas com desconhecidos hoje: 1.

 

4 de novembro

Old Delhi está sempre a um passinho do acidente total: mais um pouco de caos e todos os carros e tuk-tuks e bicicletas se chocariam, todos os pedestres seriam atropelados ao mesmo tempo, todas as buzinas e gritos se juntariam num só ruído nunca ouvido nem por homens, nem por deuses. O desastre completo, cósmico. Um dia vão descobrir que o que impede o universo de se esfarelar é o trânsito indiano.

Visitei o Red Fort, residência do imperador mugal durante dois séculos, até 1857, quando Bahadur Shah II, o último a residir no forte, foi exilado pelas forças britânicas. É um belo cadáver imperial, embora, ao olhar as gravuras e ler as histórias de ministros e secretários, não consiga me desfazer da impressão de que um dia alguém, num museuzinho qualquer, passará os olhos cansados por fotos da Dilma, do Fernando Henrique e seus mil ministros… A única peça que me encantou foi uma carta enviada por Bahadur Shah à rainha Victoria, com o contorno da mãozinha do filho, Mirza Jawan Bakht, folhado a ouro.

A conversa com vendedores, taxistas e demais profissionais que orbitam o turista ainda é difícil. Primeiro: nenhum preço combinado é o preço combinado. Dei uma volta de ciclorriquixá pelos mercados ─ o preço combinado foi 100 rúpias. Ao fim do passeio, depois de ser levado a diversas lojas e semicoagido a comprar (são vendedores insistentes demais, simplesmente desisti de não comprar), o motorista, Prem, começou a dizer que o trabalho dele é muito cansativo. “É ótimo! Mas muito cansativo…” O preço final, com o imposto do cansaço: 200 rúpias.

Além disso, há muito mais camadas de discurso do que, por exemplo, na malandragem carioca, com a qual estou bem familiarizado. Abaixo do meu desconhecimento do hindi, há catacumbas intermináveis de acordos sociais e subentendidos. Eu me perco.

Fotos tiradas com desconhecidos hoje: 2. Decidi que toda vez que me pedissem, eu pediria para tirar uma foto deles.

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5 de novembro

Eu tinha planejado visitar o Qutub Minar hoje, mas choveu pela manhã e, ainda com a dor de cabeça de ontem (existe a Delhi Belly e a Old Delhi Headache), preferi ir aos museus. National Gallery of Modern Art, na Jaipur House, e o National Crafts Museum, ali perto. Comprei uma miniatura de elefante branco de Raju Swami, que me contou que sua família inteira, desde os avós remotos, se dedica à miniature painting. São do Rajastão. Seu pai, Shree Gordhan Dass Swami, foi quem lhe ensinou a técnica. Diz ele que os Swami serviram ao marajá e, se a história é boa, eu compro.

Ele também pintou um elefantinho na unha do meu indicador direito.

 

6 de novembro, 18:25

Estação de trens Haratz Nizamuddin. Há uma vaca aterrorizando a rua em frente ao restaurante em que estou (todos os restaurantes de estação de trem se parecem). Funcionários tentam afugentá-la, mas o bicho é confiante, como devem ser todos os animais sagrados. A vaca rouba maçãs de um saco descido de um caminhão, corre para lá e para cá enquanto uns meninos batem com bambus no chão: “Eia, eia!”. Ela assusta um senhor obeso que acaba de comprar um sorvete na barraquinha: lá vai ele com o sorvete na mão, lá vem a vaca por trás e…!, o homem sai correndo. Quase dá para ouvir a voz do Faustão, em hindi.

Ouço o apito dos trens nas plataformas. O meu, com destino a Khajuraho, sai às 20:10. São cerca de dez horas de viagem.

Vou ver os templos de que falava Octavio Paz.

 

20:08

Dentro do trem. Classe: AC-2, ar-condicionado e camas com cortininhas.

Encontrar o vagão e o assento é impossível se (a) você não tiver um número de celular da Índia ou (b) pagar 20 rúpias a um funcionário da Indian Railways para ele lhe dar a informação. Foi meu primeiro suborno.

Corri, classicamente, atrás do trem.

As plataformas da Haratz Nizamuddin são imundas. Nunca tinha visto sujeira dessa natureza. Na Índia, tudo é transcendental, até a imundície. Até o húmus humano aguardando os apitos.

