*Por Beatriz Carrijo*

O romance Singrando sobre um mar azul de rosas (Folhas de Relva Edições, 2026), de Joëlle Tiano-Moussafir, estrutura-se a partir de um princípio de deslocamento que é, ao mesmo tempo, físico e existencial. Ao fazer convergir as trajetórias do Padre Pinto, do Obscurecido e de Artemísia, a narrativa constrói uma rede de espelhamentos em que o abandono — de um lugar, de uma função, de uma condição — atua como gesto inaugural. Mais do que uma sucessão de eventos, o livro se organiza como um percurso de inquietação, em que os personagens parecem movidos por forças que não dominam inteiramente, conferindo ao romance um tom de suspensão e busca contínua.

A amplitude geográfica — que liga o interior de Portugal ao arquipélago de Cabo Verde — não se reduz a um pano de fundo exótico, mas funciona como elemento estrutural da obra. Ao articular esses espaços, o romance inscreve as trajetórias individuais em um contexto histórico mais amplo, marcado pelas heranças do colonialismo no final do século XIX. Nesse sentido, a narrativa evita soluções simplificadoras, preferindo sugerir, por meio de silêncios e deslocamentos, as tensões sociais e históricas que atravessam seus personagens. A figura de Artemísia, em particular, introduz uma dimensão crítica que desloca o eixo do relato e amplia sua densidade.

Sem recorrer a excessos formais, o livro se sustenta por uma escrita contida e por uma construção narrativa que privilegia a ressonância entre destinos. A busca por identidade, verdade e liberdade emerge como um eixo comum, mas não se resolve de modo conclusivo, permanecendo como questão aberta ao leitor. Trata-se, assim, de um romance que encontra sua força na articulação entre intimidade e história, e que se destaca pela sobriedade com que conduz temas de grande amplitude, sem perder de vista a singularidade de cada trajetória.

Joëlle Tiano-Moussafir nasceu em Paris em 1944. Fez estudos em Letras e Ciências Humanas. É autora de contos, romances, peças de teatro, relatos, narrativas e de um retrato de George Sand publicado pela editora Au Diable Vauvert, na coleção À vingt ans. Ela vive em Paris, onde exerce, paralelamente à escrita, a profissão de fonoaudióloga. A tradução da obra é de Ana Queiróz.

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Version française:

Le roman Singrando sobre um mar azul de rosas (Folhas de Relva Edições, 2026), de Joëlle Tiano-Moussafir, s’articule autour d’un principe de déplacement à la fois physique et existentiel. En faisant converger les trajectoires du Père Pinto, de l’Obscurci et d’Artemísia, le récit construit un réseau de miroirs où l’abandon — d’un lieu, d’une fonction, d’une condition — agit comme un geste inaugural. Plus qu’une succession d’événements, le livre s’organise comme un parcours d’inquiétude, où les personnages semblent mus par des forces qu’ils ne maîtrisent pas entièrement, conférant au roman un ton de suspension et de quête continue.

L’ampleur géographique — reliant l’intérieur du Portugal à l’archipel du Cap-Vert — ne se réduit pas à un simple décor exotique, mais fonctionne comme un élément structurel de l’œuvre. En articulant ces espaces, le roman inscrit les trajectoires individuelles dans un contexte historique plus vaste, marqué par les héritages du colonialisme à la fin du XIXe siècle. En ce sens, le récit évite les solutions simplificatrices, préférant suggérer, par le biais de silences et de déplacements, les tensions sociales et historiques qui traversent ses personnages. La figure d’Artemísia, en particulier, introduit une dimension critique qui déplace l’axe du récit et en accroît la densité.

Sans recourir à des excès formels, le livre repose sur une écriture contenue et sur une construction narrative qui privilégie la résonance entre les destins. La quête d’identité, de vérité et de liberté émerge comme un axe commun, sans toutefois se résoudre de manière conclusive, demeurant une question ouverte au lecteur. Il s’agit ainsi d’un roman qui trouve sa force dans l’articulation entre intimité et histoire, et qui se distingue par la sobriété avec laquelle il aborde des thèmes d’une grande ampleur, sans perdre de vue la singularité de chaque trajectoire.

Joëlle Tiano-Moussafir est née à Paris en 1944. Elle a fait des études de lettres et de sciences humaines. Elle est l’auteure de contes, de romans, de pièces de théâtre, de récits et d’un portrait de George Sand publié par les éditions Au Diable Vauvert, dans la collection À vingt ans. Elle vit à Paris, où elle exerce, parallèlement à l’écriture, la profession d’orthophoniste. La traduction de l’ouvrage est signée Ana Queiróz.

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