O homem não nasceu para ser feliz, romance de estreia do escritor cearense Maurício Mendes, representa um novo momento da ficção brasileira ao introduzir a dinâmica de raça no advento da ascensão social
*Por Ewerton Ulysses Cardoso[1]*
“Ser negro é uma coisa apertada”, me disse uma vez uma amiga. Jamais esqueci dessas palavras. A experiência racial, num mundo marcado pela escravidão a partir da raça, nunca é “neutra”. A inquietação, ou o aperto, é como a própria marca física da pigmentação na pele: impossível se desfazer. No entanto, há quem acredite, por exemplo, que a ascensão de classe seja o fator capaz de transportar uma pessoa desse limbo social. Muito já foi escrito a respeito dessa tentativa de transição social como uma possível transição de raça. De Lélia Gonzalez a Frantz Fanon, a ascensão social é apontada como uma tentativa última de escapar dessa “marca”, uma tentativa de esquecer ou de burlar a “dívida impagável” à qual Denise Ferreira da Silva se refere. Essa também parece ser a tentativa de Germano, personagem-narrador do romance de estreia do médico nuclear cearense Maurício Mendes. Assim como o autor, Germano também é médico, o que lhe possibilita uma passagem de uma realidade social a outra. A cor, entretanto, permanece e eis aí o “aperto”.
Ao longo do livro de Mendes, o que notamos é um personagem introspectivo e inquieto com algo que ele resiste em nomear, mas que é explícito a todos os leitores. As lembranças da infância, atravessadas pela dinâmica de raça, são um tormento, assim como as lembranças das primeiras experiências como médico, atendendo no interior do Ceará, longe da capital Fortaleza. O modo como Germano evita demarcar seus incômodos diretamente com o fato dele ser um homem negro, “mais puxado para o pardo”, fala da própria negação da condição racial, algo bem típico da realidade social no Brasil. A sublimação desse “detalhe” nada menor é um último escape. Mas como? Como “embranquecer”?
Essa parece ser uma pergunta central na literatura brasileira contemporânea e, nesse sentido, o romance de Mendes conversa com pelo menos dois outros que tratam da mesma questão: “O embranquecimento”, de Evandro Cruz Silva e “Meridiana”, de Eliana Alves Cruz. Nos dois romances, também de autores negros, temos personagens que “escapam” da matriz de classe à qual a esmagadora maioria da população negra é submetida no Brasil, mas não há o escape da raça. Ser professor universitário, como no romance de Cruz Souza, ou sair da favela, como no romance de Alves Cruz, não “blinda do racismo”, como disse a jornalista Glória Maria certa vez. Percebemos então que existe um movimento de reflexão na literatura brasileira contemporânea acerca desse fenômeno que é recentíssimo: a entrada massiva de pessoas negras na universidade faz dessa geração a primeira a ver, com mais expressividade, mais pessoas negras em cargos que não são de subserviência. Mas em quê isso muda?
No livro de Mendes, temos uma dicotomia entre expectativa e realidade que é provocada pela ascensão. Germano acreditava que a experiência da vida difícil seria algo do passado. Por isso sairia do interior do estado para atender na capital, sairia da pobreza para um status de riqueza e se relacionaria com mulheres com um perfil bem específico. Interessante notar essa questão muito bem trabalhada no romance do autor cearense: o personagem-narrador tem um tipo específico de mulheres com quem se relaciona unicamente de forma impessoal: as mulheres brancas e prostitutas. São com elas que ele fode (e não “faz amor”). Da mesma forma que Germano foge do embate com a própria raça, com a própria condição, foge também dos sentimentos. Ao se ver nutrindo a paixão por Camille, uma acompanhante tímida e mestranda em estudos literários, ele desvia para uma relação complicada com uma colega de clube de leitura, Lílian.
Aqui, gostaria de abrir um parênteses e fazer a relação deste romance com outro romance que se aproxima e se afasta do que estou analisando, pois o afastamento do afeto me lembrou a fuga que o personagem Eugênio trilhou do seu amor, Olívia, no romance “Olhai os lírios dos campos”, do gaúcho Erico Verissimo. Assim como no romance de Mendes, Verissimo narra a ascensão social de um jovem de origem humilde que, para escapar da pobreza, torna-se médico. Para fugir do passado de dor, Eugênio abre um caminho pela sublimação através da arrogância. Olívia, apesar de médica, era sentimental, fazia-o pensar na vida, ao passo que sua esposa, Eunice, filha de uma família rica, representaria o último passo para deixar para trás completamente o passado.
Mendes e Verissimo partem do mesmo ponto, mas criam tensionamentos diferentes. Se Eugênio evolui da arrogância para a culpa (a partir do momento em que sabe que Olivia está morrendo), Germano vai da busca pelo prazer impessoal ao vazio existencial, ambos em busca de esquecer as origens. Na linguagem também há afastamentos. O excesso de melancolia e romantismo que o próprio Verissimo criticaria décadas depois da publicação do livro, é quase o oposto da linguagem seca e por vezes cruel, sem compromisso em esconder preconceitos e defeitos, do narrador-personagem Germano.
Quero aproximar, entretanto, outro ponto em específico. A cena icônica, uma das maiores do romance brasileiro, que é o momento em que Eugênio, acompanhado de seus amigos ricos, vê o seu pai, o maltrapilho pobre, vindo em sua direção, parece encontrar no livro de Mendes um “duplo” ou uma nova elaboração. No romance de Verissimo, a cena de tensão, que dura páginas e que diz respeito à vergonha que o jovem Eugênio tem de reconhecer aquele homem imundo como sendo seu pai, é um momento de quebra na personalidade daquele personagem e também o momento em que ele decide lutar, com todas as forças, para se afastar daquela precariedade, mesmo que depois carregasse culpa por isso. No romance de Mendes, o momento em que a paciente Josiane se suicida após um diagnóstico ríspido e impessoal de Germano, é também essa quebra. Josiane, que é uma prostituta, mas também professora e estudante de psicologia, uma mulher branca, é o acontecimento que Germano parece ter de elaborar o resto do romance, como, do mesmo modo, Eugênio parece elaborar durante todo o romance aquele momento em que se cruzou com o pai. Não por acaso ambas as cenas estão mais ao começo de seus romances.
Percebemos então que o leitor que tem “O homem não nasceu para ser feliz” em mãos, tem um romance que representa um novo momento na ficção brasileira, que é um romance que dá um passo além do romance social que Verissimo ou Lispector deram, isso porque, ao contrário de Eugênio ou da Macabéa de Clarice, Germano é um homem negro, e a raça bem demarcada é o significante dessa nova literatura emblemática e contestadora, da qual Maurício Mendes faz parte.
1.Crítico literário. Pesquisa literaturas africanas e literaturas de migração e diáspora (POSLIT/ UFF).
[1] Comunicador e crítico literário. Editor-fundador da revista O Odisseu e pesquisador em literatura (POSLIT/UFF)