São cinco espectros que se movem às margens pútridas, onde as águas que avançam sobre a terra gorgolejam em copos de plástico quebrados e embalagens desbotadas de batata frita. São cinco espectros, uma coluna de fumaça, cheiro de queimado, algo artificial, dorido. São cinco espectros que se movem perto do rio. Permanecem em silêncio a maior parte do tempo, soltam apenas uma palavra, duas, ruídos, quando precisam chamar a atenção para o cachimbo feito com cano PVC que compartilham passando de mão em mão. Carros fazem ranger as madeiras da ponte e lançam sucessivos feixes de luz sobre as águas, sobre as margens pútridas, e por instantes os cinco ganham rostos, nomes, feridas. São espectros que se movem perto do rio, depois da ponte, cada um tem fome, sede, medo, raiva, cio. E carrega também alguma ternura. Um dos espectros está apaixonado e não é correspondido, nunca foi correspondido, a fumaça que lhe entra pelos pulmões acalma um pouco a espera, queria ter uma namorada, nunca teve, e isso lhe parece injusto. Não é tão mau assim, não é tão feio assim, sabe jogar bola, sabia, agora não joga mais. É difícil passar a vida sozinho, pensa esse espectro, sem entender que é ainda muito jovem, que as coisas estão por vir. Os outros são mais velhos, alguns têm filhos. Há dois que não conhecem o pai e um que deixou de gostar da mãe, tudo igual ao que acontece em toda parte, onde as pessoas são gente de carne e osso. São cinco espectros que se movem perto do rio, cinco, recortados pela fumaça muito fina que sai das gargantas e do cachimbo.

Amanaçu é rio em que ninguém mais entra, só mesmo os espectros, quando precisam se refrescar. O rio, que corre no meio do vale, partindo a cidade em duas bandas, carrega agora o sumo imundo das granjas. Na lacuna do planalto, tão longe, tão alto, despejam a massa dos esterqueiros na água, esterco de galinha e de porco, mais de porco, apodrecendo juncos e peixes. Não fazem isso todos os dias, mas de tempos em tempos, quando a cidade apodrece, depois melhora, como hoje. A noite está quente, um deles arranca a camiseta e os chinelos e se joga na água, de bermuda, nadando devagar até alcançar uma das colunas de madeira que sustêm a ponte. Ergue os braços acima da cabeça para chamar os outros, mas ninguém dá atenção. Quando volta, uma nova rodada do cachimbo está em curso, pensa em declinar, está fresco e apaziguado pelo banho, mas acaba cedendo. As pessoas que caminham do outro lado e que não se aproximam mais daquela margem, onde pululam os espectros, olham para eles. As pessoas são casais de namorados, pais, mães, beatas de terço, crentes, simples depravados. Olham para eles e sentem arrepios, temem pelos próprios filhos, não sabem o que fazer, isso é coisa que nunca imaginaram em Buriti Pequeno. De longe, não reconhecem os espectros, mas sabem quem são, porque são sempre os mesmos. Os espectros, por sua vez, olham para a outra margem iluminada pelos postes, para a calçada muito reta onde as pessoas desfilam em trajes de domingo e sentem que existe nessa distância algo invencível. Parece que estão vendo os citadinos pela televisão, figurantes de uma novela. E, aos citadinos, os espectros parecem saídos de um filme de terror, cadavéricos e cobertos de chagas.

O espectro que entrou na água se deita no chão, usando os chinelos e a camiseta ainda seca como travesseiro, e cruza as mãos atrás da cabeça. Enquanto a umidade se desprende do corpo, olha para as nuvens rarefeitas que encobrem o quarto minguante. Arqueja, sente cheiro de amônia nos cabelos e na pele. É um cheiro ruim, mas familiar. Não é que sinta gosto, só vontade de continuar sentindo aquele cheiro. Para esse espectro, o mundo é tão vazio. De cócoras, outro espectro desenha na terra com um pedaço de pau, perfaz triângulos, corações, linhas em zigue-zague. Outro cutuca a casca de uma ferida que lhe salta da bochecha, puxa os pedaços esbranquiçados para examiná-los dentro do que a escuridão permite e depois os atira longe. E assim os cinco se distribuem pela margem, ensimesmados, ocupados nessas pequeníssimas tarefas. Quando o torpor começa a se dissipar, o espectro que entrou na água ergue a cabeça e vê que do outro lado a calçada está vazia. Os citadinos já se recolheram às suas casas, aos seus derradeiros programas de domingo. Muitas tevês estão ligadas àquela hora, ele sabe. Muitos pijamas limpos estendidos sobre as camas, muitos pratos guarnecidos com sopa de galinha, cenoura, batata, bolo de trigo. O espectro pensa no perfume que os lençóis têm assim que são tirados ainda quentes do varal, pensa na espuma fria dos sabonetes, se lembra de como eram os caldos grossos que jaziam nas panelas, a luz que atravessava os vidros das lâmpadas nos quartos de dormir. Deitado agora com a cabeça de lado, nota que um sexto espectro atravessa a ponte carregando duas sacolas plásticas. De chinelos remendados com pregos, o sexto se aproxima e diz boa noite. Os cinco murmuram cumprimentos. Nas sacolas, há pães e uma garrafa de guaraná Jaó, em torno dos quais todos se reúnem. Agora conversam um pouco, falam de possibilidades, de pessoas e lugares onde podem conseguir aquilo que buscam incessantemente. O problema é que tem mais espectro que pedra nas margens desse rio, pensa aquele que há pouco se refrescava no Amanaçu. Não há mais nada para os cachimbos e o sexto espectro, diante deste fato, se ressente.

