*Por Alexandre Staut*

A nova exposição de Maria Nepomuceno na galeria A Gentil Carioca, em São Paulo, reafirma uma pesquisa que há anos vem se desenvolvendo a partir da relação entre escultura, cor e espaço. Em “∞ ∞ (infinita infinito)”, a artista apresenta um conjunto de obras inéditas que parecem surgir de um mesmo fluxo contínuo, como se cada peça fosse um desdobramento da anterior. Mais do que objetos autônomos, as esculturas se apresentam como organismos em transformação, construídos por meio de cordas, contas, tramas e passagens cromáticas que atravessam toda a sua produção.

Um dos aspectos mais interessantes da mostra está na mudança da ocupação espacial. Se em trabalhos anteriores as esculturas frequentemente se expandiam pelo chão, agora elas ganham as paredes e assumem uma verticalidade mais evidente. Ainda assim, preservam a característica maleabilidade que acompanha a obra da artista desde o início. As formas parecem crescer, dobrar-se sobre si mesmas e buscar novos caminhos dentro da arquitetura da galeria. O resultado é uma tensão constante entre peso e leveza, suspensão e gravidade.

A cor desempenha um papel central nessa construção. Em vez de funcionar apenas como revestimento, ela organiza o próprio desenvolvimento das obras. Os tons passam gradualmente de um estado a outro, criando transições lentas que lembram processos naturais. Brancos, rosas, vermelhos, laranjas e azuis se espalham pelas superfícies como se estivessem em permanente deslocamento. Há algo de pictórico nessa lógica, ainda que o campo de atuação seja claramente escultórico.

A sensação de movimento é reforçada pela ausência de um ponto de início ou término claramente identificável. O olhar percorre as obras seguindo curvas, nós, expansões e condensações que conduzem a múltiplas leituras. Sem recorrer à representação, Maria Nepomuceno produz formas que evocam crescimento, circulação e transformação. São esculturas que não parecem fixadas em um estado definitivo, mas abertas à ideia de continuidade que atravessa toda a exposição.

No segundo piso, a mostra de José Bento, realizada em parceria com a galeria Sardenberg, estabelece um diálogo interessante com a individual de Nepomuceno. Embora partam de universos formais distintos, ambos os artistas demonstram interesse pela materialidade e pela capacidade dos objetos de carregar experiências coletivas. Juntas, as duas exposições ampliam as possibilidades de leitura da visita e reforçam a vocação da Travessa Dona Paula como um dos polos mais ativos da arte contemporânea paulistana.

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Alexandre Staut é editor, escritor e pintor. É o criador da desta revista São Paulo Review.

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