Por Maurício Mendes

A vida real dos livros

Ele viu postagens de multidões diante dos estandes das editoras nas redes sociais. Filas intermináveis para passar alguns minutos se acotovelando entre estranhos em busca de sabe-se lá o quê. Viu também postagens dos amigos confraternizando perto desses estandes e de outros menos badalados. Lembrou que tem medo de multidões, que passa mal com barulho. Por isso deixou para comprar as passagens faltando quatro dias para o encerramento da 28ª Bienal do Livro de São Paulo. Reservou um hotel na Bela Vista no dia da viagem. Não avisou a ninguém que iria.

Levou na mala de mão um exemplar de Iniciantes, de Raymond Carver, com os contos nas versões anteriores às intervenções do editor Gordon Lish. A maioria ele já tinha lido nas versões editadas. Lembrava de ter gostado muito. Fazia muitos anos. Depois soube das alterações e voltou a eles.

Procurou na coletânea o conto “Fique quieta, por favor”. Não estava lá. Então lembrou que o havia lido em Short Cuts, um livrinho pequeno, branco, com amarelo na capa.

Quando o piloto avisou que estavam a dez mil pés, ele sentiu vontade de tocar naquele livro. Fora seu primeiro contato com Carver. Naquela época, era um leitor faminto de contos, mas não os escrevia. Agora passava noites lapidando sua primeira coletânea de contos, e a obsessão por Carver havia voltado. Por aquele conto em particular.

Queria saber se, durante uma crise de ciúme, uma mulher confessou ter traído o marido com um amigo dele. Se ela disse ao amante: “A gente experimenta?” Ou se foi ele quem disse. Se depois o marido perguntou: “Você deixou ele gozar em você?” Ou se apenas imaginou a pergunta e nunca a fez. Se, em algum momento, pediu à esposa: “Fique quieta, por favor.”

Era isso que queria saber: se aquelas lembranças eram reconstituições verdadeiras da leitura do conto. Ou não.

Estava sentado na poltrona do corredor. A comissária passou oferecendo cerveja. Ele recusou. As duas garotas ao lado perguntaram se ele se importaria de pedir uma cerveja para elas, já que não bebia. Ele concordou. Pediram que pedisse o salgadinho também. Depois o ajudaram a acender a luminária. Não conversaram mais.

O avião chegou à noite a Guarulhos. Fazia dezoito graus. Não estava chovendo como diziam as previsões. Ele planejava ir à Bienal no dia seguinte. Não tinha ingresso. Nenhum dos amigos do meio literário sabia que ele estava ali.

Evitou táxi e Uber e pegou o transfer oficial do aeroporto. A motorista era de Goiás. Contou isso em algum momento da viagem, depois de chamá-lo de moço. Ele ficou calado e aproveitou o caminho até o hotel para descobrir o que Gordon Lish havia feito com os primeiros livros de Carver.

Descobriu que Lish cortava, reescrevia, encurtava. Às vezes, mexia nos finais.

Pensou que talvez estivesse tentando lembrar com exatidão um conto que já tinha sido alterado antes de chegar até ele.

A motorista perguntou se aquela era a primeira vez dele em São Paulo.

Ele disse que não.

Ela sorriu e pediu que guardasse o celular. Iam atravessar um trecho conhecido por assaltos a carros parados no trânsito. Alguns cruzamentos depois, disse que já estava tudo bem, podia ficar à vontade.

Repetiu o aviso mais duas vezes durante o caminho.

Na última, ele fingiu não ouvir. Procurou Short Cuts num sebo online e descobriu que a capa não tinha amarelo.

Seria mesmo em Short Cuts que havia lido o conto?

Foi a mulher quem voltou à história anos depois. Estavam em casa, as crianças já tinham ido dormir. Ela perguntou se ele ainda pensava naquela festa. Se pensava nela.

O marido se espantou. Quis saber por que ela estava voltando àquele assunto tantos anos depois.

Ele beijou você, não foi?

Ele chegou ao hotel. No quarto, refez a busca. Descobriu uma edição com 68 contos. Encontrou uma tradução: “Você poderia ficar quieta, por favor?”

Não era assim que se lembrava.

O original era Will You Please Be Quiet, Please?

Fique quieta, por favor.

Era assim.

Na manhã seguinte, chamou um Uber e foi à Megafauna do Copan. Passou sua lista ao livreiro. Ele disse que não tinha nenhum dos livros. O livreiro deu alguns cliques e pediu que aguardasse.

Voltou com Valise de cronópio, de Cortázar, e entregou o livro a ele.

Com o livro, foi para a mesa grande comunitária. Havia dois outros clientes lendo em silêncio. Ouvia-se muito pouco na livraria. Pôs o celular no silencioso. Conferiu as últimas postagens dos amigos na Bienal.

À sua direita, uma garota muito branca e solene lia um livro de Virginie Despentes. O rapaz sentado à sua frente também segurava um livro. O título não estava visível.

Depois da pergunta, o marido fez uma piada. Os dois riram. Então ela respondeu que sim, deu uns beijos no amigo dele.

Na mesa, ele abriu o livro de Cortázar.

A garota ao seu lado se levantou e foi embora.

Ficaram ele e o rapaz.

Ainda não conseguia ver o título do livro.

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Maurício Mendes é médico e escritor, autor do romance O homem não foi feito para ser feliz (Mondru). Atua também como mediador de clubes de leitura, é colaborador de O Odisseu e assina a coluna quinzenal A vida real dos livros na São Paulo Review. Seu segundo romance, Uma mulher séria, está concluído.

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