* Por Alexandre Brandão *

“Eu gosto tanto de parafuso e prego.” (Macabéa em A hora da estrela, Clarice Lispector).

 

A obra ia bem, os peões, por motivos que não vêm ao caso, nem tanto, e Isildinha, a moça que trabalhava na loja de material de construção que, naquele momento, fornecia tijolos e cimento e, depois, as ferragens para o futuro lar dos Almeidas, estava mal.

Não por dinheiro. Isildinha nunca teve dinheiro, trabalhava pelo salário mínimo. Morava na casa da mãe, e outros, que lá também viviam, contribuíam igualmente, logo formavam um lar pobre, mas não miserável. Estar mal, portanto, não tinha a ver com as finanças. Seu Almeida talvez estivesse em piores condições, quer dizer, ele tinha um bom emprego, mas investira toda sua poupança na “casinha que lá ia subindo” e ela fora insuficiente, o orçamento pulou de um para dois. Ele teve de recorrer a um banco e pela primeira vez convivia com uma dívida. Claro, nada o aproximava da pobreza, ainda que esse compromisso o obrigasse a modificar um pouco seu estilo de vida. A família proprietária da loja de material de construção, também sem se aproximar da pobreza, sofria com a crise que se espalhava pelo país. Seu Almeida e outros clientes acabavam atrasando o pagamento dos boletos, então a empresa tinha de fazer ajustes para manter o negócio de cinquenta anos. Todo esse movimento poderia custar o emprego de Isildinha, mas, por enquanto, isso não estava nos planos da empresa, a funcionária era de longe a melhor.

Isildinha também não estava mal por coisas do amor. Ela teve um casamento de curta duração. O Armínio não era um cafajeste, um vagabundo ou um beberrão, simplesmente a coisa não funcionou. Entre as causas da separação, devem-se afastar as frustrações do corpo porque, nesse aspecto, gabavam de se procurarem sempre quando um e outro queriam. Isildinha, na visão do ex-marido, tinha uma insatisfação que só crescia. Não era uma mulher exigente nem ambiciosa, ao contrário, gostava de estar em casa, não se importava de cozinhar, de cuidar da roupa. Que insatisfação era essa? Para ele insatisfação era o nome daquilo que não compreendia. Nesse momento em que Isildinha estava mal, o casamento terminara havia pelo menos dois anos. Ela costuma se perguntar o que foi que aconteceu ou deixou de acontecer, e não encontra resposta. Leva a vida sem resposta, sem nostalgia do amor e foge de compromissos sérios. Contenta-se com uns amassos com o Juve, balconista no bar próximo da loja. Nunca foram a um cinema juntos nem comeram batatas fritas na pracinha. Entre eles, apenas o beijo e suas consequências.

O mal-estar de Isildinha não era visível. Para falar a verdade, nem mesmo ela se dava por ele, ou, por outra, não se dava racionalmente por ele. Sentia-se incomodada, e era tudo. Certa vez, recorreu a médicos. Ela diz, no seu jeito expansivo, que não aceita que amaldiçoem o sistema de saúde do país. No posto ao lado de sua casa, os médicos a receberam com relativa rapidez, agendaram os exames também com relativa rapidez e diagnosticaram uma saúde de ferro. Invejável, moça, assegurou-lhe a médica jovem. Isildinha convivia com o desassossego como mais uma das coisas impostas pela vida a quem está nesse mundinho de Deus.

Em sua casa, ninguém dava por nada. Ela era a moça que procurava agradar a todos. Pela mãe se desdobrava. Mãe, quer isso? Mãe, quer aquilo? A TV tá alta? O programa tá bom? E era gentil também com os irmãos, com as cunhadas, com os sobrinhos, com os vizinhos. Seria também com o pai, não tivesse ele morrido tão jovem numa briga de bar. Numa briga de bar, por conta de nada. Nas conversas de família, quando os irmãos chiavam mostrando-se insatisfeitos com o desfecho do caso — o assassino preso por pouco tempo, na visão deles —, a caçula da casa ponderava, pedia-lhes que olhassem para a própria vida: todos de mãos limpas, vivendo em harmonia. Um anjo na terra para a cunhada mais nova e, para Jaline, a mais velha, uma amiga única, dessas que são, ao mesmo tempo, confidentes e críticas.

Foi uma cliente quem detectou o tal mal-estar. Detectou do jeito que os estranhos fazem. Falou por falar, a partir sabe-se lá de qual sensibilidade. A cliente apreçava a lista de material a ser comprado para uma reforma de banheiro. A funcionária olhava preço, opinava sobre a marca mais resistente, dava sugestão de azulejos e cerâmicas. A conversa ia bem, no tom propício a uma transação de compra e venda. Sem mais nem menos, dona Clarice, enquanto fazia anotações na agenda, perguntou o que angustiava Isildinha, que, assustada, deu dois passos para trás e soltou um ora, nada, ando tão feliz. Não é verdade, moça. Como a senhora sabe? Ah, não sei como eu sei, mas eu sei. Isildinha riu. Dona Clarice riu também. Sabe, moça, você está retendo as palavras dentro de você. Mais não disse dona Clarice.

A partir de então Isildinha passou a quebrar a cabeça com aquele enigma. O que seria reter as palavras? Ela era tão faladeira. Ou aquilo não tinha a ver com o fato de falar? Lembrou-se do Armínio e da história da insatisfação. Torcia para encontrar as tais palavras retidas, livrar-se delas, dar-se por satisfeita.

