Por Lorraine Ramos Assis
Publicado neste ano pela Editora Mondru, o livro de poemas de Viana confere o que Ieda Magri
postula sobre a literatura estar cada vez mais mesclada a novos campos artísticos, tornando o
estatuto da arte e da dificuldade de nomear determinados textos. Ao justapor diferentes técnicas na
produção de “Lembrar, esquecer”, Viana enumera cada uma delas: instrumentos cortantes,
xilografia, chine collé, fotogravura, relevo seco, dentre tantos outros na seção dedicada ao trabalho
com as imagens usadas no livro que dialogam com suas temáticas; religião, cotidianidade, família e
tradições de estados fora do eixo sudeste. Dividido em seis partes (Resíduo, sobra, falta, incisão,
desgaste e acúmulo), o ponto nodal é o diálogo constante na seleção e organização dos textos. Na
primeira parte da obra, a disposição das palavras nos poemas chama atenção quando comparadas.
Em “lavadeiras”, figuram as imagens das baianas esfregando à mão as roupas no sabão em pedra.
As cores brancas de anil se transformam em “nódoa”, levando a crer através do eu lírico que o ato
de observar é compreendido como abstração, refletindo na enumeração dos atos, que são
cronológicos “o branco do anil/o perfume do coco/ou de soda cáustica/às vezes uma nódoa”. Não se
trata, entretanto, apenas da forma “enformar” o conteúdo, com os recursos estilísticos e visuais. A
divisão dos capítulos leva à imersão das camadas que compõem a obra, a exemplo dos títulos:
resíduo que leva à sobra e à falta e à incisão e ao desgaste e, por fim, ao acúmulo. Se “resíduo”
contempla algo que foi retirado, também se compreende o que permanece, ou seja, a memória de
seus parentes, dos semblantes, dos lugares em tons altamente imagéticos. Lacuna, vale ressaltar, é o
que ainda insiste em não ser tocado; são polos em antagonismos, mas que um não existe sem o
outro, igual “Lembrar, esquecer”. O acúmulo, portanto, é a reminiscência que tenta se realizar em
língua. Que caráter tem essa língua aqui gasta em assonâncias, quebra de versos, que nos separam
de Itabira, Tupã e Anhangá?
Não pretendo – como em muitas das minhas produções acadêmicas – tratar o conteúdo sem levar
em conta o modo como a técnica se configura, uma vez que temáticas não falam per si. Seria mero
sociologismo que, infelizmente, se percebe na literatura brasileira dos anos recentes, e talvez
colocasse a hipótese do norte global e europeu. Na esteira de Candido, o social é inserido no objeto
e se transforma em elemento literário, não sendo um reflexo dos fatos. Em que pesem as menções
aos terreiros, Martinho Lutero e entidades como Ovídio e Camões, não diria que são os principais
fatores. Ou melhor dizendo, se levarmos em consideração a atmosfera produzida pelas identidades e
objetos inscritos nos poemas de Gianou Viana, a chave interpretativa seria justamente a exaltação
da cultura popular, quase como se fosse uma crônica da realidade em nosso país. Em variados
textos, desde as seções I até VI, a mediação se constrói tal qual um grande poema, para não dizer
narrativa. Uma mulher de oitenta e oito anos cuja voz viúva se apresenta embargada pela dor sem
remédio, o avô que abatia variadas plumagens e envergaduras de aves – mais uma vez, a noção de
tecido, textura que remete às artes plásticas -, o rosto – espelho diante das gerações do núcleo
familiar, enfim, o livro opera na distinção e similaridade desse eu lírico com as pessoas, com os
instrumentos de trabalho, adornos da casa e testemunhos orais e textuais de indivíduos da classe
trabalhadora. “Diz ela que em carne viva até leve brisa vira punhal”.
Com boas investidas em várias direções (texto e sua organização, fotografias ora repetidas com a
mesma técnica ou não, fabulação), as poesias de Viana chegam ao público com a delicadeza de uma
mão que, ao fazer uso do registro da memória, corrói para equilibrar, restaurar e conservar o que
viveu. E o que poderia ter sido.