*Da redação*
O espetáculo 7 Gatinhos, clássico de Nelson Rodrigues dirigido por Joana Medeiros, ganha nova temporada no Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona entre 20 de junho e 12 de julho de 2026. Após registrar sessões lotadas desde sua estreia, a montagem do grupo Viradas da Encruza em parceria com o Teatro Oficina retorna aos fins de semana com uma proposta que preserva a essência do texto original ao mesmo tempo em que desloca sua ação para um cortiço do Bixiga, em São Paulo. As apresentações contam ainda com a participação da multiartista Jup do Bairro, que interpreta canções inseridas na dramaturgia.
A trama acompanha a decadência da família Noronha, marcada por relações atravessadas por hipocrisia, desejo e violência. Para sustentar o sonho de ascensão social representado pela jovem Silene, considerada a única “pura” da casa, suas irmãs se prostituem enquanto o pai prefere ignorar a realidade para preservar as aparências. Na leitura proposta pelo coletivo, a mudança geográfica do subúrbio carioca para o tradicional bairro paulistano amplia a dimensão social da obra, reforçando seu olhar crítico sobre as estruturas familiares, econômicas e morais que atravessam a sociedade brasileira.
Durante o processo de criação, a montagem incorporou discussões contemporâneas sobre gênero, raça e representatividade, impulsionadas pela diversidade de seu elenco e equipe. A diretora destaca que a peça oferece uma leitura atual do patriarcado sem suavizar as contradições das personagens. Ao contrário, evidencia indivíduos presos a relações de abuso e dependência, em uma dinâmica que expõe os mecanismos de poder presentes tanto na esfera doméstica quanto na social. A aproximação com a Bateria Mirim da escola de samba Vai-Vai também reforça o diálogo da montagem com o território do Bixiga e com a tradição de experimentação artística associada ao legado de José Celso Martinez Corrêa.
A encenação aposta em uma linguagem híbrida, que reúne teatro, performance, música ao vivo, vídeo e elementos circenses. Referências que vão de David Bowie a Pedro Almodóvar convivem com a presença física característica do Oficina, criando uma experiência imersiva em que o público se torna testemunha e cúmplice dos acontecimentos. O resultado é uma montagem que reafirma a força do texto de Nelson Rodrigues e demonstra como suas questões centrais — poder, desejo, classe social e violência — permanecem inquietantemente atuais.