A vida real dos livros

Por Maurício Mendes

Há algumas semanas fechei o arquivo de Uma mulher séria, meu segundo romance. Converti em PDF, conferi as páginas, li uma última vez, comparei com as duas últimas versões. Era um domingo à noite. Adormeci passando o texto em revista. De manhã, quando fui relê-lo, o livro já estava enviado. Desde então, não dormi nenhuma outra noite sem lembrar dele.

Dizer que terminei um romance resolve apenas uma parte da equação. O arquivo está fechado, mas o livro ainda não existe da maneira como costumamos reconhecê-lo. Não há exemplar na livraria nem data de lançamento. Há um PDF circulando entre algumas pessoas. Alguns leitores já conhecem Tomé e Marina, já estiveram num centro de hemodiálise, já viram um peixe dourado repetir e repetir um trajeto dentro de um aquário e já chegaram ao Poço da Draga pela mesma direção incompleta do narrador.

Foi depois do envio que pensei nisso: Uma mulher séria ainda não existe e já tem leitores. Os personagens que por tanto tempo dependeram exclusivamente da minha memória começaram a sobreviver na memória dos outros.

Enquanto escrevia o romance, comecei a olhar de outro jeito para uma construção abandonada em Fortaleza. O antigo Acquario Ceará integrou a paisagem da Praia de Iracema. Anunciado como uma grande atração turística, permaneceu ali por anos, inacabado diante do mar. Logo atrás está o Poço da Draga, comunidade centenária entre o Centro e a Praia de Iracema, numa das áreas mais disputadas da faixa litorânea. Em 2026, a comunidade completou 120 anos.

Eu conhecia essa história de maneira aproximada. Só depois de terminar o romance fui ler Planejamento insurgente e ação coletiva: o caso do Poço da Draga em Fortaleza, de Amanda Máximo Alexandrino Nogueira e Clarissa Figueiredo Sampaio Freitas, publicado este ano em Cadernos Metrópole.

Uma das figuras do artigo tem um título quase literário: “Macroestruturas e barreiras visuais do Poço da Draga – 2019”.

O mapa mostra a comunidade cercada por grandes estruturas, entre elas o Acquario, e o estudo acompanha a resistência dos moradores às ameaças de remoção. Quando li aquilo, voltei a uma frase do romance.

Tomé está diante da carcaça do Acquario. Sabe que o Poço começa atrás dela, embora daquele ponto as casas praticamente não apareçam. Marina atravessa a comunidade semanalmente para trabalhar com adolescentes numa oficina de escrita. Tomé a acompanhou uma única vez.

Ele pensa:

“Eu conheço a comunidade pela sombra do aquário.”

Escrevi a frase antes de conhecer o estudo. Depois dele, a frase ficou um pouco pior para Tomé.

Ele conhece aquela parte da cidade através da própria estrutura que a esconde.

Foi nos clubes de leitura que percebi com maior clareza o que acontece quando outras pessoas entram num livro. Todos leram o mesmo romance. As páginas têm a mesma ordem. As frases estão impressas nos mesmos lugares. Basta começar a conversa para essa estabilidade desaparecer.

Alguém reconhece uma rua que os outros desconhecem. O personagem que irritou metade do grupo encontrou a simpatia de alguém que conhecia um detalhe que havia escapado à maioria. Às vezes basta uma informação histórica para mudar uma cena inteira.

O livro continua igual sobre a mesa. Dentro da sala, começou a se multiplicar.

Lembrei de Enrique Vila-Matas.

Em Bartleby e companhia, Vila-Matas reúne escritores que deixaram de escrever, produziram pouco ou passaram a orbitar uma obra que jamais chegou a se realizar. Todo escritor possui uma biblioteca assim.

Nela ficam os romances abandonados, os personagens para os quais nunca encontramos uma história, os títulos anotados no telefone e incompreensíveis meses depois. Há também livros que nos acompanham por anos sem receber uma única linha. Conhecemos o protagonista, uma cena, às vezes até o final. Contamos a história num jantar. Dizemos que será o próximo.

Durante algum tempo, achamos que sabemos tudo sobre eles. Depois já nem lembramos por que pareciam tão urgentes.

Alguns deixam três páginas no computador. Outros sobrevivem numa anotação. Certos personagens reaparecem anos depois em outro romance. Há ainda os livros que só existiram na cabeça de quem pretendia escrevê-los.

Quantos romances morreram com seus autores? Quantas primeiras frases desapareceram entre uma caminhada e a chegada em casa?

O antigo Acquario voltou a ser uma obra. A Universidade Federal do Ceará está transformando a estrutura para integrá-la ao Campus Iracema.

Daqui a poucos dias vou visitar outra construção inacabada.

Um dos clubes de leitura dos quais participo completa dez anos. Para comemorar, estamos organizando uma excursão a Caridade, município do Ceará.

Vamos por causa de A cabeça do santo, de Socorro Acioli.

No romance, Samuel chega à cidade de Candeia e encontra a gigantesca cabeça de uma estátua de Santo Antônio que nunca chegou a ser concluída. A estátua existe em Caridade. O corpo ficou inacabado no alto de um morro e a cabeça, construída no chão, permaneceu separada dele. Socorro Acioli levou essa imagem para o romance. Dentro da cabeça, Samuel começa a ouvir as preces amorosas dirigidas a Santo Antônio.

Agora um grupo de leitores vai pegar a estrada para vê-la de perto.

Acho difícil imaginar comemoração mais adequada para dez anos de clube.

Durante esse tempo, passamos centenas de horas conversando sobre pessoas que nunca existiram. Implicamos com narradores, defendemos personagens, brigamos por finais. Alguns livros foram esquecidos em poucas semanas. Outros criaram amizades, levaram alguém a procurar outro escritor, fizeram uma rua conhecida parecer diferente.

Até que um deles nos colocou dentro de um ônibus.

Uma cabeça separada de uma estátua vai parar dentro de um romance. O aquário abandonado de Fortaleza aparece em outro. E, por causa de um personagem inventado, estaremos numa estrada de verdade.

Penso no PDF que enviei naquele domingo.

Por enquanto, Uma mulher séria existe num arquivo fechado e na memória de algumas pessoas. Tomé e Marina já estão em lugares aos quais eu não tenho acesso.

No próximo domingo, estaremos na estrada para Caridade.

Maurício Mendes é médico e escritor, autor do romance O homem não foi feito para ser feliz (Mondru). Atua também como mediador de clubes de leitura, é colaborador de O Odisseu e assina a coluna quinzenal A vida real dos livros na São Paulo Review. Seu segundo romance, Uma mulher séria, está concluído.

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