***

Um dos meus companheiros de cabine se chama Prem, um indiano baixinho e parrudo, dono de um homestay em Khajuraho. Me deu um cartão: Prem’s Home Stay. Come & Realx In Our Peaceful Real Home Stay [sic]. A diária: 400 rúpias.

Na cabine ao lado, está Pia, uma alemã de uns 60 anos que viaja o mundo com um projeto de arte e ecologia (também escreve livros, diz). Ela e o amigo, Varun, simplesmente entraram no trem, sem tíquete, e lá estão ─ conseguiram lugar.

Pia também me falou de um lugar para ficar. Conhece a pousada de um casal (ela francesa, ele indiano). A cidade é bem pequena. Dá para ir de bicicleta para todos os lugares.

 

7 de novembro, ~17h

Cheguei na estação de Khajuraho às 7h. Aleatoriamente, preferi tomar um tuk-tuk com Pia e Varun a ir com Prem. Eles me trouxeram ao homestay de Vik (Vijay, que também significa “vitorioso”, como “Victor”) e sua esposa, a violinista francesa Vio, que está grávida do primeiro filho. Tomamos chai e resolvi ficar por aqui. A diária: 500 rúpias + café da manhã: 70 rúpias por dia.

A pousada se chama Friends in Khajuraho e fica em frente a um templo de Brahma, um dos mais antigos da região. Na realidade, é um templo dedicado a Shiva, mas o nome pegou.

O templo fica à beira de um lago, o Khajur Sagar, onde se planta castanha d’água. Os fazendeiros anfíbios passam o dia inteiro em barquinhos lá no meio. Há muito lixo nas margens.

Enquanto tomávamos chai, Pia e Varun explicaram melhor o seu projeto social. Chama-se Blue Bench. Há bancos azuis espalhados pelo mundo (México, Namíbia, Índia…), local onde se reúnem os voluntários e a comunidade. Escrevo isto sentado no banco azul de Khajuraho, construído por um marceneiro da cidade. A ideia, segundo me contaram, é apoiar artistas locais, educar ecologicamente as crianças e expandir. Me perguntaram se eu não queria fundar um banco azul no Brasil. “I’m very ambitious about this“, me disse Pia.

***

Prakash se apresentou logo de manhã e se ofereceu para me levar aos templos na garupa de sua moto. “Não quero dinheiro”, ele disse. Como está aprendendo inglês (diz que tem um exame importante daqui a um mês), quer praticar comigo.

É um menino de vinte e poucos anos, usa um par de raybans falsos (azuis com pintas de leopardo pretas) e cabelos longos. Vi alguns amigos dele fazendo piada com seu rabo de cavalo. Ainda estou sentado no blue bench, rodeado de crianças. Falam comigo, tentam se aproximar, as menores decidindo se pulam ou não no meu colo.

Primeiro percurso: Javari Temple, Vanama Temple e o complexo jaina: Shantinath, Parshwanath e Adinath.

Logo em seguida, pegamos a moto e fomos tomar chai com samosas num boteco imundo cujo dono, que todos chamam de “babu” (seu nome é Ahmal), faz piada até com o guru da cidade, que se aproximou de nós e começou a pregar a igualdade entre os homens e o corpo como templo (nessa hora, escondi o cigarro que estava fumando). Prakash é seu aluno, estuda ayurveda. Fotografei o dono do boteco, mas não me interessei tanto pelo guru.

***

A vila de Khajuraho tem cerca de 15 mil habitantes (10% muçulmanos, de acordo com Prakash). É um lugar no meio do nada, cercado por montanhas e florestas. Por isso, os templos sobreviveram. Tomados pela selva durante séculos, em um lugar militarmente desimportante, os invasores muçulmanos não os encontraram.

Na entrada da cidade, há uma placa com instruções para turistas, entre as quais: do not befriend strangers. Enquanto tomávamos outro chai, desta vez na New Village (a pousada fica na Old Village), em um restaurante chamado Monalisa, Pia me contou que alguns aldeões embebedam os turistas para roubá-los.

***

A relação com Prakash é ambígua. Ele me chama de “brother” e, quando o apresentei como “meu guia”, ele prontamente corrigiu: “Not guide; friend“. Mas talvez seja porque ele não tem licença de guia turístico (não pode entrar comigo nos templos, por exemplo, o que é certo alívio). De qualquer modo, aceitou o meu dinheiro ─ mas não me deixou pagar o chai, as samosas e as demais comidas cheias de moscas que comemos no bar de Ahmal, em companhia de Vijay e alguns outros amigos. “You are guest“, foi o que ele disse.

