*Por Beatriz Carrijo*

Insular: carregar a geografia na pele ou todo porto é também partida, de Alan dos Santos, é um livro de poemas que nasce de um território — a cidade de Santos —, mas não se limita a ele. A paisagem do porto, do mar, dos bairros, dos bares e das ruas funciona como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre memória, política, afetos e pertencimento. O autor transforma referências históricas, culturais e biográficas em matéria poética sem que percamos a fluidez da leitura. Há um diálogo constante entre a cidade e a formação do sujeito, como se cada esquina, cada cais e cada maré ajudassem a compor uma identidade em permanente deslocamento.

Outro aspecto que chama atenção é a maneira como o livro articula experiências pessoais e coletivas. A poesia de Alan dos Santos incorpora filosofia, psicanálise, música, militância e literatura sem soar excessivamente erudita ou fechada. Pelo contrário: há uma voz que conversa com o leitor, alternando poemas mais narrativos com textos de síntese lírica. O resultado é um conjunto coeso, em que o conceito de “insular” deixa de ser apenas uma condição geográfica para se tornar também uma forma de existir, de construir pontes e de compreender a si mesmo.

Publicado pela Editora Borboleta Azul, o livro revela um autor que escreve com consciência de seu lugar, mas sem cair no regionalismo estreito ou na poesia de mera evocação. Há densidade histórica, delicadeza e uma boa capacidade de transformar episódios aparentemente particulares em imagens que permanecem na memória do leitor. É um livro breve, porém consistente, que confirma a força da poesia quando ela consegue reunir experiência, pensamento e linguagem.