Sem motocicleta não dá para chegar. São seis quilômetros de estrada, sem sombra, sem acostamento, só o asfalto preto e quente, carcomido de buracos em que caberiam um pneu inteiro. Mas seis quilômetros não são tanto, até poderiam ir a pé, não fosse tão embaraçoso. Com olhos alertas na penumbra do quarto, Neverson tenta encontrar uma solução, mas não tem jeito, terá de pedir a moto do Edson. Fará isso logo cedo, antes que ele invente qualquer coisa e diga que não pode emprestar. Neverson rói as unhas que restam, até que uma fímbria de luz passa por um buraco na telha e dissolve a escuridão do quarto. Assim que ouve a mãe abrir a lata de café na cozinha, escorre para dentro da calça jeans e passa uma camiseta pelo pescoço. Calça os tênis e sai de casa sem falar com ninguém. Na rua, acende um cigarro, atravessa a ponte sobre o rio cinzento, passa em frente à igreja sem fazer o sinal da cruz e toca palmas diante do portão de uma casa de pé-direito baixo. Ô Edson!

O amigo segura um pedaço de pão com manteiga quando aparece na janela com o peito nu, corrente prateada no pulso esquerdo, e faz um gesto para que entre. Dentro da casa, Neverson e Edson se cumprimentam com uma sequência rápida apertos de mãos. É hoje? É, responde Neverson. Edson ri, meneia cabeça e pressiona o botão da garrafa térmica quatro vezes para encher o copo de café, enquanto mastiga de boca aberta o pão borrachudo. O líquido borbulha e espalha um cheiro doce pela cozinha. Quer café? Sem responder, Neverson pega um copo no escorredor de louça em cima da pia e se serve. Cadê sua mãe? Na igreja dos pretos desde madrugada, aquela ali nasceu pra freira. Neverson olha pela janela que dá para os fundos e vê a moto, perto de umas latas de tinta vazias que Edson, pintor de parede, vai juntando por ali. É uma titan 125 cilindradas, vermelha, mil e quinhentos reais. Neverson sabe o preço porque também esteve de olho na moto, só não arranjou dinheiro. Ficam os dois em silêncio, até que Neverson gira o café no copo, toma de um gole e aponta com a cabeça para o quintal. Me empresta?

Edson pega a camiseta no espaldar da cadeira e se veste sem dizer nada, a corrente descendo e subindo pelo braço fino. Neverson bota a mão no capacete que está em cima da mesa. Ele não tem carteira, mas Edson também não tem, e os dois pilotavam mais ou menos do mesmo jeito. Nem bem nem mal. São só seis quilômetros, não tem como acontecer nada de errado. Hein, Edson? Me empresta a moto, irmão? Edson vira o restinho de café na pia e passa uma água no copo. Não sei, tava pensando em acompanhar a folia. Desde quando precisa de moto para acompanhar a folia? Neverson cruza os braços e espera outra resposta, visivelmente magoado. Tá, tá, eu empresto. Mas ó, ai de você se acontecer alguma coisa com a Vermelha. O rosto de Neverson desanuvia. Sorridente, toma a chave nas mãos, mete o capacete embaixo do braço e caminha até o quintal para montar na moto, enquanto Edson abre o portão lateral. Sai patinando igual a criança pequena e gira a chave quando alcança a rua de terra batida. Buzina e acena para o amigo. Não coloca o capacete, quer ser visto, e acelera ao passar perto de umas mulheres de saias e cabelos compridos, que conversam na esquina.

Na praça em frente à rodoviária, os homens de chapéu já ostentam a bandeira dos reis magos. A reza começará às nove, na casa da dona Maria do Socorro, que todos os anos compra quatro garrafões de vinho tinto para o compromisso espiritual com os foliões. Da casa dela, já um pouco tontos, eles passarão à próxima casa e depois à próxima e assim por diante. Em cada casa, deitarão a bandeira sobre as camas dos moradores e cantarão e tocarão em um quase transe, bebendo sem parar. A folia só acabará à noite, na Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, onde os foliões chegarão trocando as pernas e assistirão à missa. Mas o cortejo ainda não começou, os homens de chapéu apenas empunham seus instrumentos quando Neverson passa de moto. Ele cumprimenta os foliões, quase todos são amigos de seu avô, e recebe os cumprimentos de volta. São homens pobres e enfeitados, paramentados com escudos e brasões que eles mesmos desenharam, pintaram e bordaram, um pouco toscamente, com traços honestos e cores muito vivas, mas Neverson não repara em nada disso.

