*Por Beatriz Carrijo*
Kariri-Xocó lábios de boi: memórias de um indígena Fulkaxó é um livro que se destaca por oferecer ao leitor uma rara oportunidade de ouvir uma narrativa indígena construída a partir de dentro, sem mediações que procurem traduzir ou explicar excessivamente sua experiência. A voz de Awassury Fulkaxó conduz o relato com firmeza e simplicidade, transformando a memória individual em testemunho coletivo sobre a permanência e a resistência dos povos originários do Nordeste brasileiro.
Um dos méritos da obra está na maneira como articula episódios cotidianos e acontecimentos históricos sem perder a dimensão humana da narrativa. Histórias familiares, como a do pai que inventava brincadeiras para aliviar o peso das caminhadas, convivem com relatos sobre deslocamentos, preconceito, luta territorial e preservação cultural. O resultado é um texto que evita tanto a idealização quanto o vitimismo, apresentando a vida indígena em sua complexidade, com suas dificuldades, afetos e formas próprias de compreender o mundo.
Particularmente interessante é a forma como o livro aborda os encontros e desencontros entre culturas. A passagem em que Awassury deixa a escola da aldeia para estudar na cidade funciona como uma síntese das tensões que atravessam a obra: a necessidade de circular entre diferentes universos sem abrir mão da própria identidade. O relato revela como a educação formal pode ser, simultaneamente, instrumento de ampliação de horizontes e espaço de enfrentamento de preconceitos históricos ainda presentes na sociedade brasileira.
Outro aspecto relevante é a presença constante da natureza, especialmente do rio Opara, que surge não apenas como elemento geográfico, mas como entidade afetiva, espiritual e política. Ao narrar as transformações impostas ao território por barragens, conflitos fundiários e degradação ambiental, o autor amplia a discussão para questões urgentes do presente. O livro sugere que a defesa dos modos de vida indígenas está diretamente ligada à preservação de ecossistemas e saberes fundamentais para o futuro comum.
A escrita preserva a oralidade do narrador e evidencia o cuidadoso trabalho de escuta realizado por Silvia Nogueira, que organiza o material sem apagar sua origem. As ilustrações de Júlia Maynã ampliam esse universo narrativo e reforçam o diálogo entre memória, cultura e espiritualidade. Mais do que um livro autobiográfico, Kariri-Xocó lábios de boi é uma obra de afirmação cultural e de transmissão de conhecimento, capaz de aproximar leitores de experiências frequentemente ausentes da narrativa oficial do país.
Lançamentos:
12 de junho de 2026, às 14h — Casa de Cultura do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (Cidade Universitária, São Paulo)
14 de junho de 2026, às 10h — Condô Cultural, durante o Café Caipira (Vila Anglo, São Paulo)
20 de junho de 2026, às 11h — Museu das Culturas Indígenas (Água Branca, São Paulo)