Em Beatriz – Uma existência de mulher (Editora Máquina de Livros), Catarina Setubal de Rezende transforma a história da própria mãe em um romance de bioficção construído a partir de um amplo trabalho de pesquisa. A autora recorreu a mais de 140 cartas, fotografias e documentos da época para reconstruir a trajetória de Maria Beatriz, morta aos 45 anos, quando deixou cinco filhos ainda crianças e adolescentes. Catarina tinha 17 anos na ocasião. Ao acompanhar a vida da protagonista, o livro também atravessa o Brasil das décadas de 1950 e 1960, aproximando a experiência íntima de acontecimentos históricos e das transformações sociais daquele período.
Formada em letras pelo Instituto Superior de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae, Beatriz integrou a Juventude Universitária Católica (JUC) e estudou sociologia na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo. Interessava-se pelas desigualdades brasileiras e desejava conhecer de perto realidades distantes dos grandes centros urbanos. Paralelamente a esse percurso, a narrativa acompanha o relacionamento com o professor de filosofia Antônio Rezende, desde o início do namoro até o casamento, tendo como fio condutor a correspondência trocada pelo casal. As cartas ajudam a revelar os projetos, os conflitos e as escolhas de uma mulher que buscava ampliar os limites impostos ao seu tempo.
Na segunda parte do livro, a perspectiva muda para a filha, que revisita o luto e as responsabilidades assumidas após a morte da mãe. As cartas que Catarina escreve a Beatriz, assim como a descoberta de uma mensagem deixada pela mãe pouco antes de morrer, reforçam o diálogo entre memória, ausência e reconstrução afetiva que atravessa toda a obra. O romance se encerra com uma experiência singular: a autora utiliza recursos de inteligência artificial para recriar a voz de Beatriz mais de cinco décadas após sua morte, em um gesto que busca aproximar passado e presente e refletir sobre as diferentes formas de preservar uma existência por meio da literatura.