* Por Alexandre Staut *

Em seu trabalho na prosa, poesia e teatro, Hilda Hilst (1930-2004) se debruçou sobre os sentidos do amor, do erotismo, da morte, da escritura e sobre Deus, entre outros temas recorrentes. Por meio de personagens, em entrevistas, versos e discursos, já o chamou de Aquele Outro, Cão de Pedra, Inteiro Caracol, Inteiro Desejado, Grande Olho, Cara Cavada, Grande Corpo Rajado, Mudo-Sempre, Perseguido, Máscara do Nojo, entre tantos outros. Compilamos frases e trechos da obra de Hilda sobre os sentidos de Deus e do sagrado. Leia abaixo:

 

Deus, uma superfície de gelo ancorada no riso.”

(fala do personagem Amós, na novela Com os meus olhos de cão)

 

No colégio interno (o Santa Marcelina), eu tinha uma vontade grande de ficar próxima de uma coisa que chamavam de Deus. Então eu tinha uma mania muito grande, que era uma vontade de ficar na capela. Eu queria demais me aproximar da ideia de um Deus, de um Deus que tenha sido executor de tudo, entende? Desse mundo que é notavelmente paradoxal e cruel.”

(entrevista a Sônia Mascaro, in Fico besta quando me entendem)

 

Eu nomeio Deus de vários nomes: Cara Escura, Sorvete Almiscarado, O Obscuro, O Sem Nome.”

(entrevista a Sônia Mascaro)

 

Nas minhas orações, à noite, eu fico falando com Deus como se ele estivesse perto de mim, com sotaque português. Eu digo: ‘Ai, meu Deus, por favor, não me dê muitas mágoas, muitos martírios’.”

(entrevista a Sônia Mascaro)

 

Eu não sei visualizá-lo, mas sei que esse ser está em comunhão comigo e eu queria demais desafiar este sem Nome. E eu desafiei-O muitas vezes em meus livros como uma blasfêmia, para ver se de repente dava um furor nele e ele dizia: ‘está bem, eu estou aqui’.”

(entrevista a Sônia Mascaro)

 

As coisas mais importantes são aquelas que falam de Deus, eu tenho mania de Deus.”

(fala do personagem Osmo, em Fluxo-floema)

O meu Deus não é material. Deus eu não conheço. Não conheço esse senhor. Eu sempre dizia que Ele estava até no escarro, no mijo, não que Ele fosse esse escarro e esse mijo. Há uma coisa obscura e medonha nele, que me dá pavor.”

(entrevista a Bruno Zeni)

 

Tudo entra dentro de mim, tudo sai. Não tem nada que só entra? Não. E Deus? Deus entra e sai, Ehud?”

(trecho de A obsena senhora D)

 

Existe um deus qualquer/ nas minhas entranhas.”

(do livro Balada de Alzira, o segundo de Hilda, lançado em 1951)

 

Deus é quase sempre essa noite escura, infinita. Mas Ele pode ser também um flamejante sorvete de cerejas.”

(bate-papo com Caio Fernando Abreu)

Minha relação com Deus é uma relação muito especial; fica muito difícil explicar isso.”

(entrevista a Nelly Novaes Coelho)

 

Eu acredito na alma imortal. O meu espírito mais profundo deseja isso, mas, na realidade, na minha verdade de todo dia, eu não desejo a pobreza, nem a fealdade, nem o medo. Aliás, tenho horror da pobreza, tenho um pânico medonho.”

(entrevista a Nelly Novaes Coelho)

E de ti, Sem Nome,

não desejo alívio. Apenas estreitez e fardo.

Talvez assim me ames: desnudo até o osso

Igual a um morto.”

(versos finais de poema sem título do livro Sobre a tua grande face)

 

É pai, filho e passarinho.

Ama. Pode ser fino

Como inglês.

É genuíno. Piedoso

Quase sempre assassino.
É Deus.”

(versos finais do poema VII do livro Poemas malditos, gozosos e devotos)

 

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.

É raro, em sendo mula, ter a chaga

E ao mesmo tempo

Aparência de limpa partitura

E perfume e frescor de terra arada.”

(versos finais do poema “Mula de Deus”)

LITERA3  S14 SAO PAULO 10/10/01 LITERATURA CAD2 OE -  MATERIA PARA O CAD2  - ENTREVISTA COM A ESCRITORA HILDA HILST, EM SEU SITIO NA CIDADE DE CAMPINAS. FOTO HEITOR HUI/AE

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Alexandre Staut é editor da São Paulo Review. É autor de O incêndio (Folhas de Relva Edições), entre outros livros

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