*Por Beatriz Carrijo*
Leia esta canção: Angela Ro Ro – contos, canções, relatos & afins, organizado por Marina Ruivo (Garoupa Editora), é uma proposta editorial acertada que toma a obra de um compositor como ponto de partida para a criação literária, em vez de restringi-la ao comentário crítico ou biográfico. Reunindo contos, relatos, ensaios, poemas e canções, evita a homogeneidade e transforma a figura de Angela Ro Ro em um centro gravitacional capaz de reunir perspectivas distintas. A própria organização assume essa diversidade ao optar por misturar os gêneros, criando uma leitura em que a ficção dialoga com a memória e a crítica.
Entre os contos, Amor, meu grande amor, de Paula Bajer, destaca-se pela construção delicada de uma memória afetiva em que a descoberta da música se confunde com a descoberta da própria vida adulta. Sem recorrer ao sentimentalismo, a autora faz da lembrança um mecanismo narrativo capaz de revelar como determinadas canções permanecem ativas muito depois de seu primeiro encontro com o ouvinte. Em outro registro, Lado a lado, de Deise Abreu Pacheco, traz referências literárias e musicais para construir um conto sobre identidade e desejo, aproximando a atmosfera das canções de Angela da tradição da literatura brasileira contemporânea sem que essa intertextualidade soe gratuita.
Também merece destaque Fossa nova, de Santiago Nazarian, talvez um dos textos que melhor traduzem o espírito irreverente da cantora. Com seu humor ácido e seu domínio do absurdo cotidiano, Nazarian cria uma narrativa que incorpora a ironia, a melancolia e o excesso como formas de resistência. O resultado não busca reproduzir Angela Ro Ro como personagem, mas captar algo de sua postura diante do mundo, marcada pela recusa das convenções e pela afirmação de uma personalidade artística radicalmente livre. O conto reafirma a capacidade do autor de combinar leveza narrativa e observação crítica, produzindo um dos momentos mais consistentes da coletânea.
Outros textos ampliam significativamente o alcance do livro. De olhos fechados, de Malu Maria, trabalha com sensibilidade uma dimensão íntima, enquanto Angelita, de Sara Monroe, traz o imaginário em torno da cantora sem cair na idealização. Já Fogueira, de Renata Pimentel, demonstra como a força das letras de Angela pode servir de impulso para uma narrativa autônoma, em que a música permanece presente mais como atmosfera do que como referência explícita. A variedade de estilos confirma um dos principais méritos da organização: permitir que cada autor encontre sua própria forma de dialogar com a compositora, sem impor um modelo único de homenagem.
Mais do que um tributo, Leia esta canção: Angela Ro Ro demonstra como uma obra musical pode continuar produzindo literatura. Há diferenças naturais de intensidade entre os textos, mas a qualidade média da coletânea permanece elevada graças à diversidade de vozes reunidas. Ao evitar tanto a reverência excessiva quanto a simples celebração nostálgica, o livro oferece um retrato múltiplo de Angela Ro Ro e, ao mesmo tempo, um panorama representativo da produção literária brasileira. É uma antologia que interessa não apenas aos admiradores da cantora, mas também aos leitores de contos e aos que desejam observar como a literatura continua encontrando novas formas de dialogar com a música.