*Por Beatriz Carrijo*
Em Instruções para desaparecer devagar (Faria e Silva), Flávia Iriarte constrói um romance sobre culpa, privilégio, medo e as relações nem sempre simples entre mulheres de origens sociais distintas. No centro da história estão Alice, jovem branca e rica, e Bárbara, colega de classe vinda da periferia. Uma viagem paga pelo pai de Alice, inicialmente atravessada por uma espécie de desejo de reparação, aproxima as duas e ao mesmo tempo expõe aquilo que existe de desigual nessa amizade. Quando um episódio violento acontece, as diferenças que até então permaneciam mais ou menos silenciadas passam para o primeiro plano.
O livro funciona como um thriller psicológico, mas Flávia prefere defini-lo como uma “tragédia contemporânea”. Há, de fato, algo de trágico na maneira como as personagens parecem caminhar em direção a acontecimentos determinados não por um destino sobrenatural, mas pelo lugar que ocupam no mundo. Classe, gênero e raça entram na narrativa sem que o romance se transforme simplesmente em veículo para uma tese. Uma das questões mais interessantes está justamente na culpa de Alice diante dos próprios privilégios: até que ponto tomar consciência deles é capaz de produzir uma transformação verdadeira? E em que momento essa consciência passa a servir apenas para aliviar quem sente culpa?
A autora escolhe uma linguagem seca, econômica, sem grandes efeitos, o que combina com o desconforto que pretende criar. A amizade feminina também aparece longe de qualquer idealização: há afeto, mas há hierarquia, ressentimento, silêncio e diferentes maneiras de experimentar o medo. Flávia parte, inclusive, de uma experiência pessoal vivida durante uma viagem ao Camboja, quando se hospedou em um lugar precário e sentiu de maneira muito concreta a vulnerabilidade de estar sozinha. Esse medo difuso, familiar a tantas mulheres, atravessa o romance e ganha outras dimensões à medida que as personagens precisam interpretar o que aconteceu com elas — e encontrar uma maneira de continuar depois disso.
Instruções para desaparecer devagar marca a estreia de Flávia Iriarte no romance, mas sua relação com a literatura vem de muito antes. Carioca radicada em Brasília, formada em Cinema pela UFF e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, ela fundou a Editora Oito e Meio, pela qual publicou mais de 320 autores, criou a escola Carreira Literária e coordenou a implementação de uma pós-graduação em Escrita Criativa. Depois de mais de quinze anos lendo, editando, ensinando e orientando escritores, Flávia muda agora de posição e coloca a própria ficção diante do leitor. O resultado é um romance incômodo, que prefere fazer perguntas a oferecer respostas fáceis — sobretudo quando pergunta o que fazemos, de fato, depois que passamos a enxergar o lugar que ocupamos no mundo.