Quando fico calado, ele pergunta se estou triste.

“Por que você está suspirando?”

Na garupa da moto, quando estamos sozinhos, ele explica que pergunta esse tipo de coisa porque tem medo de que eu não esteja feliz com ele.

***

Ao cair da tarde, caminhamos pela Old Village, que fica logo atrás da Friends in Khajuraho. Prakash me contou que tem 23 anos de idade e ainda não pensa em se casar. Ele pediu para ver uma foto da minha namorada. Neguei, mas não porque não tenho namorada.

A Old Village é dividida em pequenos bairros de castas. Cruza-se um quebra-molas ou um arroio de esgoto e a casta muda. É tudo miserável e, para o olho do leigo, a única diferença parece ser a quantidade de roupa que as crianças estão usando. No bairro dos limpadores de latrina, elas estão completamente nuas, ou só com uma fitinha no pescoço, chorando no meio do lixo, os pés descalços nas poças de merda.

Há diferentes templos, um para cada casta, e diferentes poços. No bairro dos brâmanes fica o “palácio do rei da vila” (palavras de Prakash), uma casa média, em cujo portão há um escudo com duas lanças cruzadas. Como Khajuraho não tem muita polícia, disse o meu guia, o rei da vila resolve disputas e distribui benesses e castigos. “Funciona?”, perguntei.

“Sim.”

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***

Vim a Khajuraho em busca de Octavio Paz, mas Paz não está aqui. Ele era só mais um turista esbranquiçado, olhando boquiaberto para as torres dos templos ─ esforçando-se para não esboçar reação diante das poses sexuais esculpidas na pedra, a maioria das quais somos incapazes de reproduzir com nossos parceiros.

***

A cidade está sem luz. Foi cortada, de acordo com Vijay, para a poda das árvores. Mas a energia cai com frequência aqui.

Vijay gosta de contar piadas. Por exemplo, havia um brâmane que foi passar as férias em Goa. Enquanto rezava na praia, um policial veio até ele e disse: “Senhor, tivemos um alerta de tsunami. Vá para um lugar alto!”

O brâmane respondeu: “Não é preciso. Meu deus vai me salvar”.

Quando a água lhe chegou aos joelhos, um segundo policial apareceu: “Vá para um lugar seguro, senhor!”

“Não. Meu deus vai me salvar.”

A água subiu mais e mais. O brâmane já estava boiando quando um helicóptero surgiu para resgatá-lo.

“Não! Meu deus vai me salvar!”

O brâmane morreu e foi para o Além.

Chegando lá, irritado com a negligência divina, foi tirar satisfação com o deus: “Passei a vida inteira rezando, rezando, rezando. Meu pai e meu avô antes de mim também passaram a vida rezando, rezando, rezando! E o senhor não me salvou?!”

Oh, you bloody fool! Mandei dois policiais e um helicóptero!”

***

Há somente uma escola em Khajuraho. Os professores são voluntários e dependem da doação de turistas para comprar uniforme e material escolar para as crianças. O uniforme é importante porque, uniformizadas, a distinção entre crianças de castas diferentes desaparece. Prakash estudou nessa escola, o professor que falou comigo também (ensina hindi). Doei o que pude e disse que ele era um orgulho para os professores de todo o mundo.

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20:47

Restaurante Blue Sky, que tem uma casinha na árvore com vista para o Conjunto Oeste de tempos. Ainda não os vi à luz do dia. Jantar com Pia e o eterno Prakash, que me leva de moto para todos os lugares. É uma garupa prestativa, mas imprudente. Sempre sem capacete. Sempre rápido nas ruazinhas sem asfalto, com umas pedras soltas, do tamanho das portuguesas das calçadas brasileiras.

Os indianos que acompanham os turistas são muito gentis, mas quase sempre escorregam na fronteira da servidão, o que pode ser bem desconfortável. Prakash nos convidou diversas vezes à sua casa, para tomar café da manhã, beber água filtrada, comer, descansar etc. Talvez eu deva lhe dar mais dinheiro. É da casta dos fazendeiros, plantam dhal, amendoim e outras coisas. Contou que recentemente lhe roubaram quatro cabras. “I was very sad“, disse. Como a última monção não foi muito produtiva e as crises ocidentais fizeram minguar o turismo, o povo de Khajuraho agora precisa roubar cabras para sobreviver.

