* Por Alexandre Staut *

O recifense Klester Cavalcanti é um dos grandes nomes da reportagem investigativa do Brasil, assim como do jornalismo literário. Trabalhou em alguns dos maiores veículos do país, como Veja e Estado de S. Paulo. Recebeu prêmios nacionais e internacionais, como o de Melhor Reportagem Ambiental da América do Sul, conferido pela agência Reuters e pela ICUN (International Union for Conservation of Nature).

Seu livro mais conhecido e polêmico é O nome da morte, lançado pela Planeta, em 2006, em que entrevista Júlio Santana, matador por ofício, uma profissão que aprendeu em família, com seu tio Cícero, que lhe passou um trabalho aos 17 anos. Em 35 anos de “carreira”, Júlio matou exatas 492 pessoas, registrando todos os seus “serviços” em um caderninho cuja capa tinha um desenho do Pato Donald.

O livro acaba de sair pela francesa Métailié. Este ano, ainda sai pela Seven Stories Press. Com os direitos vendidos para a Muza (Polônia), a Presença (Portugal), a Península/Planeta (Espanha) e a Allen & Unwin (Austrália e Nova Zelândia), o livro-reportagem poderá ser visto nas telas de cinema, em breve. Leia bate-papo com o autor sobre temas da atualidade, como política, violência, guerra, jornalismo e publicação no exterior.

Violência no Brasil

São muitas as áreas nas quais o nosso país é destaque internacional do ponto de vista negativo: violência agrária, feminicídio, assassinato de gays, trabalho escravo… Em todas essas chagas sociais, figuramos entre os países do mundo com os maiores índices. É uma vergonha internacional. E nenhum Governo Federal conseguiu combater nenhum desses problemas de maneira eficiente nos últimos 20 anos. Pelo contrário. Em alguns casos, o problema só aumenta. Em relação ao trabalho escravo, por exemplo, o grupo do Governo Federal criado em 1995 pra combater a escravidão contemporânea já teve nove equipes simultaneamente em ação, viajando por todo o país, libertando homens, mulheres e crianças de fazendas, usinas, carvoarias, oficinas de costura… Nos últimos 15 anos, esse número foi reduzido para apenas 4 equipes, ou seja, menos da metade do que era no início de 2000. Não raro, grandes políticos brasileiros financiam o trabalho escravo. No livro “A Dama da Liberdade”, que publiquei em 2015, há casos gravíssimos de deputados, senadores e até de um então vice-presidente da República comprovadamente envolvidos com o trabalho escravo: o já falecido José Alencar. Numa operação coordenada pela auditora do Trabalho Marinalva Dantas, o atual ministro dos Esportes, Leonardo Picciani, e seu pai, o deputado estadual Jorge Picciani (do PMDB do Rio de Janeiro), foram obrigados a indenizar mais de 30 agricultores por exploração de trabalho escravo. A questão é tão séria, que chega a ser quase inacreditável. Temos, hoje, no comando do Ministério dos Esportes, um indivíduo que já foi flagrado, numa operação realizada pelo próprio Governo Federal, explorando mão de obra escrava. A mesma coisa vale para o caso do ex-vice-presidente José Alencar, cujo processo por envolvimento com trabalho escravo está arquivado na Procuradoria-Geral da República. O que esperar de um país em que o próprio vice-presidente da República é denunciado num caso envolvendo trabalho escravo?

