12.

Em Há mundo por vir?, de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro, há um trecho sobre o conceito Yanomami de humanidade e natureza – para os Yanomami o humano precede o mundo. Antes do mundo havia o espírito humano, depois, partes desse espírito foram se transformando em rios, pedras, montanhas, animais, e alguns que sobraram permaneceram na sua forma humana. Sendo assim, tudo o que existe é humano, guarda sua alma humana. E não nós, ápice e fim da criação, aparta dos da natureza. O mais interessante dessa perspectiva é que ela não é única dos Yanomami, mas aparece em diversas culturas indígenas. É o caso dos aborígenes da Austrália. Robert Lawlor, em seu livro Voices of the first day, nos explica que, para os aborígenes, os ancestrais teriam criado todas as coisas simultaneamente e que, nesse início, elas podiam se transformar umas nas ou tras: uma planta podia se transformar num animal, um animal numa montanha, uma montanha num homem ou numa mulher. Há tempos penso nas possibilidades da escrita, de uma literatura deslocada do sujeito, onde tudo tem voz: o rio, a chuva, a floresta, o trovão e até as capivaras. Uma escrita mais próxima do sonho, do transe, da alucinação, do que (ainda) não sabemos que sabemos. Não um livro que escrevemos, mas um livro que nos escreve. Uma literatura que se dá na compreensão (e humildade) de que não somos nós que a sabemos, mas é ela que nos sabe.

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O mundo desdobrável, de Carola Saavedra (Relicário, 216 págs.)

Em seu primeiro e ótimo livro de ensaios, a escritora brasileira Carola Saavedra reúne temas como o fim do mundo, ancestralidade, cultura, psicanálise, literatura feita por mulheres, literatura indígena, reflexões sobre Carolina Maria de Jesus, Hilda Hilst, Clarice Lispector e muitas/os outras/os expoentes das artes, do cinema e da filosofia. Também comparecem Dom Quixote e o nascimento do romance moderno, assim como a ideia da literatura além da escrita, a literatura como oráculo, revelação e abertura de novas possibilidades impensadas. O que pode, portanto, a literatura? Neste belo e vibrante livro, ela parece poder muito.

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