* Por Carina Lessa *
Godofredo de Oliveira Neto, da ABL, lança romance na França, ainda inédito no Brasil, que trata do desperdício nas relações humanas
Em Amor líquido, Bauman nos declara: “o homo sexualis, abandonado [orphaned] e destituído, não tem mais a quem recorrer em busca de conselho, socorro e ajuda”. A grande ferida estaria nos consultórios terapêuticos que, podemos dizer, avançaram mais durante a pandemia. Em recente romance, Godofredo de Oliveira Neto compõe um narrador marcado pela destituição do futuro e dos espectros do passado, o narrador é esboço de uma realidade atravessada pela ausência de filhos ou de legado (i)materiais.
A semente orgânica abandona o caráter abençoado para transcrever-se em maldição. A fragilidade das estruturas familiares é mote de questionamento também em âmbito da milenar tarefa de coser ideias com o antepassado artístico, tudo é descarte. O livro inicia sob o encontro do narrador-personagem, Luigi, com um parente que lhe entregaria uma suposta herança: o esboço de um quadro do Jheronimus Bosch.
A orfandade é elaborada pelo mal-estar metalinguístico e físico nas peles ressecadas e, quase sem carne, do personagem em diálogo com referências múltiplas a obras da história da humanidade. Não há aprofundamento de nenhuma delas, o que caracteriza uma mobilidade estética da precarização do sujeito. A deslealdade o conduz às dores do autossacrifício. Iludido pelas veias do acaso, o corpo do personagem entra em desespero pela fome não saciada.
Luigi descredencia sua potencialidade: “Penso em Ana Júlia, tomo dois comprimidos do ansiolítico, me acalmo, as palavras retomam aos poucos o seu caminho semântico, logo volto a não compreender o que acabo de redigir, opto por ditados populares, metáforas puídas e usadas, talvez elas encerrem o meu pensamento, me arrependo, são constrangedoras, retomo a escrita, a separação das palavras no final da frase altera o pedaço que vinha depois, vocábulos ilógicos, inexistentes ou transformados em outra coisa, interrompo com soluços, o pranto me consome, me esvazia, vomito na pia do quarto, vontade de desistir, mandar tudo para o inferno”.
A reflexão parte do desejo de se corresponder com a mulher amada, foco de constante desconfiança, palavra esta que parece reger o romance inteiro. O compromisso perene transmuda-se em queixas, numa sociedade de consumo, na qual o primeiro ingrediente é o fundamento cultural associado à natureza, de modo que o sexo também aparece como insatisfação do convívio humano.
A viagem de busca pela herança irrompe em Luigi a caracterização da pele desde a chegada em Nova York, quando se reconhece a própria latinidade sob diversos matizes. A miséria das relações debate-se nas palavras trocadas com os parentes via whatsapp. As redes sociais são o mundo do comércio e invadem os encontros físicos, para além dos virtuais, em linguagem ágil, violenta e ansiosa. Cancelam-se as alegrias, confrontam-se a familiaridade e as ambições pessoais. “A quem entregar uma herança?” ou “Por que entregar uma herança?” parecem ser as perguntas que atravessam o trabalho ficcional godofrediano.
O sexo e o amor fraterno misturam-se ao vômito reflexivo da narrativa (literal e metaforicamente), o que faz pensar sobre a máscara de falsa felicidade embutida no contemporâneo. Os efeitos colaterais do acúmulo de bens são denunciados pelo descarte de todas as ideias. O personagem põe o dedo inquisidor no sangue escorrido da opressão, opera a náusea no leitor, apreendido pela ética e moral que o consomem. Espargidos os vendedores de comprimidos, nos questionamos sobre a fratura da vida, sobre a liquidez dos laços humanos. O romance, claro, sai engrandecido em suas páginas condensadas, e mordentes como toda grande obra deve o ser.
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BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
OLIVEIRA NETO, G. Esquisse. (Texto inédito)
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Carina Lessa é ficcionista, poeta e ensaísta. Doutora, mestre e bacharel em Letras pela UFRJ, atua como professora de graduação e pós-graduação na Unesa nos cursos de Letras, Pedagogia e Relações Internacionais. Especialista na obra do autor supracitado, é autora do livro A esquizofrenia do escritor, uma poética da obra de Godofredo de Oliveira Neto.