A essa altura, Rosa já está trabalhando. Sem descer da moto, ele para em frente ao mercadinho, vê que ela está sentada com os braços cruzados sobre o balcão. Buzina duas vezes. Rosa vira a cabeça, sorri e corre para a rua. Dá um beijo na boca do namorado, deixando nele o lustroso do batom, e acaricia o guidão da moto. O Edson emprestou? Emprestou. E que horas a gente vai? Umas quatro e meia? Pode ser. Rosa inventará uma desculpa para largar o serviço mais cedo e o encontrará na saída da cidade, perto do trevo. Por saberem que logo estarão nus e vulneráveis, a despedida é desajeitada, desencontram-se os beijos. Rosa é bonita demais para ele, bonita demais para Buriti Pequeno, Neverson estremece só de pensar e sente o sangue correr nas veias.

O tempo passa fraco, como se à beira da morte, não chegando nunca o fim de cada hora, mesmo no bar, onde Neverson joga sinuca e bebe. Até que, às quatro e vinte e cinco, ele vira um copo de cerveja, joga no chão a bituca do cigarro e monta na moto. Evita a rua principal e acelera para a saída da cidade. Rosa está de pé, ao lado de uma placa, cavoucando o chão com a ponta da sandália de plástico. Como o sol está forte, ela franze o rosto, mas muda de expressão quando vê Neverson se aproximar. Ele para sem desligar a moto. Os dois se cumprimentam, sérios, mais parece que vão assaltar um banco, se banco houvesse na cidade. Neverson entrega para Rosa o capacete. Tem cheiro de suor, mas ela mete na cabeça assim mesmo. Estica a perna para subir na garupa, acomoda a bolsinha de crochê no espaço entre as coxas e abraça o namorado por trás.

Contornam a rotatória e seguem pela estrada que leva à gruta. Do asfalto, se desprendem colunas de calor, mas a velocidade da motocicleta torna tudo fresco, pelo menos para ele, que está sem capacete. Logo não há mais cidade ao redor, só o cerrado seco e retorcido, uma que outra casinha distante, sem reboco, e uns gaviões planando em círculos. À exceção de um velho que vem a pé pela estrada com um saco de algodão nas costas, não cruzam com ninguém. Talvez por ser sábado, dia de santos reis, não há gente chegando ou saindo de Buriti Pequeno. Quando avista a entrada da propriedade, Neverson atravessa a pista na contramão. Estaciona a moto ao lado da cancela. Por prudência, esconde o capacete no matagal, entre arbustos de mamona. O que não falta é vagabundo pra roubar as coisas dos outros, ele diz e põe os olhos na estrada vazia. A cancela está presa com uma corrente, mas eles passam para o outro lado se espremendo por entre as ripas. De mãos dadas, avançam por uma pinguela que atravessa um lodaçal, passam por vacas que ruminam em um mar de moscas e veem uma pele de cascavel largada no trilheiro. Neverson aponta com o queixo para a pele solta. A caverna fica a um quilômetro da entrada da propriedade e eles fazem o caminho em silêncio, comentam apenas sobre o tempo, esse chove não chove, um calor desgraçado, a vila que cozinha no meio do vale. Dizem que pros lados de Mambaí está chovendo. É, ouvi dizer. E isso foi tudo.

A Encantada fica em uma depressão no meio da floresta e é preciso descer uma escada de madeira apodrecida em que faltam degraus e sobram pregos com as pontas enferrujadas para fora. Neverson oferece mãos e braços para ajudar a namorada na descida, o tempo inteiro pedindo que ela tome cuidado, que pise aqui, que não pise ali, como quem trata com uma criança. Cercada de zelo, Rosa se mostra incapaz, atrapalhada, mas poderia muito bem fazer tudo isso sozinha. Tornam a se dar as mãos, caminham um pouco e estacam, sentindo os miasmas que saem da boca da caverna, o cheiro de mofo, a escuridão, os cicios. Passam por uma tartaruga que descansa em cima de uma pedra e pensam na enxurrada que deve tê-la jogado lá embaixo. Como ela vai voltar pra cima? Não volta, responde Neverson.