Pia viaja todo ano, num périplo para fugir do inverno alemão. Passará dez dias aqui, depois vai para o sul da Índia e logo para Joanesburgo. De lá, para a Namíbia. Tem “sangue cigano”, diz. Respondo que eu também.

Seu tataravô largou a vida na Alemanha para ser carteiro no Brasil. Andava a cavalo pelo país entregando cartas, mas se recusava a abrir as que chegavam para ele da terra natal. “Estão me querendo de volta”, pensava. Não abria. Sua mulher ficara na Alemanha e teve uma filha logo depois que o marido partiu para os trópicos. Um dia, o tataravô resolveu abrir uma carta da amada e descobriu que era pai.

Hora de voltar.

***

O cheiro da Índia fica nas roupas. Até o suor muda: um perfume de fumaça com chai. Ahmal, o babu do boteco imundo, faz o melhor chai de Khajuraho e o melhor que já tomei. Voltei duas vezes, ignorando o bom senso, as mãos sujas e as moscas. Eles servem a comida em jornais como guardanapos.

***

Originalmente, havia 85 templos em Khajuraho. Restam 22. Reza a lenda, contada no épico Prithviraj Raso, que a dinastia dos Chandella surgiu quando o deus da Lua se apaixonou por Hemvati, uma viúva brâmane de 16 anos, ao vê-la tomando banho num lago. Os dois tiveram um filho de nome Chandra, que aprendeu com os deuses os segredos do imperialismo e aos 16 matou um tigre sozinho. Os Chandella sempre foram guerreiros e matar era sua atividade primordial. Os templos foram uma espécie de contrapartida espiritual: “To perform the ritual of Bhanda Yajna, an act that would condone his mother’s sin for bearing a child out of wedlock, Chandra then built the 85 temples in Khajuraho ─ in four hours, so it is said“, segundo livrinho meio moralista que comprei aqui. A história me lembrou o famoso verso de Jorge de Sena: “Teseu, o herói, e, como todos os gregos heroicos, um filho da puta”…

Embora os visitantes sejam atraídos pelas esculturas eróticas (e é com elas que os artesãos de Khajuraho ganham dinheiro ─ eu mesmo comprei algumas), os templos são obras completas, dedicadas a todas as facetas da vida humana. O amor é só uma delas. Sem Kama Sutra, me explicou Prakash, não há vida.

Embora os templos sejam um testemunho da tolerância religiosa dos Chandella (todas as seitas eram bem-vindas, os muçulmanos também), hoje, ao visitar os templos jainas, ouvi um guia (hindu, provavelmente) explicando a um trio japonês: “Os jainas não podem comer carne nem matar insetos nem nada, então não podem exercer muitas profissões. Quase todos viram banqueiros ou coisas assim. Eles emprestam dinheiro e cobram juros, entendem? Ju-ros. Por isso é que a gente diz que eles não matam bichos, mas não têm problemas em matar gente. As pessoas morrem de fome sem dinheiro, né? Acabam com a vida delas. Os jainas são os judeus da Índia.”

***

Diferentemente da Tumba de Humaium (ou do Taj Mahal), os templos de Khajuraho unem a precisão geométrica ─ isto é, o desejo de que o universo seja exato e compreensível, com cada coisa em seu lugar ─ e o abandono orgânico. Tanto as cenas eróticas quanto as curvas das bestas mitológicas são pedra viva. As próprias torres (shikhara) são “pulled upward through some inner, instinctive urge” (a frase é do mesmo livrinho moralista). Parecem o casulo abandonado de uma libélula de carne, gigantesca e pré-histórica.

The temple is a microcosmic replica of the Cosmic Man (Mahapurusa)”.

 

8 de novembro

Conjunto Oeste. Aqui estão os monumentos mais conhecidos e visitados. Cansado da boa vontade de Prakash, vim andando até os templos. Em menos de 15 minutos de caminhada, fui abordado mais de vinte vezes. Hello, helloooo! NamasteWhere you from? Country from? Want a motorcycle ride? Want some smoke? Hash? Ou até mesmo gritos de bicho, assobios e beijinhos.

Prakash, a quem consegui evitar na saída da pousada (educadamente, sorridente, apressadamente), me alcançou no meio do caminho para me avisar que dentro do complexo não se pode fumar. “Você tem que deixar seu maço na entrada. Busca na saída”. OK, eu disse. Ofereci um cigarro. Ele negou e foi embora.

