Por Alexandre Staut

Publicado originalmente em 2017 pela editora Tordesilhas, Dois, de Oscar Nakasato, ganha uma nova edição pela Fósforo, com lançamento previsto para novembro de 2026. Autor de Nihonjin, vencedor do Prêmio Jabuti de romance em 2012, Nakasato retorna aqui a um tema que atravessa parte importante de sua literatura: as relações familiares e os conflitos que se acumulam ao longo das gerações. Em Dois, acompanhamos a história de Zé Paulo e Zé Eduardo, irmãos que cresceram na mesma família, em Maringá, no Paraná, mas desenvolveram maneiras distintas de compreender o mundo. O primeiro é conservador e apegado às convenções. O segundo, mais inquieto e contestador, envolve-se na resistência à ditadura militar, conhece a perseguição política e o exílio. Entre os dois, estabelece-se uma distância que o passar dos anos parece tornar cada vez mais difícil de superar.

O romance é construído a partir da alternância das vozes dos dois irmãos. Zé Paulo se expressa numa linguagem coloquial, marcada por repetições, julgamentos e lembranças que surgem quase sem organização, como numa conversa prolongada. Zé Eduardo, por sua vez, apresenta uma escrita mais elaborada e reflexiva. Nakasato consegue dar personalidade a cada um sem precisar recorrer a grandes acontecimentos ou explicações. São as pequenas histórias domésticas, os ressentimentos antigos, as palavras ditas e aquelas que nunca chegaram a ser pronunciadas que sustentam a narrativa. O interessante é perceber como os personagens, ao contarem suas próprias versões dos acontecimentos, acabam revelando muito mais sobre si mesmos do que talvez desejassem. Nenhum dos dois narradores é inteiramente confiável, e é justamente nessa diferença entre aquilo que dizem e o que deixam entrever que o livro encontra boa parte de sua força literária.

A ditadura militar ocupa um lugar importante na história, mas Dois não é propriamente um romance sobre a repressão política. Seu interesse está também nas consequências íntimas de um período que dividiu famílias, estabeleceu antagonismos e produziu silêncios difíceis de romper. A oposição entre os irmãos poderia resultar numa divisão simplista entre o conservador e o progressista, mas Nakasato evita esse caminho ao expor as contradições de ambos. Zé Paulo, tão seguro de seus valores, deixa escapar uma personalidade autoritária, atravessada por preconceitos e uma necessidade permanente de justificar as próprias atitudes. Zé Eduardo, apesar de sua abertura intelectual e política, tampouco está livre das limitações pessoais. Há momentos em que essas características parecem muito acentuadas, sobretudo na insistência com que Zé Paulo reafirma suas convicções. Ainda assim, a repetição faz parte da construção de sua voz e ajuda a revelar um homem que envelhece sem conseguir se reconciliar com o passado.

A escrita de Oscar Nakasato é cuidadosa, especialmente na maneira como transforma episódios aparentemente banais em matéria literária. Há delicadeza na observação dos gestos, dos hábitos familiares e das lembranças de infância, mas também uma percepção aguda da crueldade que pode existir nas relações mais próximas. O autor não procura oferecer respostas fáceis nem conduzir o leitor a uma reconciliação consoladora. Prefere acompanhar seus personagens em suas certezas e incapacidades de compreender o outro. A nova edição da Fósforo recupera um romance que permanece atual, sobretudo num país em que as diferenças políticas continuam atravessando a convivência familiar. Mas reduzir Dois a essa dimensão seria deixar de lado seu aspecto mais interessante: a investigação sobre o afeto e a dificuldade de reconhecer, naquele que nos é mais próximo, alguém que tem o direito de ser diferente.

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