*Por Alexandre Staut*
Entre romance, memória, ensaio, poesia e reflexão política, uma seleção de obras recentes que ajudam a compreender a diversidade de experiências, afetos e narrativas da comunidade LGBTQIA+ no Brasil
A literatura LGBTQIA+ brasileira atravessa um momento de grande vitalidade. Nas últimas décadas, autores e autoras têm ampliado as formas de representar desejos, identidades, corpos e modos de existir, produzindo obras que dialogam com questões centrais do nosso tempo. Da ficção ao ensaio, da memória à reflexão política, essas narrativas contribuem para ampliar a compreensão da diversidade humana e cultural do país.
Longe de constituir um campo homogêneo, esta a literatura reúne vozes muito distintas entre si. Há romances sobre afetos e pertencimento, relatos autobiográficos, investigações históricas, reflexões sobre gênero e sexualidade, além de narrativas que exploram novas possibilidades formais e estéticas.
A seguir, reunimos dez livros publicados nos últimos anos por autores gays, lésbicas e trans que vêm renovando a cena literária brasileira contemporânea.
1. Neca — Amara Moira (Companhia das Letras)
Primeiro romance da escritora, pesquisadora e ativista trans Amara Moira, Neca explora linguagem, desejo e identidade por meio de uma narrativa ousada e inventiva. Com humor e sofisticação formal, a autora cria uma obra que desafia convenções e amplia os horizontes da ficção brasileira contemporânea.
2. Uma diversidade de silêncios — Sergio Keuchgerian (Folhas de Relva Edições)
Misturando memória, reflexão e observação social, Sergio Keuchgerian investiga os diversos silêncios que atravessam a vida de homens gays em diferentes momentos históricos. Com delicadeza e honestidade, o autor transforma experiências pessoais em uma reflexão mais ampla sobre pertencimento, afetos e identidade.
3. Movimento LGBTQIA+: uma breve história do século XIX aos nossos dias — Renan Quinalha (Autêntica)
Uma das principais referências brasileiras sobre o tema, o livro apresenta um panorama acessível e rigoroso da trajetória dos movimentos LGBTQIA+ no Brasil e no mundo. Renan Quinalha demonstra como conquistas recentes resultam de décadas de organização política e resistência.
4. A palavra que resta — Stênio Gardel (Companhia das Letras)
Traduzido para diversos idiomas e premiado internacionalmente, o romance acompanha Raimundo, um homem que aprende a ler na velhice e revisita um amor interrompido pela violência e pelo preconceito. Uma narrativa delicada sobre memória, perda e reparação.
5. A extinção das abelhas — Natalia Borges Polesso (Companhia das Letras)
Uma das mais importantes vozes lésbicas da literatura brasileira contemporânea, Natalia Borges Polesso constrói neste romance uma história marcada por deslocamentos, afetos e rupturas. Com uma escrita precisa e sensível, a autora explora as complexidades das relações humanas e dos processos de reinvenção pessoal.
6. O sexo dos tubarões — Nana DeLuca (Patuá)
Em uma escrita marcada pela intensidade poética e pela liberdade formal, Nana DeLuca aborda corpo, desejo e identidade sem concessões. O livro contribui para ampliar a visibilidade de experiências lésbicas na literatura brasileira contemporânea.
7. Um exu em Nova York — Cidinha da Silva (Pallas)
Neste livro de contos Cidinha da Silva apresenta uma perspectiva contemporânea e ficcional do cotidiano, sobre temas como política, crise ética, racismo religioso, perda generalizada de direitos (principalmente por parte das mulheres), negros e grupos LGBT.
8. Quinze dias — Vitor Martins (Alt)
Fenômeno entre os leitores jovens, o romance acompanha um adolescente gay durante as férias escolares, enfrentando inseguranças, descobertas afetivas e questões de autoestima. Sensível e bem-humorado, tornou-se um marco da literatura LGBTQIA+ juvenil brasileira.
9. Musos — Valéria Barcellos (Taverna)
Escritora, ativista e mulher trans, Valéria Barcellos traz lirismo, erotismo e ironia na sua estreia na poesia. Nesta obra híbrida, poemas e fotografias se entrelaçam para inverter os papéis tradicionais: os homens tornam-se os objetos do desejo, os corpos contemplados, os “musos”.
10. Pai, pai — João Silvério Trevisan (Alfaguara)
Um dos maiores nomes da literatura LGBTQIA+ brasileira, João Silvério Trevisan revisita sua própria história familiar para refletir sobre masculinidade, violência, afeto e formação subjetiva. Combinando autobiografia e ensaio, o livro é uma poderosa investigação sobre memória e identidade.
Da pioneira militância de João Silvério Trevisan às novas vozes representadas por Amara Moira, Natalia Borges Polesso e Valéria Barcellos, a literatura LGBTQIA+ brasileira contemporânea revela uma impressionante diversidade de experiências e perspectivas. São livros que não apenas representam diferentes identidades, mas que ampliam as possibilidades da própria literatura, oferecendo aos leitores novas formas de compreender o amor, o desejo, a liberdade e a construção de si mesmo.