Prakash disse diversas vezes que não fuma na frente de todo mundo, só com bons amigos. Eu, pelo visto, sou um dos bons amigos. Nas minhas primeiras horas aqui, ele já fazia carinho nas minhas costas, como se me acalmasse ─ ou só para deixar claro que é mesmo meu amigo. Os homens da Índia não têm as mesmas travas que nós. Andam de mãos dadas, vão mijar juntos no mato.

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Passei muitas horas nos templos do Oeste. Sentei diante do Lakshmana, de costas para o único templo do complexo que ainda é utilizado, o Matangeshwara. Choro de criança. Sinos. Cânticos. A imaginação dos pés enlameados, a pedra molhada, o cheiro de incenso, o fresco enganador da garbhagriha (a câmara central). Sol. Um casal de turistas indianos, com um guarda-chuva preto, procura as imagens eróticas e riem. Parecem se entender na cama.

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Se você fica tempo o suficiente num templo vazio, com os pés descalços no frio chão de pedra… Se você se concentrar por alguns segundos dentro do templo vazio, com os pés descalços no frio chão de pedra, você sente. Você não sabe o que é, mas já sentiu isso antes. A tontura transcendental. As pernas bambeiam um pouco.

Os templos de Khajuraho não são monumentais, o maior ─ Kandariya Mahadeva ─ tem o tamanho de uma catedral brasileira, e não emanam clichês energéticos. Não há paz aqui além do precário silêncio (sempre precário na Índia). Há proliferação e organicidade, mesmo em pedras talhadas há mais de um milênio. Estas pedras não são a representação ou o símbolo dos deuses, mas o deus mesmo incorporado em pedra. Tentei chorar diante das estátuas, mas não consegui. Senti os calafrios do prazer estético cru: sem teoria, mas também sem muitos uaus ingênuos. Aqui, hoje, fui feliz. Verdadeiramente feliz: nenhum clichê subsistiu no dia.

Os templos fervilham de vida. Os marimbondos amarelos fazem ninhos nos orifícios, na boca aberta das estátuas. Lagartos se esquentam na cara dos deuses e ninfas e dragões. Moscas rodeiam. Pombos e corvos batem asas no topo das shikharas. Libélulas. Milhares de bichos microscópicos, bichos escuros que vivem nas câmaras. Os pequenos musgos, os turistas. Pedra viva atrai vida.

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Tenho um preferido: o Vahara Shrine (900-925), todo feito de arenito. A estátua de Vahara, terceiro avatar de Vishnu, no qual o deus se manifesta como javali. Sua pele é coalhada de deuses e deusas, simbolizando toda a Criação. A mais bela das psoríases.

Vishnu assumiu a forma de javali para resgatar a Terra do fundo das águas primordiais, depois de uma batalha de mil anos com o demônio Hiranyaksha, que a havia sequestrado e afogado.

Além de ser uma boa história para ser contada num relatório do IPCC (alegoria às vezes funciona), a estátua dentro do templo é uma das coisas mais bonitas que já vi.

 

15:36

Blue Sky de novo, seguindo a tradição de fidelidade aos restaurantes. A comida não é boa (aliás, péssima), mas não é todo dia que a gente encontra um restaurante com casa na árvore e vista para templos milenares.

Depois dos templos, voltei sozinho. Os cálculos que o corpo faz para socializar, milhares e em sua maioria inconscientes, me cansam muito, sobretudo na Índia. É realmente difícil ficar sozinho neste país. A conquista do silêncio é muito difícil.

 

8:30

Friends in Khajuraho. Na minha última noite aqui, eu, Pia e Prakash fomos tomar uma cerveja no Ganesh Restaurant, em frente ao lago Sivsagar. Bebi uma Kingfisher (Strong). Pia contou dos dois livros que escreveu. O primeiro é dedicado ao irmão, aviador amador (também voava balões), que morreu de câncer. Um livro-processo de luto. Depois de escrevê-lo, Pia foi à Namíbia e lá encontrou um artesão, a quem pediu que fizesse diversas figuras de porcos (símbolos de boa sorte), mas porcos com asas. “Então, de repente, parei de ficar triste.” Ela me deu um desses porquinhos, é feito de arame, com dois olhos de bijuteria.

 

9 de novembro

Último dia em Khajuraho. A vila inteira está se preparando para o Diwali: paredes pintadas, compras, planos. Pia me contou que a cidade fica toda iluminada pelos milhares de velas que os habitantes acendem, as diyas. O Diwali significa, tanto para os hindus quanto para os jainas e sikhs, a vitória da luz sobre a escuridão, da sabedoria sobre a ignorância.

