*Por Beatriz Carrijo*
Em Fragmentos de uma ausência, Luigi Ricciardi parte de uma experiência amorosa marcada pela perda para construir uma narrativa que transita, o tempo todo, entre a memória e a invenção. A dúvida sobre o que pertence à vida do autor e o que é fruto da ficção nunca chega a ser resolvida… e nem precisa. Ao contrário, é justamente essa indefinição que sustenta o romance, fazendo da autoficção menos um jogo de adivinhação do que um instrumento para investigar fragilidades e as formas como contamos a nós mesmos a nossa própria história.
A estrutura fragmentária, organizada em capítulos que recebem nomes de funções e propriedades matemáticas, confere ritmo e originalidade ao livro. A aparente racionalidade desses títulos contrasta com o caos dos relacionamentos amorosos, produzindo uma ironia discreta e eficiente. Ao longo da narrativa, acompanhamos o protagonista desde as primeiras inseguranças afetivas até uma relação tóxica que desencadeia um processo depressivo. Ainda que trate de temas difíceis, Ricciardi evita o tom confessional excessivo e conduz o relato com humor, leveza e um ritmo que, em muitos momentos, lembra o de um roteiro cinematográfico. Soma-se a isso um narrador que admite mentir com frequência, embaralhando ainda mais as fronteiras entre realidade e ficção e convidando o leitor a aceitar essa instabilidade como parte da experiência literária.
Outro mérito do romance está na maneira como transforma uma história particular em reflexão sobre identidade, autoestima e elaboração do sofrimento. Mais do que narrar o fim de um relacionamento, Fragmentos de uma ausência acompanha o processo de reconstrução de alguém que tenta compreender a si mesmo por meio da escrita. A edição da Editora Mondru reforça essa proposta com um projeto gráfico elegante, concebido por Jeferson Barbosa, no qual imagens desfocadas e símbolos matemáticos dialogam diretamente com o texto. O resultado é um livro coeso, sensível e formalmente inventivo, que confirma Luigi Ricciardi como uma voz interessante da literatura brasileira contemporânea.