Por Ewerton Ulysses Cardoso[1]

Em ‘Mulher Ausente: Derivações quase poéticas’, Priscilla B. M. Navas transforma em versos a força motriz da vida

Onde nasce a poesia? Esta coisa estranha, por vezes irregular, que pode explicar ou não o significado de cada palavra. O poeta Waly Salomão escreveu sobre uma suposta “Fábrica do Poema”, o lugar de origem dos versos, o âmago, a verve do verso. O poema, ele é sempre dotado de uma urgência: precisa sair, precisa se materializar, precisa romper. É como o facho de luz ou a força estilhaçante de um raio na noite escura. Na poesia de Priscilla B. M. Navas, a poesia é quase sempre sinônimo de sonhos, um sonho tão forte que não poderia ser interrompido.

Cada um desses passos exigiu coragem,
audácia e o desprendimento de parecer ridículo
aos olhos hostis.
Mas caminhei, não paralisei de medo,
enfrentando sobretudo a mim

[…]

O horizonte desconhecido fascina:
à frente, o futuro, em que, verso por verso, escrevo meu viver.
(Poema presente no livro Mulher Ausente, p. 25).

Sergipana, Priscilla Navas é bacharela em direito. Como me contou em uma entrevista que fiz com ela, a poesia sempre fez parte da sua vida, mas foi somente com a maturidade percebeu que não poderia esconder os seus versos. Os poemas presentes neste segundo livro de poemas, Mulher Ausente: Derivações quase poéticas (Patuá, 2026) têm como tema o impulso para a vida (outro sinônimo para poesia).

Assim, os poemas do livro são dotados de uma força vigorosa. São versos transbordam de uma decisão impossível de se reverter: Não há mais espaço para medo, tampouco para a dúvida ou para a cautela. Nesse sentido, poesia também é sinônimo de erotismo, tesão, sexo. Esta pulsão de vida, pulsão primordial que demanda o jorro, o gozo final e cumprido, não pode ser impedida de forma alguma.

Em muitos sentidos, este projeto poético se assemelha à impaciência da mulher voz lírica do poema “Agora, ó José”, de Adélia Prado. Cansada de esperar o homem tomar uma decisão, a mulher do poema de Adélia clama pela consumação do amor, pela realização do ato tão sonhado:

É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?

(Adélia Prado, trecho do poema “Agora, ó José”)

Não por acaso o erotismo também aparece muito forte na poética de Navas por vezes de forma mais explícita. O seu eu lírico também é mulher e toda desejo, tesão. Como as mulheres de Adélia, é uma mulher que é também sujeito desejante, também sujeito de opinião. A consumação carnal é também a consumação do poema, é ao mesmo tempo fábrica e matéria prima do poema:

Também EU sou poesia
do tipo não escrita ou declamada
idioma esquecido, indecifrado.
Também eu SOU poesia
em símbolos escondidos
texto descoberto no passeio
da tua língua em minha pele.
Também eu sou POESIA
revelada entre beijos sussurrados
sou estilo ultrapassado
que não atende ao teu gosto
literário.

(Poema presente no livro Mulher Ausente, p. 25).

O livro possui, então, um senso de urgência: é preciso versar e amar. E é preciso que seja agora. O leitor sempre se verá envolvido nesta poética dos desejos e dos sonhos.


[1] Jornalista, crítico literário, editor da revista O Odisseu e mestrando em estudos literários pela Universidade Federal Fluminense.

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