*Por Beatriz Carrijo*
Em Árvore velha (Todavia, 2026), Marta Barbosa Stephens trata do envelhecimento e da morte a partir de uma personagem que parece viver sob a consciência permanente da finitude. A narradora deixa para trás a carreira de jornalista e a vida no Brasil para recomeçar em Londres, onde acaba trabalhando como cuidadora em um asilo. É nesse convívio diário com corpos envelhecidos, memórias e despedidas que o tema do livro ganha força. A morte precoce da mãe, a relação distante com o pai e as histórias dos moradores do asilo vão formando, aos poucos, um retrato de alguém que tenta entender não apenas a velhice, mas a própria dificuldade de lidar com a perda.
O romance é curto e tem uma escrita fluida, sem transformar um assunto pesado em algo excessivamente solene. Algumas histórias paralelas são especialmente bonitas, como a da moradora de 97 anos que desperta o interesse da narradora e a da tia esquizofrênica, ligada à imagem da árvore velha que dá título ao livro. Há também um movimento interessante entre Londres e o Brasil, sobretudo quando a doença terminal do pai obriga a personagem a voltar e encarar uma despedida que, de certa forma, ela não consegue realizar. A natureza aparece depois como uma espécie de contraponto a tudo isso: também envelhece, também morre, mas parece oferecer outra maneira de aceitar o tempo.
O que chama a atenção é a maneira como o romance aproxima a velhice de uma personagem que ainda não chegou a ela. O envelhecimento está nos outros, mas funciona o tempo todo como um espelho: nos moradores do asilo, no pai que está morrendo, na tia e, por fim, na própria árvore. Marta Barbosa Stephens escreve sobre esse assunto sem procurar respostas. Seu livro fala da passagem do tempo, dos vínculos que se desfazem e daquilo que permanece quando começamos a perceber que nenhuma vida é inesgotável. Árvore velha parece, assim, dar continuidade ao projeto literário que a autora já desenvolvia em As viúvas passam bem, publicado pela Folhas de Relva Edições: uma literatura interessada sobretudo na passagem do tempo, na finitude e nas diferentes maneiras de reorganizar a vida diante das perdas.