*Por Beatriz Carrijo*
Em Caramelo salgado, Santiago Nazarian volta à infância para contar a história de Gabriel, um menino que, no fim dos anos 1980, deixa São Paulo com a mãe e vai morar em Trevo da Serra, uma pequena cidade próxima a Campos do Jordão. É ali, na casa que pertencera ao avô, que ele se aproxima do primo Pedro e tenta encontrar algum lugar possível para si. Gabriel é um menino imaginativo, fascinado por filmes de terror, videogames e pelo Halloween, mas pouco à vontade com aquilo que esperam de um menino de sua idade.
Interessante a maneira como Nazarian olha para essa infância sem transformá-la numa lembrança idealizada. Gabriel percebe muito mais do mundo adulto do que os adultos imaginam e, ao mesmo tempo, ainda tenta compreender seus próprios desejos. A relação com Pedro é especialmente bonita porque nasce entre dois meninos bastante diferentes e vai se construindo sem grandes explicações. No meio disso, aparecem a família, a solidão, as expectativas em torno do que significa ser menino e essa sensação tão própria da infância de estar tentando descobrir as regras do mundo.
Há também muito humor no livro, inclusive quando a narrativa se aproxima do medo e do estranho. O Halloween, que poderia ser apenas uma referência nostálgica aos anos 1980, acaba funcionando como espaço de liberdade e invenção para Gabriel. Mais importante do que conseguir doces é ter vivido aquela aventura e voltar para casa com histórias para contar. É essa mistura entre doçura e desconforto, talvez já anunciada pelo próprio título, que fica depois da leitura. Caramelo salgado, publicado pela Editora Rua do Sabão, é um romance delicado sem ser sentimental, e Santiago Nazarian consegue falar de infância com uma naturalidade que parece ser uma das maiores qualidades do livro.