A única novidade é o sol. Nem Deus inova: por isso o moderno é o eterno. O ser é: o criado em sua intransmissível solidão. (Rosario Fusco)
* Por Ronaldo Cagiano *
A frase que abre a narrativa labiríntica de Eu contra o sol (Ed. Confraria do Vento, Rio, 2016), romance do paulista Alex Tomé, já antecipa a potência que virá nas páginas dessa caudalosa história: “As primeiras palavras não foram escritas”. Assim o protagonista Benício a(s)cende o farol de uma profunda imersão poética, filosófica e metafísica, na esteira de suas inquietações existenciais, num cenário em que multiplicam-se conflitos de variada natureza, do estético ao ético.
Em seu livro de estreia o autor expõe toda sua opulência criativa não apenas ao construir um personagem (in)tenso, polifônico e atormentado, como também na engenhosidade de uma trama que irrompe vulcanicamente e não deixa o leitor desgarrar-se de suas páginas, eletrizado por sua carga de alta voltagem literária e denso chafurdar na própria condição humana.
Homem destinado a pagar caro tributo à sua sensibilidade, por conta de um olhar agudo sobre o mundo geográfico e psicológico que o circunda, nele embrenha-se e sofre suas paranoias ao tentar compreender as contingências que o afetam.
A frase inicial é chave para se entender as idas e vindas desse personagem arrastado pela torrente inconformista, um poeta que arregimenta suas forças para enfrentar as vicissitudes, que não se deixa amesquinhar pela mediocridade do tempo e as diatribes ou animosidades do cenário que vai se abrindo à sua frente, como numa sequencia de palimpsestos vivenciais a lhe exigirem uma constante metamorfose de posturas e sentimentos.
Eu contra o sol metaforiza o cipoal de contradições de Benício, seu embate íntimo contra a claridade do real, seja aquilo que está aí e nos cega se o fitamos de frente; ou aquilo que queremos negar e nos turva a compreensão. Benício,é um poeta que se arroja num percurso interior catártico, de extremos psicológicos e contornos afetivos que explicitam dissensões familiares e desencantos/desencontros amorosos, esse imaginário das relações que tanto nos afeta. Romance em que a frustração se instaura como leitmotiv para a construção de toda uma reflexão sobre os altos e baixos da própria juventude, as dores & delícias de uma geração perdida entre desejos e desmoronamentos de toda a ilusão ou utopia num mundo tão banalizado pela dor e pela morte.
Alex Tomé debuta com a verve dos veteranos, tão amadurecido e cioso de seu projeto literário, pois nota-se nesse livro alguém isento dos cacoetes ou deficiências muito comuns aos estreantes. É um artesão em pleno domínio dos artefatos da linguagem, estilista da arquitetura ficcional, que assimilou influência dos grandes mestres, alimentou-se nas melhores fontes, tal seu histórico de leituras visível no seu texto. Sua escritura espelha ainda seu trânsito por vertentes e linguagens distintas, tal a sua habilidade e versatilidade no manejo da história, na harmonia entre forma e conteúdo, na apreensão de muitos referenciais culturais, sociais, políticos que reverberam na voz de um Benício que amplifica uma visão hermenêutica de nossa esclerosada contemporaneidade.
Por outro lado, o autor conduz todo o aparato narrativo por meio de uma inflexão metalinguística e laivos de intertextualidade, conferindo ao conjunto uma sofisticação estilística que culmina em delicada prosa poética. Dessas particularidades e afinidades também emerge a força de uma atmosfera que panoramiza o próprio caos, individual ou coletivo, decodificando os elementos que gritam verdades a queima-roupa na mitologia de nossas sensações, tendo Benício ricocheteando nossos fantasmas e obsessões, na linha do niilismo de um Nietzsche ou da angústia ancestral de um Samuel Rawet.
Como referenda Paulo Scott na apresentação, Alex Tomé é “um jovem autor que merece ser acompanhado pelos leitores”. Com toda razão, tanto pelo valor intrínseco do romance, quanto pela oportunidade de premiar-nos com uma prosa autêntica e voraz, potencialmente devastadora ao comunicar o universo de um personagem em ebulição nostálgica e psicológica, com seu arcabouço emocional questionador, que declara num dos poemas que escreveu: “Não escolhi a melancolia como estilo de vida;/ veio e se instalou/ de corpo inteiro…” E ele se redime de todo esse embaraço pela palavra, pois confessa: “O que eu gosto é de escrever/ todo o resto é sacrifício.”
Livro pungente, em que as demandas peculiares ao nosso estar-no-mundo são tratadas sem dourar a pílula, em que lirismo e reflexão filosófica misturam-se em perfeita simbiose para dar conta de nossas lutas internas e explorar e escandir as camadas mais profundas de um ser que deambula pelos labirintos de seus desafios, reproduz, em última instância, os caminhos e descaminhos de uma juventude em busca de saídas, tendo Benício – um homem perplexo, posto à prova em situações limite – como ancoradouro do pensamento, da identidade e das vozes desse tempo de sonhos desfeitos, verdadeiro andarilho do inconsciente que nos habita e corroí com seus crepúsculos e solidões.
E entre o paraíso e o inferno vividos, reminiscências como espelho de uma dilacerante experiência humana e os paradoxos desmascarados pela vida, “Eu contra o sol” é a história de um homem remando contra a maré da escuridão que o habita e atesta a qualidade de um autor esmerado no seu ofício, um verdadeiro antídoto contra a mesmice (ou o que há de requentado) na literatura contemporânea brasileira.
Leia trechos:
Ruas e pessoas, tantos encontros e tantas esquinas possíveis, delirava. Benício sentia saudades de ter sorte. Acendeu um cigarro e ficou observando um senhor cabeça branca que bostava as plantas com adubo natural. Retirou seu caderno de poemas do bolso traseiro e se colocou a escrever. Parecia ter tomado a melhor decisão, as palavras distanciavam-no do que ele mais temia, distanciavam-no dói que ele esta prestes a se tornar.”
Você não sabe o que é verdadeiramente uma multidão até ser reduzido a nada dentro dela. Você se torna uma coisa amorfa. Você é apenas uma das milhares coisas que gritam. Você faz parte desta artéria rudimentar e sem nome, seuseu sangue corre intacto, e uma energia religa você a desconhecidos. Vocês são um mesmo borrão.”
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Ronaldo Cagiano é escritor mineiro de Cataguases, reside em São Paulo. É autor, entre outros, de Eles não moram mais aqui (Ed. Patuá, 2015), Prêmio Jabuti de Contos 2016.