*Por Beatriz Carrijo*
Há livros que tratam da perda e há livros que tentam compreendê-la. As conversas que não tivemos parece pertencer ao segundo grupo. Partindo da doença e da morte do irmão, Janeth de Oliveira constrói uma narrativa em que as lembranças da infância, os vínculos familiares e as perguntas sem resposta passam a ocupar o mesmo espaço. A escolha de escrever diretamente para o irmão funciona como um fio que conduz o relato sem torná-lo excessivamente confessional. Aos poucos, o livro deixa de ser apenas uma história sobre o luto e passa a refletir sobre aquilo que permanece depois da ausência, sobretudo as palavras que ficaram por dizer.
Um dos aspectos mais interessantes da obra é a maneira como a autora intercala o acompanhamento da doença com recordações da infância, da casa da família, da relação entre os irmãos e das mudanças vividas ao longo das décadas. Esses retornos ao passado não têm apenas função nostálgica. Eles ajudam a mostrar como a memória reorganiza os acontecimentos quando tentamos compreender uma perda. O texto também se beneficia da formação da autora na área da saúde, especialmente quando aborda o tratamento oncológico, sempre sem perder de vista a dimensão humana da experiência.
Mais do que buscar respostas definitivas, o livro lançado pela Folhas de Relva Edições convida o leitor a reconhecer situações que fazem parte da vida de muitas famílias. Quem já enfrentou a doença de alguém próximo ou convive com arrependimentos por conversas interrompidas certamente encontrará pontos de identificação. Sem recorrer a grandes efeitos narrativos, Janeth de Oliveira conduz a história com honestidade e sensibilidade, mostrando que recordar também pode ser uma forma de reorganizar a própria existência e de atribuir novos significados ao que parecia permanecer apenas como dor.