Por André Luís Inácio

Poucos escritores brasileiros despertaram sentimentos tão contraditórios quanto Paulo Coelho. Celebrado por milhões de leitores em todo o mundo e frequentemente desprezado pela crítica literária, o autor de O Alquimista construiu uma trajetória que, por si só, parece saída de um romance. É essa vida improvável que o jornalista e escritor Fernando Morais reconstrói em O Mago, biografia publicada originalmente em 2008 pela Editora Planeta e que acaba de ganhar uma nova edição pela Realejo Edições, de Santos, com posfácio inédito do autor. Quase duas décadas depois da primeira publicação, o livro continua sendo um documento importante sobre um dos personagens mais singulares da literatura brasileira.

Fernando Morais, autor de biografias como Olga e Chatô, não economiza na investigação. Durante três anos, acompanhou Paulo Coelho, entrevistou pessoas próximas e teve acesso a um material extraordinário: quatro décadas de diários pessoais, guardados em 170 cadernos, além de gravações, cartas e documentos. O resultado é uma biografia de mais de 600 páginas que acompanha o escritor desde a infância no Rio de Janeiro até sua consagração internacional. O trabalho de apuração impressiona, sobretudo pela quantidade de episódios que ajudam a compreender a formação de uma personalidade tão complexa. Morais consegue organizar esse material sem perder o ritmo da narrativa, valendo-se de uma escrita jornalística que transforma acontecimentos reais em cenas de grande força.

A juventude de Paulo Coelho ocupa algumas das passagens mais perturbadoras do livro. Estão ali as internações psiquiátricas, os tratamentos com eletrochoques, os conflitos familiares, as experiências com drogas, a sexualidade e o envolvimento com o ocultismo. Há também o período da ditadura militar, quando foi preso e torturado, e sua parceria com Raul Seixas, responsável por algumas das canções mais conhecidas do rock brasileiro. Fernando Morais não procura suavizar esses acontecimentos nem construir uma imagem exemplar de seu biografado. Ao contrário, apresenta um homem cheio de contradições, inseguranças, ambições e atitudes nem sempre admiráveis. É justamente essa disposição de mostrar o personagem em suas muitas dimensões que torna o livro interessante.

Outro aspecto importante da biografia é a maneira como ela acompanha a transformação de Paulo Coelho em fenômeno editorial. Antes de conquistar leitores em dezenas de países, ele enfrentou recusas, dificuldades financeiras e a indiferença de boa parte do meio literário. A publicação de O Diário de um Mago, em 1987, e de O Alquimista, no ano seguinte, mudaria definitivamente sua vida. Morais mostra como essa ascensão foi construída, destacando tanto a perseverança do escritor quanto sua habilidade para compreender o mercado e se relacionar com os leitores. A participação de Mônica Antunes, sua agente literária, também ganha o devido espaço. O livro acaba oferecendo, paralelamente à história pessoal de Paulo Coelho, um retrato bastante revelador do funcionamento do mercado editorial e das dificuldades de se alcançar reconhecimento literário no Brasil.

A nova edição de O Mago chega em boa hora. Não apenas por devolver às livrarias uma biografia que estava esgotada, mas por permitir uma nova leitura de Paulo Coelho, agora com a distância que o tempo oferece. O posfácio inédito e a atualização dos números de sua carreira ajudam a situar a dimensão alcançada pelo escritor desde a primeira publicação. Fernando Morais não pretende resolver a velha discussão sobre o valor literário de sua obra, e talvez esse seja um dos méritos do livro. Mais do que defender ou condenar Paulo Coelho, interessa-lhe compreender o homem por trás do fenômeno. Ao final, permanece o retrato de alguém que atravessou experiências extremas, reinventou a própria vida diversas vezes e alcançou uma projeção internacional raríssima entre escritores brasileiros. Uma história que merece ser lida independentemente da opinião que se tenha sobre seus livros.

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