Fui dar adeus à cidade. Sentei à sombra do templo de Vanama e bebi um litro d’água, ouvindo os marimbondos amarelos e os barulhos da manhã: as mulheres tirando água dos poços, as crianças tomando banho nos terraços… Nenhum cheiro de comida, apesar da proximidade da hora do almoço.

Agora que começo a me acostumar com a vila, tenho que ir embora. Minha vontade é ficar à sombra desses templos mais um pouco. É possível que eu nunca mais os veja, que nunca mais sinta nos dedos a lasca antiga dos cinzéis.

Quero quebrar um dedo propositalmente numa dessas pedras, para levar sempre comigo o toque dos templos ─ um dedo levemente torto, como se em contato vitalício com a pedra que o fraturou. Mas aqui não tem hospital.

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Último almoço no Blue Sky. Péssima comida. Mas, ao olhar para trás, na oposta dos templos, notei pela primeira vez, à distância, as Teeth Mountain, que protegem Khajuraho. Parecem dentes sujos, em uma vila de precário sistema odontológico.

Último chai antes do trem. Prakash finalmente se mostrou em seu terceiro avatar, montado num tuk-tuk. Perguntei: “Você o usa para quê?”

“Para os turistas.”

Revelado o mistério, assumi, tardiamente, meu papel de só mais um turista. Dei mais 500 rúpias, pelos serviços prestados e em honra da ambiguidade. Até a hora de partir, não me dirigi a ele ─ não por raiva nem por nada, mas com uma esquisita sensação de ter sido manipulado. Nos despedimos com um abraço. Sincero.

Meu namoradinho.

Tomamos o último chai num barraco no meio da estrada para a estação, uma lona sustentada por pedaços de pau. Lembrei de Varun, o companheiro de Pia no Blue Bench, que viajou conosco no trem para cá. Ele me deu um cigarro assim que chegamos a Khajuraho. O povo da vila o saudou tocando-lhe os pés, o que de início não entendi. Ele tocou bastante em mim também, nas costas, nos ombros. Um carinho quando eu agradecia pelas coisas ou dizia que ele devia ficar mais uns dias, para nos conhecermos melhor. Ele tem uma calma.

Ao redor da mesa de madeira decrépita do barraco de chai, perguntei se Varun era alguma autoridade religiosa. Sim, me contaram. É brâmane. O alto-sacerdote de Chitrakoot, como o pai antes dele. Pia conheceu o pai de Varun: “Ele mantinha distância de mim e da minha mãe”. Para os brâmanes, estrangeiros são intocáveis.

Os carinhos de Varun significam muito mais do que eu imaginava.

 

11 de novembro

De volta a Délhi. Ontem: jantar de Diwali com os amigos da embaixada brasileira. O dia inteiro foi de rojões. Agora à noite, os vizinhos da Casa de Bernarda Alba, a amável casa do Carlos e do Hugo, acenderam velas nos quintais e nas portas. Fogos e estalos ininterruptamente. Buzinas ao longe. Oferendas na porta dos restaurantes. Sentirei saudades daqui.

 

17 de novembro

São Paulo… De volta às minúcias. Ainda dormindo mal, comprei xicrinhas para o chai, traduzi o conto “Toba Tek Singh” de Saadat Hasan Manto, comprei taças de vinho (a última estava rachada) e um frasco novo de perfume, fui ao lançamento da Marília, do Leonardo e do Dimitri, todos juntos no Bar Balcão.

Corri, ainda dormindo mal, todos os dias de manhã. Hoje me machuquei. O joelho direito ficou inflamado, comprei cetoprofeno, tirei radiografia, estou mancando. Dói. Os joelhos são a parte mais importante do corpo do viajante. Está tudo bem com os meus, segundo o exame, os ossos não desgastaram tanto, é só uma inflamação.

Colei a radiografia na janela e, quando a tarde cai, meus ossos ficam dourados e azuis com a luz paulistana. Os joelhos são a parte mais importante do corpo do viajante. Estou mancando, mas em cinco dias estarei curado, é o que dizem os médicos.

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heringervictor

Victor Heringer é escritor, colunista da Revista Pessoa e autor dos romances Glória e O amor dos homens avulsos (prelo); as fotos são de sua autoria

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