Matadores de aluguel

A profissão de matador de aluguel é muito comum em vários países. O cinema e a literatura mostram bem isso. Na Itália, nos Estados Unidos, na Alemanha, no México. Em todos esses países, são muitos os casos de assassinatos cometidos por pistoleiros profissionais. No Brasil, as reportagens denunciando execuções realizadas por esses profissionais da morte são publicadas quase que diariamente em jornais pelo país afora. Em 1999, durante uma reportagem que eu estava produzindo no interior do Pará, tive acesso a um matador de aluguel. Num primeiro momento, surgiu a ideia de fazer uma reportagem sobre esse cara, um perfil dele. Meu interesse era mostrar o lado humano de uma pessoa que passou a vida toda matando outras pessoas , por profissão. Logo, percebi que a história do Julio Santana – esse é o nome do matador – era rica, interessante e inusitada demais para ser contada numa matéria. Decidi, então, escrever um livro sobre a vida do Julio. Assim, nasceu meu terceiro livro: “O Nome da Morte”, que ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura, em 2007. No livro, estão publicados os nomes reais de todos os envolvidos: do próprio matador, dos mandantes dos crimes, das vítimas… De tão fantástica, a história do Julio chamou a atenção de cineastas e produtores de cinema. E agora, pouco mais de 10 anos após a publicação do livro, o filme “O Nome da Morte” está prestes a ser lançado nos cinemas de todo o Brasil. Em agosto deste ano, o filme estreará no circuito comercial.

“O nome da morte” no cinema

Ver um livro que eu escrevi há mais de 10 anos ser adaptado ao cinema, uma linguagem que eu adoro, foi uma experiência única e muito interessante. Como autor e como cinéfilo, sempre tive consciência de que o filme ficaria – e tinha de ficar – muito diferente do livro. São linguagens distintas para públicos também distintos. Há cerca de 2 anos, quando o filme estava em plena produção, o diretor Henrique Goldman e o produtor Rodrigo Letier me deram a alegria de acompanhar as filmagens por alguns dias. Estávamos filmando no Tocantins. Foi sensacional chegar lá e ver todo aquele aparato e cerca de 100 pessoas envolvidas na realização de um filme baseado numa história escrita por mim. Era um batalhão de cinegrafistas, iluminadores, figurinistas, maquiadores, motoristas e toneladas de equipamentos. Além, claro, de grandes atores, como Marco Pigossi (no papel do matador), Fabiula Nascimento e André Mattos como protagonistas, e coadjuvantes brilhantes, como Matheus Nachtergaele e Augusto Madeira. Gostei tanto da experiência, que decidi me dedicar ao cinema pra valer. Atualmente, tenho dois contratos assinados com produtoras pra escrever roteiros. Um deles será a adaptação do meu mais recente livro, “A Dama da Liberdade”, que será dirigido pelo cineasta Bruno Barreto, um dos maiores nomes do cinema brasileiro.

Guerra da Síria

Sempre tive o sonho de trabalhar numa cobertura de guerra. Mas tinha de ser no Oriente Médio. Em 2011, quando a guerra da Síria começou, eu passei a acompanhar as notícias do conflito, publicadas na imprensa internacional e no Brasil. Em 2012, quando a guerra completou 1 ano, eu comecei a articular minha ida à Síria. Após meses de negociação, consegui, com a ajuda da Embaixada do Brasil em Damasco, o visto de imprensa do Governo Sírio. Era um visto de apenas uma semana. Assim, em meados de maio de 2012, eu cheguei a Damasco, a capital do país, com a missão de ir a Homs, a cidade síria onde a guerra era mais intensa naquela época. Eu já estava com tudo articulado com forças do exército contrário ao Governo. Eu iria passar 3 dias acompanhando os soldados rebeldes no campo de batalha, pra registrar os confrontos entre eles e o Exército Sírio. Ocorre que eu fui preso pelo Exército Sírio, poucas horas após a minha chegada a Homs. Fui torturado, ameaçado de morte e trancafiado na Penitenciária Central de Homs, numa cela com mais de 20 presos, todos nativos da região, muçulmanos. Eu era o único estrangeiro, o único jornalista, o único não-muçulmano na nossa cela. As autoridades sírias não me deixaram sequer fazer um telefonema pra avisar a alguém que eu estava sendo preso. O mais surpreendente é que, quando parecia que a minha vida ia acabar, eu acabei vivendo uma experiência muito rica do ponto de vista humano. Dentro da prisão, fiz amigos, fui confortado e acolhido por pessoas que nunca tinham me visto. No meio de estranhos, me senti consolado. Mas sempre havia a angústia de não saber o que as autoridades iriam fazer comigo. Essa história acabou rendendo meu quarto livro, “Dias de Inferno na Síria”, também agraciado com o Prêmio Jabuti, em 2013. Assim como aconteceu com “O Nome da Morte”, o livro da Síria também chamou a atenção de gente do cinema e já existe o projeto de adaptarmos o “Dias de Inferno na Síria” às telonas.