Satisfeitos com os pães e o refrigerante, dois espectros se despedem do grupo e partem. Quando alcançam a ponte, cada um toma uma direção. O que levou as sacolas não se conforma com a falta de sorte e insiste com os demais, não terá sobrado algo, uma pedrinha sequer? Mas não há nada realmente, ele terá de buscar em outras margens. Como se aqui somos apenas nós? O espectro que entrou na água dá de ombros, não tem resposta para essa questão. O sexto começa a roer as unhas, mas estas já quase não existem, então devora as cutículas desfeitas em panarícios. Um vento morno varre a margem, carrega as sacolas vazias que antes guardavam os pães e o refrigerante, é tarde, não há mais nada que possam fazer. Sentados em círculo, um sugere acender uma fogueira. Esse espectro se levanta e, em posição de semeadura, cata a galharia que se espalha ao redor. Volta com um ramalhete nos braços. Armados os galhos em uma pilha, um segundo espectro saca do bolso um isqueiro e, com um pedaço de jornal que voava a esmo, acende o lume. Dispõem as mãos em torno do fogo, não porque faça frio, mas pelo prazer do contato com as chamas. O sexto espectro pergunta se não haveria resto de aguardente em alguma das garrafas jogadas nos fundos do Bar do Meio, ao que ninguém dá certeza. Ele caminha até o monte de garrafas, verifica uma a uma, verte nos lábios as gotas que encontra, quase nada, não encheriam um dedal. Larga as garrafas espalhadas no fundo do bar, volta para junto dos demais espectros e começa a atirar à fogueira o que encontra ao alcance da mão, papéis, tampinhas, uma caixa de fósforos vazia. Cada material empresta uma cor diferente ao fogo, assim como às faíscas e à fumaça que sobe ondulada pelo vento.

Os morros em torno da cidade dividida são escuros. Neles, não há uma fagulha de luz e suas formas lembram animais distantes no tempo ou no espaço: um dinossauro, uma baleia, um rinoceronte. Silhuetas excêntricas para morros que escondem tatu-canastra, jaguatirica, ouriço-caixeiro, gralha-do-campo, tamanduá-bandeira, papagaio-galego. Os espectros escutam os sussurros que vêm de lá, as falas dos animais, a madeira que estala no fogo, o rio sujo que volteia as pedras. Apenas escutam, escutam. Até que distinguem um som de motor de carro no outro lado da cidade, uma barafunda nervosa de curvas e gasolina. O som terrível se aproxima, o carro aparece perto da margem. Joga sobre os espectros uma luminosidade ferina, atravessa a ponte e cambaleia na terra em direção à diminuta fogueira. Com os olhos contraídos, os espectros tentam, mas não conseguem identificar quem vem ao volante. Um deles cobre o rosto com os braços, xinga. O sexto espectro é o único que persiste na tentativa de ver quem vem lá e portanto o primeiro a perceber que o homem que salta do carro segura um revólver. O sexto espectro cai sentado, só então os outros se dão conta do que se lhes aproxima. O espectro que entrou na água titubeia, não sabe se corre nesta ou naquela direção, e acaba parado diante do homem com revólver, enquanto os demais aproveitam e escapam por onde dá. A fogueira tem mais brasas que fogo, não oferece luz para ver as feições do homem com revólver. Dele, só se apreende a silhueta contornada pelos faróis do carro. O espectro que entrou na água vê a fumaça que sai do cano de escapamento, tem a ideia absurda de driblar o homem e entrar no carro para fugir, mas sabe que não há chance.

O homem sustenta a arma contra o espectro e dá dois passos em sua direção. O espectro, que não entende a razão desta abordagem, tenta se lembrar de algum desentendimento ou desafeto, de alguma briga recente. Rememora os erros cometidos e há muitos, mas nada proporcional a isso. Assim, sem compreender o que leva esse homem a ameaçá-lo de forma tão decidida, encolhe sob a mira do revólver. Não sabe se levará um tiro ou se tudo não passa de brincadeira de mau gosto, não sabe se morrerá, se a morte chegará lenta ou a passos largos, e essas incertezas se espalham pelo seu corpo com efeito de uma forte anestesia. Turvado, une as mãos junto ao peito, abre a boca devagar e faz uma súplica, precisa de uma explicação. O que eu fiz pro senhor? O homem com revólver ri. O riso se transforma em uma sonora gargalhada e o homem acaba pendendo a cabeça para trás, de modo que a luz dos faróis revela sua identidade. O espectro sente as pernas se desmancharem, agora compreende tudo, cai de joelhos, e a vida começa a se desprender, a sair pelos poros. Cobre o rosto com as mãos, chora aos soluços. O homem com revólver fica sério outra vez. Não tem vergonha de chorar desse jeito, seu merda? O espectro nada responde, apenas pousa as mãos sobre as pernas e permite que seu rosto esteja à mostra, côncavo, encharcado de secreções, cascas, sonhos, derrotas e lágrimas. Por que teria vergonha de chorar, de se acovardar diante do fim? O Amanaçu, liso e escuro, reflete a luz dos faróis, mostrando o vermelho da tinta que cobre as vigas da ponte, o branco da igreja, os detalhes nas molduras das janelas coloniais. Revela os bancos de cimento, as fachadas das lojinhas humildes, o jatobá, a cúpula do coreto no centro da praça. O espectro aperta os olhos para não enxergar, para não ver o homem nem o momento em que apertará o gatilho. O espectro nem é mais um espectro. Todo pele, sangue e músculos, ele se pergunta se, ao morrer, terá tempo de ouvir o tiro.

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Paulliny Tort é jornalista e escritora de ficção. Seu romance de estreia, Allegro ma non troppo (Oito e Meio, 2016) foi finalista do Prêmio Oceanos de Literatura. Atualmente, produz e apresenta o podcast Sem Papas – Literatura para novos tempos.

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