* Por Rodrigo Naves *

Memórias não são para qualquer um — são para quem pôde tê-las. Pois quem não soube avaliar no calor da hora as experiências por que passou dificilmente terá mais que um vago passado, tanto mais remoto quanto mais distante se estiver dele. Não é esse o caso de Zuza Homem de Mello. E por isso não causa espanto que alterne ensaios e memórias, gêneros em princípio algo distantes. Acontece que o mesmo tino que possibilitou e, posteriormente, ordenou aquelas experiências também atuou na compreensão dos acontecimentos que Zuza não viveu, ao menos não de forma direta.

No entanto, há outro vínculo forte entre essas memórias e os ensaios. Quase todos os capítulos de Música nas veias analisam a música como fenômeno afetivo e público: das orquestras dançantes brasileiras às difíceis relações de Jacob do Bandolim com a cena musical do país; do extraordinário meio jazzístico da Nova York de fins dos anos 50 à força da música nos veículos de massa (shows, rádio, TV) que ainda não se haviam cristalizado no Brasil; ou ainda nas complexas ligações entre o jazz, as orquestras dançantes e a vida política na Alemanha, da República de Weimar ao nazismo.

E a destreza de Zuza como historiador e escritor faz com que o leitor de fato sinta na pele essa música que faz dançar o corpo e ampliar suas relações com o mundo, que move intuições poderosas e transformadoras, mas também negócios e ambições. E por isso não há nostalgia — esse corvo que ronda as memórias — na narrativa de Zuza, porque ele não só é capaz de reatualizar no presente a experiência de outros tempos, como tem clareza sobre a vida autônoma dessa arte, que assim não depende apenas de suas emoções para existir. A nostalgia floresce justamente naqueles para quem o sentido da música se resume à evocação íntima de situações passadas.

Definitivamente, este livro não é uma apologia dos good old times. E convém observar mais de perto as razões disso. Em seu breve prefácio, Zuza menciona seu encanto pelos contadores de história, o que antecipa ao que o autor aspira com seu texto. E quando descreve as vozes que o encantaram na infância, descreve-as de maneira singular: “lembro (…) da sonoridade radiofônica de meu idolatrado tio Geraldo, do timbre e da impecável dicção do charmoso tio Marcus, lembro-me das pausas, do ritmo e das inflexões deles todos ao contarem suas histórias”. Não poderia ser mais revelador — Zuza experimenta o mundo como música, como timbre, dicção, pausas, ritmo. E essa capacidade de se relacionar musicalmente com a realidade dá a seu livro uma qualidade rara nos textos sobre essa arte.

Zuza conhece música — o que não acontece com muita gente que escreve sobre o assunto —, sabe falar de seus aspectos técnicos com clareza e, para completar, estudou e tocou contrabaixo por um bom tempo, tema aliás do primeiro capítulo do livro. Ora, o baixo é um instrumento rítmico por excelência e parece ter dado a Zuza a habilidade de captar a pulsação da realidade, mais que seus aspectos anedóticos. E seu texto consegue restabelecer os andamentos que marcaram suas vivências, porque se não o encanto não se cumpriria. E por isso não há saudade.

A grandeza de um texto sobre arte, a sua prova dos nove, pode ser verificada por um critério simples: a vontade de, terminada a leitura, cair de boca nas músicas que o autor analisou, nos intérpretes em que se deteve, nas vozes que resgatou. Confesso que fui tomado por uma espécie de síndrome de abstinência, que apenas a “voz de alcova” de Peggy Lee cantando Fever pôde conter. Culpa do Zuza. Sorte nossa.

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O texto acima foi escrito para a orelha do livro Música das veias, de Zuza Home de Mello (editora 34), com textos inéditos do crítico, radialista, historiador e musicólogo, além de mais de 120 imagens especialmente selecionadas pelo autor. Nós o republicamos neste dia como homenagem o autor.  

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Rodrigo Naves é crítico, historiador da arte e professor. Publicou El Greco (Brasiliense, 1985), Amilcar de Castro (Tangente, 1991), Nelson Felix (Cosac Naify, 1998), Goeldi (Cosac Naify, 1999), A forma difícil (2011) e A calma dos dias (2014), ambos pela Companhia das Letras, Van Gogh: A salvação pela pintura (Todavia, 2021), entre outros.

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