Jornalismo literário

O Jornalismo Literário entrou na minha vida de forma muito natural. Sempre gostei de ler, especialmente livros de História e biografias. Quando comecei a estudar Jornalismo, passei a ler mais obras de não-ficção. Mas jamais imaginei que um dia me tornaria escritor. Isso nunca foi um sonho ou um projeto de vida. Aconteceu muito naturalmente. Acho fantástico como os grandes autores de Jornalismo Literário conseguem, a partir de apuração e checagem profundas e minuciosas, reconstruir cenas, personagens e ambiente de uma história. O grande Gabriel García Márquez, um dos maiores do gênero, costumava dizer que “um bom texto jornalístico coloca os leitores no local dos fatos”. É isso que tento fazer. Hoje, tenho 5 livros publicados, sendo que 3 deles conquistaram o Prêmio Jabuti. Mas ainda tenho muito a aprender, a evoluir como escritor. Acredito que o Jornalismo pode contribuir muito para a Literatura, e vice-versa. Os exemplos de grandes escritores que também atuaram como repórteres e que usavam técnicas jornalísticas em suas obras são muitos e eloquentes. O próprio García Márquez entra nessa lista, assim como José Saramago – ambos vencedores do Nobel de Literatura –, Gay Talese, Truman Capote e Dostoiévski, que considero o maior de todos.

Livros no exterior

Publicar livros no Brasil é um desafio. O mercado é selvagem e a quantidade de escritores brigando por um espaço é assombrosa. Um autor brasileiro publicar uma obra no exterior é ainda mais difícil. Por isso, fico muito feliz em ver meu trabalho repercutindo fora do Brasil. Há 3 anos, o meu livro “O Nome da Morte” foi publicado na Alemanha, com o título “Der Pistoleiro”. Eu sempre achei que essa história tinha potencial para ser publicada em muitos outros países, mas o meu trabalho cotidiano sempre consumiu a maior parte do meu tempo – nunca deixei de trabalhar com jornalismo para escrever livros –, o que me impedia de correr atrás de editoras estrangeiras. Tudo começou a mudar no final de 2016, quando contratei, pela primeira vez na minha vida de escritor, uma agente literária: a Luciana Villas-Boas, da agência VB&M. Foi a melhor coisa que fiz. Super competente e com experiência de mais 20 anos no mercado editorial, a Luciana conseguiu, em menos de 6 meses, vender “O Nome da Morte” para diversos países. O livro acaba de ser lançado na França e na Suíça. Além disso, já fechamos contrato com editoras de outros 7 países: Estados Unidos, Espanha, Portugal, Polônia, Austrália, Nova Zelândia e Turquia. Sem o trabalho e a dedicação da Luciana e de toda a equipe da VB&M, isso jamais aconteceria. Como país colonizado que somos, ainda temos aquela visão equivocada de que tudo o que vem de fora é melhor. E o caminho inverso também acaba acontecendo. Ou seja, em outros países o trabalho de autores do Brasil costuma ser subestimado. Com isso, escritores brasileiros têm muito mais dificuldade de publicar fora do Brasil do que estrangeiros em publicar aqui. Acredito que, aos poucos, estamos mudando esse cenário.

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Alexandre Staut é editor da São Paulo Review

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