Z elda Fitzgerald (1900-1948) publicou apenas um livro durante sua vida, o romance “Esta valsa é minha”, de 1932. Entre 1917 e 1948, quando morreu em um trágico incêndio no sanatório em que estava internada com diagnóstico de esquizofrenia, ela escreveu uma série de contos, artigos e textos jornalísticos. Alguns desses textos chegaram a ser publicados — embora quase sempre assinados também por seu marido, F. Scott Fitzgerald. Parte dessa produção esparsa, objeto de estudo de pesquisadores pelo mundo, começa finalmente a chegar ao público brasileiro com a antologia que a Ponto Edita lança em julho.

“Artigos e textos jornalísticos” reúne 13 textos raros da autora, entre os quais “O livro mais recente de meu marido”, uma debochada resenha de “Os belos e malditos” na qual Zelda ironiza o fato de páginas desaparecidas de seu diário ressurgirem no romance de Scott, e o conto “O iceberg”, publicado no jornal literário da escola onde ela estudava, redescoberto em 2013 e até agora inédito em livro. Escrito quando Zelda tinha por volta de 17 anos, o conto retrata e desafia, com ironia fina, os papéis que a conservadora sociedade americana do início do século 20 esperava das mulheres. Leia abaixo um dos textos do livro:

 

Elogio da Melindrosa

A Melindrosa está morta. Seus apetrechos foram legados a centenas de escolas para moças por todo o país, a milhares de vendedoras das cidades grandes, sempre imitando as várias centenas de escolas para moças, e a milhões de belles das cidades pequenas, sempre imitando as vendedoras das cidades grandes através das “lojas de presentes” de suas respectivas cidades pequenas. Isso me causa um profundo pesar, eu que penso que jamais haverá outro produto das circunstâncias para ocupar o lugar da falecida.

Estou supondo que a Melindrosa viverá por suas conquistas, não por seu Melindre. Como uma garota poderá dizer de novo “não quero ser respeitável porque garotas respeitáveis não são atraentes”, e como poderá, de novo de forma sensata, vir a saber que “os rapazes dançam, sim, mais com as garotas que beijam mais” e que “os homens vão se casar com as garotas que eles podiam beijar antes de pedir permissão para o papai”? Percebendo esses fatos, a Melindrosa despertou da letargia de seu subdebutantismo, cortou os cabelos, colocou seus melhores brincos e um bom tanto de audácia e rouge e foi à luta. Flertava porque flertar era divertido e usava maillot porque tinha o corpo bonito; cobria o rosto de maquiagem porque não precisava disso e se recusava a ficar entediada, sobretudo porque ela mesma não era nada entediante. Ela sabia que as coisas que fazia eram coisas que sempre quis fazer. As mães não aprovavam quando os filhos levavam a Melindrosa a bailes, chás, piscinas e, principalmente, a sério. A Melindrosa tinha principalmente amigos homens, mas a juventude não precisa de amigos — só precisa de público, e quanto mais masculino o público, mais público para a Melindrosa. Disso a Melindrosa sabia muito bem!

Agora a ousadia, os brincos e os maillots viraram moda e as primeiras Melindrosas estão tão seguras onde estão que suas atitudes em relação a si mal diferem das de suas irmãs debutantes de dez anos atrás em relação a elas. Elas ganharam a causa. São blasé. E as novas Melindrosas, com passos pesados e desajeitados em suas botinhas desamarradas, lutam não para fazer o que gostam e querem, mas simplesmente para superar as fundadoras da Honorável Ordem das Melindrosas: para superar tudo. O Reino das Melindrosas transformou-se num jogo; deixou de ser uma filosofia.

Um tempo atrás li um editorial surpreendente. Ele atribuía a culpa por todos os divórcios, ondas de criminalidade, preços altos, impostos injustos, violações à Lei Seca e crimes em Hollywood à Melindrosa. O jornal queria de volta a boa e velha lareira de antigamente, queria ressuscitar “Hearts and Flowers” e instituí-la como a única música nos bailes, de agora em diante e para todo o sempre; queria orações antes do café nas manhãs de domingo — e devolver as coisas àquele estado magnífico que defendia ao limitar a Melindrosa. Todas as neuróticas “de trinta anos” e todos os casos de divórcio, segundo o jornal, poderiam ser atribuídos à Melindrosa. Para falar a verdade, ela ainda não teve a chance. Não conheço nenhuma divorciada ou neurótica de trinta anos que tenha sido Melindrosa, você conhece? E imagino que exibir plenamente o anseio pela alegria genuína, por romances que ela sabe que não vão durar e pela dramatização de si mesma a deixaria mais propensa a favorecer o movimento “de volta à lareira” do que se ela fosse reprimida até a idade lhe conceder aqueles direitos que só a juventude tem o direito de conceder.

Refiro-me ao direito de experimentar-se como uma figura efêmera e intensa que estará morta amanhã. Embora nove em cada dez mulheres passem pela vida dando a impressão de estarem no leito de morte, seja agarrando-se ao último instante, seja demonstrando a resignação de um mártir, elas não estarão mortas amanhã — nem no dia seguinte. Elas têm que viver até qualquer um dos muitos fins amargos, e acho que quanto mais cedo aprendessem que as coisas não acabariam até que elas estivessem cansadas demais para se importar, mais rápido a popularidade dos processos de divórcio diminuiria.

“Abaixo as inibições!”, grita alegre a Melindrosa, e foge com um homem de anúncio que uma ou duas semanas antes ela pensava que poderia ser um acompanhante charmoso para um café da manhã. O casamento é anulado pelo notório pai furioso e a Melindrosa vai para casa, sem um arranhão sequer, para se casar, anos depois, e viver feliz para sempre.

Não vejo nenhum motivo lógico para manter os jovens iludidos. Sem dúvida a desilusão é mais provável aos vinte do que aos quarenta — estou falando das desilusões fundamentais e inevitáveis. Seus efeitos sobre as Melindrosas que conheci foram simplesmente cristalizar seus desejos de ambição e dar forma a seus códigos de vida, de modo que elas possam ir para casa e viver felizes para sempre — ou ir ao cinema ou tornarem-se “colaboradoras” do serviço social ou algo assim. As pessoas mais velhas, com exceção de alguns gênios, artísticos e financeiros, simplesmente ficam escandalizados, soltam um monte de suspiros dilacerantes e resmungam alguma coisa sobre como a vida é dura — e aí, é claro, voltam-se para seus filhos e se perguntam por que eles não acreditam em Papai Noel e na bondade dos outros homens e na historinha de que serão felizes se forem bons e obedientes. E, mesmo assim, a maior queixa contra o Reino das Melindrosas é de que ele está tornando descrente a juventude do país. Está deixando essa juventude inteligente e ensinando-lhe a capitalizar seus recursos naturais e ser recompensada por seus investimentos. Essa juventude está simplesmente aplicando os métodos dos negócios ao ato de ser jovem.

Publicado pela primeira vez na Metropolitan Magazine em junho de 1922

*

Capa Zelda Fitzgerald Baixa

Artigos e textos jornalísticos, de Zelda Fitzgerald (Ponto Edita, 160 págs.)

Tradução: Mauricio Tamboni; prefácio e revisão técnica: Marcela Lanius; texto de abertura: Clara Averbuck; e crônicas visuais: Bruna Maia

*

Foto de Zelda com o marido, F. Scott Fitzgerald

 

Tags: , ,