Por Beatriz Carrijo
Em Dias de Bossa Nova, Inês Rodrigues conta a história de uma família, mas é São Paulo que aos poucos se impõe como uma das grandes personagens do romance. A narrativa parte de Felipe Navarra já velho, em 2009, no enterro da irmã, para voltar à infância e à chegada de sua família à capital, em 1941. Viúva e com seis filhos, Dolores deixa o Vale do Paraíba em busca de uma vida possível na cidade grande. A partir daí, acompanhamos não apenas o crescimento de Felipe, mas também uma São Paulo que se transforma radicalmente ao longo de quase sete décadas. A cidade da garoa, dos bondes e das vitrines do Mappin vai dando lugar a outra, mais rica, mais veloz, mais violenta e também mais desigual.
O que me parece mais interessante no livro é justamente a maneira como essa transformação histórica aparece misturada à vida cotidiana. Inês não escreve um romance histórico no sentido convencional. Os grandes acontecimentos entram na narrativa pelas bordas, atravessando empregos, casamentos, ambições, dificuldades financeiras e pequenas decisões familiares. A inauguração de Brasília, as migrações internas, as mudanças de comportamento e os anos da ditadura surgem a partir da experiência dos personagens. É uma escolha acertada, porque impede que o livro vire uma espécie de inventário de época. A História está presente, mas o que permanece no centro são as pessoas e a forma como tentam sobreviver a ela.
Felipe é também um narrador cheio de contradições, e isso dá força ao romance. Ele pode ser engraçado, afetuoso, egoísta, vaidoso e até desagradável, muitas vezes no espaço de poucas páginas. Sua trajetória profissional no rádio se confunde com a própria história da música brasileira e com um momento de grande efervescência cultural do país. Mas Dias de Bossa Nova não é exatamente um romance sobre a bossa nova. A música funciona mais como uma espécie de trilha sonora de uma geração e de um Brasil que, durante algum tempo, acreditou no futuro. Quando esse mundo começa a desaparecer, Felipe também precisa enfrentar suas perdas, seus desejos e as consequências das escolhas que fez.
Há no livro uma atenção especial aos detalhes, talvez uma de suas qualidades mais evidentes. Comida, roupas, móveis, ruas, cheiros, programas de rádio, hábitos domésticos e objetos aparentemente banais ajudam a reconstruir cada período. É por meio deles que a memória ganha corpo. Em alguns momentos, essa abundância de referências e episódios faz a narrativa se alongar mais do que seria necessário, mas existe uma coerência nessa escolha: Felipe está tentando organizar uma vida inteira pela lembrança, e a memória raramente é econômica. Também é importante que o passado não apareça idealizado. Há afeto e nostalgia, mas há igualmente pobreza, preconceitos, autoritarismo dentro das famílias, desigualdade social e frustrações que atravessam gerações.
No fim, Dias de Bossa Nova, é sobretudo um romance sobre memória, pertencimento e passagem do tempo. A história dos Navarra acaba sendo também a história de milhares de famílias que chegaram a São Paulo acreditando que a cidade poderia lhes oferecer outra vida. E talvez esteja aí a maior qualidade do livro: falar de uma cidade imensa a partir de uma experiência íntima. No epílogo, Felipe observa as luzes de São Paulo e imagina uma vida acontecendo por trás de cada uma delas. É uma imagem simples, mas que resume muito bem o romance. Depois de tantas décadas, perdas, amores e transformações, a cidade permanece diante dele como aquilo que sempre foi: um conjunto quase infinito de pequenas histórias particulares acontecendo ao mesmo tempo. O romance foi publicado nos Estados Unidos em 2017, e agora chega ao público nacional pela Folhas de Relva Edições.