*Por Alexandre Staut*
Com peças em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro, o dramaturgo pernambucano prepara uma nova edição de seu primeiro livro de contos, Ópera, pela Folhas de Relva Edições
Newton Moreno atravessa um momento movimentado da carreira. Um dos dramaturgos mais reconhecidos do teatro brasileiro contemporâneo, o autor pernambucano tem novos trabalhos nos palcos e prepara a reedição de seu primeiro livro de contos, Ópera, publicado agora em versão revista e ampliada pela Folhas de Relva Edições, com o título Ópera e outros contos. Nascido em Recife, formado em Artes Cênicas pela Unicamp, Newton construiu uma obra muito própria, em que a cultura popular, a sexualidade, a religião, o humor e as relações familiares aparecem frequentemente misturados. Seus personagens costumam habitar lugares de conflito, mas encontram, mesmo nas situações mais difíceis, maneiras de afirmar seus desejos e suas identidades.
Em São Paulo, acaba de estrear A Raiz, texto inédito apresentado no Teatro Sérgio Cardoso, com Cláudio Fontana em cena e direção de Elias Andreato. O espetáculo acompanha a trajetória de um menino andrógino que precisa enfrentar o preconceito para compreender e viver sua identidade. A montagem, em temporada até 29 de novembro, parte de uma inspiração encontrada pelo autor em uma comunidade andina, na qual as mulheres eram responsáveis pelo plantio. A partir dessa imagem, Newton criou uma fábula sobre pertencimento, aceitação e liberdade. São temas que percorrem boa parte de sua obra e que encontram aqui uma nova forma de expressão.
No Rio de Janeiro, outro trabalho seu está em cartaz: Piaf – Eu Não Me Arrependo, musical protagonizado por Laila Garin, com dramaturgia assinada por Newton Moreno e Alessandro Toller e direção de Sergio Módena. A produção acompanha a vida da cantora francesa Édith Piaf, marcada por sucessos, perdas e recomeços. Poucas semanas antes, São Paulo recebeu Gil – Andar com Fé, espetáculo sobre a trajetória de Gilberto Gil, com texto de Newton e direção de Miguel Falabella. A variedade desses trabalhos ajuda a dimensionar sua atuação no teatro, que inclui ainda peças como Agreste, As centenárias, Maria do Caritó e As cangaceiras, guerreiras do sertão.
Mas a literatura também ocupa um espaço importante em sua trajetória. Em Ópera e outros contos, que ganha uma nova edição pela Folhas de Relva, o leitor encontra personagens que poderiam facilmente ocupar um palco, embora tenham uma existência inteiramente literária. São homens e mulheres atravessados pelo desejo, pela solidão, pela violência e por amores nem sempre correspondidos. Há histórias de encontros improváveis, famílias pouco convencionais, preconceitos e pequenos gestos de afeto. O texto transita entre a comicidade e a tragédia, às vezes dentro de uma mesma página. A nova edição, revista e ampliada, recupera esses primeiros contos e acrescenta outras histórias, permitindo uma nova aproximação com o universo do escritor. O livro mantém ainda a apresentação de Marcelino Freire, que reconhece na prosa de Newton a mesma liberdade encontrada em sua dramaturgia.
A reedição também marca a consolidação da Coleção Newton Moreno na Folhas de Relva Edições, da qual sou editor. A editora já publicou Cidades sensíveis e Diários do infinito. Este último reúne histórias escritas durante a pandemia, quando o isolamento levou o autor a investigar ideias de casa, família, memória e pertencimento. São questões que, de diferentes maneiras, também atravessam sua produção teatral. Ao reunir os três livros, a editora oferece ao público a oportunidade de conhecer melhor a escrita de um autor cuja obra vai muito além dos palcos. E talvez esteja aí uma das características mais interessantes de Newton Moreno: seja diante de uma plateia ou nas páginas de um livro, ele continua interessado nas pessoas, sobretudo naquelas que precisam inventar outras formas de viver e amar.