Um dia, no ponto de ônibus, viu uma mulher e uma criança, pareciam mãe e filha. Ela e a mãe algum dia haviam tomado um ônibus juntas, no fim do dia, quando os trabalhadores voltam para casa? Essa pergunta trivial levou-a a concluir que a palavra infância estava retida em seu corpo, não na garganta como era o comum dizer, “a palavra presa na garganta”, mas noutra parte. No peito, no coração, nas pernas. A infância, descobria, era algo que lhe havia escapado. A morte violenta do pai poderia explicar em grande parte esse esquecimento. Quem sabe não houvesse outros motivos.

Quando dona Clarice voltou à loja, Isildinha, amistosa como sempre, aproximou-se dela e deu um jeito de voltar ao assunto. A senhora conseguiu me deixar com uma pulga atrás da orelha com aquela história de palavra retida. A cliente sorriu — não era para ser levada tão a sério —, mas garantiu que um dia Isildinha a entenderia. Foram para o assunto frio da compra de pias e bidês. Ao encerrarem o negócio, compra paga, dona Clarice alisou o rosto de Isildinha. Você é uma moça bonita, procure as palavras escondidas no seu joelho. As duas riram de tamanha esquisitice.

Naquela noite, Isildinha perguntou à mãe por que não se lembrava da própria infância. A mãe tirou os olhos da TV e viu a lágrima no rosto da filha; impossibilitada de dar uma resposta, abraçou-a. Ela guardava muito pouco do tempo da morte do marido, exatamente o período ao qual Isildinha se referia. Aconselhou-a a ir dormir, o dia seguinte seria intenso. Você é uma moça tão cheia de vida, falou enquanto sua caçula entrava no corredor a caminho do quarto.

Cheia ou não de vida, no outro dia lá estava Isildinha vendendo os porcelanatos, as caixas-d’água, os parafusos, as ferramentas. No fim do expediente, foi se encontrar com o Juve e, pela primeira vez, antes de se entregarem aos beijos e suas consequências, pediu-lhe que a olhasse por dentro, por onde achasse melhor olhar, e lhe respondesse se via alguma palavra retida dentro dela. Sem entender direito, ele disse a ela que abrisse a boca e botasse a língua para fora. Então enfiou um dos olhos por aquele túnel fundo e escuro e, ao recuar o corpo, disse, menina, seu coração está saindo pela boca.

Depois disso de palavras retidas e de coração saindo pela boca, Isildinha passou a pular o sono, a esquecer o almoço, a dar pouca atenção à mãe, a brigar, brigar mesmo, com Jaline. E não via a hora de se encontrar com dona Clarice, acusar o golpe e dizer-lhe que nunca esteve mal até ouvir que estava mal. Maldita feiticeira, coisa ruim. Não tardou muito para a cliente aparecer na loja. Isildinha foi logo contando suas tristezas. Ah, dona, foi tudo culpa da senhora. Querida, não fuja da infância e do amor, escreva sobre eles. Escrever? Sim, escrever. Escrever que minha infância foi uma merda, que não sei bem o que é o amor? Por que não, Isildinha? A gente escreve sobre aquilo que mexe com a gente. Bem, e agora, por favor, providencie essas coisas, o pedreiro está sem fazer nada, e eu pagando por isso.

Escrever. Escrever escrever escrever escrever. Isildinha sabia o sentido de escrever? Por que razão se escrevia? Ou para que se escrevia se não fosse para comunicar a necessidade de três lixas grão 60 para madeira, uma lata de dezoito litros de tinta acrílica fosca branca e mais alguma outra coisa? Ora, quando voltasse a se encontrar com o Juve, pediria a ele que a olhasse pelo rabo, pelo esgoto do corpo. Aquilo de coração saindo pela boca era besteira dele, ou, quem sabe, um jeito de dizer que fossem logo ao que logo sempre iam antes de ela se meter nessa barafunda.

Ao chegar a sua casa, todos já estavam em seus quartos. Sentou-se na cozinha, comeu uma torrada, bebeu um leite morno. Pegou uma caneta e um papel e escreveu: “Não fui menina quando menina eu fui”. Depois a caneta ficou presa à mão, suspensa no ar. Voltou a escrever: “A que sou hoje é uma borboleta que não foi lagarta”. Os olhos de Isildinha se perderam no espaço exíguo do cômodo. Pensou em seu ex-marido. Não fossem tão ignorantes ou fossem um pouco mais maduros, ele a teria ajudado a decifrar a insatisfação que carregava. “Uma borboleta dessa natureza é um blefe de asas coloridas.”

Jaline entrou na cozinha. Passou por trás da cunhada, viu o papel, leu-o em silêncio, de uma forma quase clandestina. Contornou a mesa, sentou-se. Olharam-se de um jeito que só as duas sabiam se olhar. Querida, é só um primeiro passo. Você acha, Jaline? Jaline sorriu e deu-lhe as mãos. Foram para a sala, Isildinha deitou-se com a cabeça nas pernas da cunhada. A casa estava escura, e a escuridão serviu àquelas mulheres como o sol serve à semente.

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Alexandre Brandão é autor de Uns e outros mais dois ou três (Editora Patuá, coleção Estilingues 30). É contista, cronista e poeta. Mineiro, vive no Rio de Janeiro.

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