Por Maurício Mendes
Diário de bordo, data terrestre: 14h, último sábado do mês.
Ítalo Lennon, cearense, gestor do SUS, leitor consistente, doutor em cuidados clínicos e adivinhador profissional, é o mediador de um dos clubes de leitura mais antigos e tradicionais de Fortaleza, perto de completar uma década de atividade. Mesmo com essas credenciais, talvez não imagine que estreio na São Paulo Review começando por ele.
O protocolo mais previsível seria abrir esta coluna falando de livros, autores, lançamentos, listas, prêmios, resenhas e outras pequenas solenidades do mundo literário. Mas quem frequenta clubes de leitura sabe que, depois que um romance entra numa casa tomada, nada permanece exatamente sob controle. Mesmo com um capitão talentoso, a tripulação se amotina.
Ali, não há prestígio crítico que segure sozinho um livro recusado pelos leitores. Nenhuma editora, autor, resenhista ou entusiasmo prévio impede um grupo de leitores de dizer: não funcionou para mim. Um clube de leitura, afinal, nunca é apenas um clube de livros. É um clube de leitores. E os leitores chegam com uma coragem crítica que faria muito suplemento literário parecer excessivamente educado.
Talvez seja por isso que começo por eles.
A vida real dos livros, esta coluna quinzenal que hoje se inicia, nasce desse lugar: a roda de leitura, a conversa pública, a recepção nem sempre previsível de uma obra literária. Quero escrever sobre livros, sim, mas também sobre o que acontece quando esses livros saem da proteção das páginas e dos releases profissionais e caem nas mãos de leitores que escapam dos algoritmos e já começam a demonstrar algum cansaço das redes sociais.
Falo aqui de gente que recusa um livro pela capa, que prefere livros físicos aos digitais, que precisa cheirar o livro assim que ele é aberto, que usa marcadores coloridos de acordo com o humor, que começa a leitura pelo fim, que se incomoda com adjetivação excessiva, que pode abandonar um romance nas primeiras páginas mesmo que o começo seja bom, que sente coceira diante de metáforas empoladas e de muitos “como se” e “como que”. Gente que leu Vanessa Ferrari em O lugar das palavras e agora sai catando no texto os disparadores automáticos de frases prontas.
Na Casinha Amarela, nome que damos com orgulho ao espaço onde nos reunimos, há fotos de Julio Cortázar nas paredes, reflexo do gosto literário do proprietário, e um alerta na entrada contra todos os tipos de discriminação. Há cadeiras ocupadas muito antes de a conversa começar e uma pequena multidão que atravessa Fortaleza no último sábado de cada mês para discutir literatura. Gente que não dá a mínima se vai sentar no chão ou ficar de pé. Gente que não terminou a leitura, mas veio assim mesmo porque a conversa também faz parte da experiência.
Gente não muito diferente de mim.
Naquele sábado, o livro sobre a mesa era Não Volte Sem Ele, romance de Rafael Caneca, publicado pela Mondru. E talvez não houvesse escolha mais adequada para inaugurar esta coluna: um romance de autor cearense, discutido por leitores cearenses, dentro de uma casa onde a literatura ainda acredita no encontro presencial.
A reunião contava com a presença do autor. Nessas ocasiões, sempre esperamos casa cheia, mas o tema era espinhoso: os campos de concentração no Ceará durante a seca de 1932. O autor, além disso, estreava no romance. Nunca se sabe o que pode acontecer quando um livro novo chega a leitores exigentes. Quem participa da vida literária conhece esse pequeno medo: preparar a mesa, chamar o público, organizar a conversa e terminar olhando para as cadeiras vazias.
Ainda não foi dessa vez.
Uma hora antes do encontro, já havia mensagens no meu celular perguntando onde eu estava: a confeitaria já não comportava mais ninguém.
Ítalo fez uma breve apresentação do tema. A história permanece desconhecida por boa parte da população: o Ceará instalou sete campos de concentração para flagelados no século passado. Entre eles, o Campo do Patu, em Senador Pompeu, retratado no romance de Caneca. E aqui cabe um aparte: Rafael Caneca é conhecido por muitos leitores como Pacote de Textos — ou apenas Pacote, como prefiro chamá-lo —, nome pelo qual sua presença nas redes e na cena literária cearense já circulava antes do romance.
As cerca de cinquenta pessoas presentes bombardearam o autor de Não Volte Sem Ele com perguntas sobre a trama, a construção dos personagens, a pesquisa histórica, a atualidade do tema, as possíveis influências de Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz, ecos de Hannah Arendt e tudo mais que leitores consistentes são capazes de esmiuçar quando encontram uma obra que os provoca.
Mas houve também espaço para minha matéria preferida: os depoimentos. Uma jovem contou detalhes da fuga do avô retirante, desviando dos bloqueios nas rotas de migração até chegar a Fortaleza. Se o avô tivesse sido enviado a um campo de concentração, talvez ela nem tivesse nascido, e este resenhista não teria mais uma boa história para lembrar. No mundo da ficção histórica, a conversa nunca fica restrita ao romance.
Uma constatação atravessou o encontro: a seca pode ser um fenômeno climático, mas a fome e a exclusão social pertencem ao campo das decisões políticas.
Em 1932, essa decisão ganhou cerca, arame farpado e um nome que atravessou a memória: os “currais do governo”, campos de concentração em que milhares de retirantes foram confinados pelo Estado para serem segregados e impedidos de entrar em Fortaleza. Um desses retirantes era Tomás. O jovem recebe do pai a missão de encontrar seu irmão Antônio, que partiu para a capital e parou de enviar notícias. A família está à beira da fome, e Tomás parte levando uma santa de madeira e a dura ordem do pai para que não retorne sem o irmão.
Na saída do encontro, uma octogenária, antiga integrante do clube, me abordou reservadamente. Quando criança, ela morou na região do Crato, interior do Ceará. Lá também havia um campo de concentração. Disse-me que sempre soube da existência dos campos, mas tinham lhe ensinado que eram refúgios voluntários para os retirantes, frentes de trabalho contra a seca, uma ação social do Estado. Contou que ficou envergonhada de dizer isso durante a reunião. Sentiu-se enganada. Disse que, se eu quisesse, poderia contar ao autor depois. Contar para todo mundo.
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Maurício Mendes é médico, escritor, colunista e mediador de clubes de leitura. Autor do romance O homem não foi feito para ser feliz (Mondru), tem circulado por clubes, eventos literários e espaços de debate sobre literatura contemporânea. É colaborador de O Odisseu e assina a coluna quinzenal A vida real dos livros na São Paulo Review. Atualmente, prepara seu segundo romance, Uma mulher séria, representado pela Agência Carreira Literária.