Da gruta, sai um riacho barrento, um dos muitos braços do Amanaçu. E, como tem chovido na nascente, o volume da água está maior que o previsto. Neverson pensou que a água chegaria aos joelhos, mas passa da cintura e molhará muito as roupas deles. Antes de entrar na caverna, olha para Rosa como que confirmando a vontade dela em prosseguir. Rosa aperta a mão dele com força e fica entendido que aquilo é um sim. Antes de continuarem, ela tira as sandálias e ergue no alto a bolsinha, com a mão esquerda. Mergulham no escuro, assustados com os cheiros e os sons do profundo. Neverson ilumina o caminho com a lanterna do celular, mesmo assim não dá para enxergar quase nada. Por dentro da camiseta, ele leva um saco plástico com a carteira, um lençol, um maço de cigarros e um isqueiro. Com a outra mão, puxa Rosa. Nela, a água barrenta bate no peito.

Não demora até que terminam de atravessar a água e passam a uma parte mais iluminada da caverna. Não precisam mais da lanterna e Neverson desliga o celular. Você já tinha vindo aqui? Algumas vezes. Com mulher? Não, não, só com meus amigos. Quando chegam à outra ponta da Encantada, Rosa vê que a caverna se abre por detrás de uma cachoeira. Um casal de mergulhões passa rasante por suas cabeças, repetidas vezes. Olhando para o lado, Neverson descobre que estão muito próximos de dois filhotes gordos, cobertos por penugens cinzentas, acomodados em um ninho de pedras. Rosa acha a coisa mais linda e faz menção de mexer, mas é contida pelo braço dele. Melhor não.

Voltam um pouco do caminho percorrido e encontram um canto coberto de terra. Neverson vê uma camisinha usada no chão e empurra longe com a ponta do calçado; não quer que Rosa se sinta constrangida. Estende no chão o lençol que tirou do saco plástico, arranca a camiseta, a calça, os tênis ensopados e se deita. A cueca também está ensopada, mas acha melhor não tirar por enquanto. Rosa não se despe, apenas se deita ao lado dele, sentindo nos ossos o frio da caverna. Eles se beijam, primeiro com calma, depois com força, a mão dele na nuca dela, para não deixá-la escapar, para não deixá-la escapar nunca mais, talvez Neverson esteja apaixonado. Param quando Rosa ergue a cabeça de repente e acende os olhos na escuridão. Ouviu isso? O quê? Escuta, escuta! A água? Não, Neverson! Os mergulhões? Escuta, escuta! Tem gente!

Ele não ouve nada. Fora a corredeira e os pássaros, tudo silêncio. Tenta puxá-la de volta para o lençol úmido, mas ela resiste. Tem, sim! Tem gente! Rosa se levanta. Vamo embora! Mas ela não viu que não encontraram ninguém na estrada? Rosa, é dia de santos reis, está todo mundo na folia, ninguém vai… Não interessa, quero ir embora agora. Não tem como teimar com ela do jeito que está. Neverson ainda apura os ouvidos para escutar enquanto veste com dificuldade as roupas encharcadas, mas até os mergulhões estão em silêncio. A única coisa que ouve é o murmúrio da água, constante e absoluto. Dá pra sair por aqui? Ela aponta na direção da cachoeira. Dá, Neverson responde. Saem por esse caminho, uma trilha de pedras ao lado da queda d’água, e Rosa reclama por não terem feito esse trajeto na ida. Roupas molhadas, sentem a água escorrer pelo corpo enquanto caminham de volta até a entrada da propriedade. Chove fino agora, gotículas cobrem suas cabeças silenciosas, formando pequenos prismas que brilham à luz de um sol pálido. Quando passam pelas vacas e atravessam o lodaçal, sentem um alívio imenso, sabem que estão chegando, que não serão mais obrigados a esse convívio e a essa vergonha. Se ela não queria, devia ter dito, Neverson pensa. Se ele pensou, estava enganado, Rosa se indigna. Do outro lado da cancela, encontram a titan 125, velha e suja do jeito que sempre esteve. Parece até que nasceu assim, essa moto, de segunda mão. É o comentário que Rosa faz depois daquela mudez, quando então Neverson se aproxima da Vermelha em passos frouxos e devagar toca o capacete pendurado no guidão.

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Paulliny Tort é jornalista e escritora de ficção. Seu romance de estreia, Allegro ma non troppo (Oito e Meio, 2016) foi finalista do Prêmio Oceanos de Literatura. Atualmente, produz e apresenta o podcast Sem Papas – Literatura para novos tempos.

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