*Por Moacyr Godoy*
Em Lá é o tempo, de Maria Fernanda Maglio (Todavia, 2026), há duas histórias, a princípio, ocorridas num lapso de tempo de trinta anos. O leitor vai sendo apresentado a elas e aos poucos acompanha O escritor (que era professor) numa investigação sobre dois assassinatos e um possível suicídio.
Mariana Salomão Carrara chamou de thriller poético. Natalia Timerman destacou a imaginação prodigiosa, indomável da autora. Joca Terron entendeu se tratar da melhor escritora da literatura brasileira – quiçá universal, impressão arrebatadora que o assaltou em meio à leitura. A crítica classificou como um livro fulminante. Exuberante. Desconcertante.
Lá é o tempo, romance recém-lançado de Maria Fernanda Maglio, premiada escritora, dona de delicada e contundente ourivesaria na tecitura de seus textos, vai apresentando, a partir de depoimentos e narrativas em terceira pessoa, fragmentos de um quebra-cabeças que não se conclui. E é na escassez que o quadro maior ganha força – não se sabe por que o borracheiro (que era mecânico) Salu foi morto, nem se foi mesmo o bandido da cidade, Tonho Lino – nem se resvala nos motivos que talvez tivessem levado à morte ou qualquer certeza de autoria. Como na vida, as investigações e suspeitas são na sua maior parte infrutíferas.
O livro começa com a frase: “Mataram o borracheiro Salu”. Sem rodeios. Pensei, ao longo do livro, no magistral Crônica de uma morte anunciada, de García Márquez, com a diferença que o colombiano esmiuça as relações e os motivos, subterfúgios narrativos abandonados por Maglio em nome de algo que vai surgindo aqui e ali, no romance, e ganhando vulto com a proximidade do desfecho: um componente onírico que confunde percepções, que distorce imagens e cenários, que borra as margens do tempo, fazendo-o fluido, tremeluzente, como as imagens cinematográficas dos desertos, que convidam às miragens.
Em um de seus poemas, Edgar Alan Poe escreve: All that we see ou seem, is but a dream within a dream. Em lá é o tempo, cenas que se desdobram em espiral, como a extraordinária história contada pelo tenente Fonseca ao advogado que defendeu André, menino de treze anos que tinha no borracheiro-mecânico Salu uma referência paterna, do pai que jamais teve, e que mata Tonho Lino, sem nunca ter dado um tiro sequer na vida, antes do fato – que também é obscuro.
O professor/escritor ouve de uma velha à porta da padaria que religiosamente frequentava – religião aparentemente única que professara – a história de André, no interior, a duzentos e setenta quilômetros de onde vive, ocorrida há 30 anos, e abandona emprego, esposa, casa, em busca de uma história que lhe renderá um livro que não chegará a escrever. A velha é a velha da história do tenente Fonseca, que é a história contada por um fazendeiro norte-americano no século XIX, que é a projeção de reentrâncias dimensionais que o narrador do livro de Maglio chamou de tempo. A origem do título do livro, contada pela escritora a Manuel da Costa Pinto em entrevista, na TV Cultura, é de uma beleza e uma contundência que amarra livro e vivência, sonho e fato, fantasmagoria e realidade, compondo de forma ainda mais fantástica – nos vários sentidos que o termo pode assumir – o universo apresentado por esta obra tão intensa.
Uma chave de leitura que tira um pouco do que é contado do campo do inexplicável, é a alegoria que aproxima o professor da história bíblica de Jonas. O escritor tem esse nome, apesar de não ser mencionado em nenhum momento do livro. Há pistas apenas, e no final da narrativa, ele se lembra de algo ocorrido pouco antes de retornar à sua cidade de origem: “Você vai se lembrar de estar imerso em uma barriga gigante…” Assim como seu homônimo no Velho Testamento, o episódio com o grande peixe (ou a baleia) é interpretado como uma possibilidade de redenção e reflexão, diante da fuga do profeta ao ser designado por Deus a uma missão que entendeu não fazer sentido. Em Lá é o tempo, em muitos momentos, a viagem do escritor é descrita como fuga. E a lembrança do personagem ocorre enquanto aguarda, na escola de natação (a alegoria da água, novamente) pelo filho Mateus (no Evangelho de Mateus 13: 39-40, Jesus se refere a Jonas e aproxima os três dias passados no interior da baleia à sua futura ressurreição, que ocorreria três dias após a crucificação).
Nada impede de imaginar que as relações dos personagens do livro com o tempo, sejam lapsos, algo que talvez tenha se passado em alguns segundos, durante um cochilo ou um descuido, um devaneio ou um déjà vu: “O aqui da velha é lá e você não faz ideia de onde é lá. Mas sabe que é o tempo, lá é o tempo”. Mas as pistas espalhadas por Maglio ao longo de sua brilhante narrativa, podem ser, por outro lado, apenas mais um sonho dentro do sonho.
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Moacyr Godoy Moreira é médico e escritor, autor de Dois pais (Folhas de Relva Edições),
dentre outros trabalhos