A vida real dos livros — Diário de clubes de leitura

Por Maurício Mendes

Em um capítulo de O homem não foi feito para ser feliz, Germano sai para jantar com uma conhecida dos clubes de leitura dois dias depois da morte do pai. Ela fala do trânsito, do cheiro de gasolina, da alergia no rosto, da dermatologista que atende Unimed, do omeprazol, do beach tennis, da terapeuta grávida. Em determinado momento, ele tenta conduzir a conversa para os livros. Pergunta se ela tem lido algo interessante. Ela responde que anda meio parada: começo de ano é difícil.

Era junho.

Ele menciona Cortázar. Ela diz que adora. Quando ele pergunta qual obra ou conto prefere, ela não lembra nada específico. “Outra farsante infiltrada em clubes de leitura”, conclui Germano.

A passagem tem outra camada. Germano está de luto, irritado, impaciente, deslocado. Usa Cortázar como pedágio. Espera de Lílian uma resposta que a salve ou a condene. Sua crueldade revela uma tentação comum entre leitores experientes: transformar repertório em fronteira. Quem sabe atravessa. Quem hesita fica do lado de fora.

Por isso, a palavra “farsante” pede cuidado. Existe uma distância importante entre farsa e insegurança. O leitor que esquece o nome de um conto, se atrapalha ao comentar um romance ou chega ao encontro admitindo ter entendido pouco muitas vezes traz uma vulnerabilidade que talvez seja uma das condições da leitura verdadeira. O leitor aceita que um livro revele o que ele não sabe. O farsante transforma a literatura em decoração moral.

O leitor se expõe ao livro; o farsante usa o livro para se apresentar aos outros.

Erving Goffman, em A representação do eu na vida cotidiana, pensou a vida social como uma sucessão de pequenos palcos. Nos clubes de leitura, a questão aparece quando o palco fica maior que os livros.

Em sua melhor forma, os clubes aproximam leitores, movimentam livrarias, fazem circular autores, criam vínculos em torno dos livros. Em sua forma mais vulnerável, encenam erudição. Entre esses extremos, aparece uma teatralidade previsível: fotos, brindes, taças, hashtags, frases sublinhadas, pilhas de romances exibidas como provas portáteis de vida interior. A leitura, tantas vezes solitária, lenta e silenciosa, ganhou enquadramento e legenda.

Preciso confessar: amo clubes de leitura. Eles formam leitores. Tiram a leitura do isolamento. Mostram a um leitor inseguro que ler envolve hesitação, perda, dúvida, retorno, discordância, silêncio. Desfazem a ideia de que a literatura pertence a uma casta de especialistas autorizados.

Num país de formação leitora tão desigual, isso tem enorme valor. Muita gente chega aos clubes depois de anos afastada dos livros. Outros carregam da escola a lembrança da literatura como obrigação e castigo. Há quem se aproxime de um romance pela primeira vez porque uma amiga convidou, porque uma cafeteria abriu espaço, porque uma mediadora soube acolher a insegurança sem humilhar ninguém.

Em um bom clube de leitura, o leitor pode dizer que gostou, que detestou, que se perdeu, que achou difícil, que mudou de opinião no meio da conversa. A discordância dispensa espetáculo. A admiração dispensa propaganda. O livro permanece maior do que a vaidade de quem fala sobre ele.

Os encontros perdem força quando a discussão se transforma num consenso elegante, naquela mania de elogiar uma obra porque se imagina que ela deva ser elogiada. Perdem quando a escolha dos livros se guia apenas pelas listas de mais vendidos. Quando a mediação se limita a repetir informações de releases ou postagens da editora. Quando os encontros servem mais para registrar um pertencimento do que para descobrir o que um livro pode fazer entre leitores.

Há livros que resistem ao uso decorativo. Livros que atrapalham a postagem nas redes sociais. Personagens que tornam a conversa desconfortável. Autores que desorganizam a boa consciência do grupo. Obras que recusam o resumo rápido e a legenda espirituosa.

A performance precisa de retorno. Se o livro deixa de render foto, se o encontro perde brilho social, se a leitura começa a exigir atenção real, uma parte do entusiasmo desaparece. Com menos barulho, a conversa pode melhorar. Com menos encenação, os leitores talvez fiquem mais disponíveis. Com menos solenidade, o encontro respira.

Às vezes me pergunto: o que restará?

Talvez fiquem os leitores que aceitam as dificuldades e ambiguidades da literatura. Os que comparecem mesmo quando a leitura contrariou suas expectativas. Os que conseguem discordar sem querer vencer na marra. Os que escutam interpretações diferentes sem transformar cada divergência em ameaça pessoal. Os que leem literatura brasileira contemporânea com seriedade, sem condescendência. Os que voltam aos clássicos sem reverência automática. Os que percebem que um bom romance muitas vezes incomoda mais do que instrui.

Ficam também os mediadores sérios, aqueles que compreendem a discrição do ofício. Mediar uma leitura exige repertório e escuta. O mediador ruim conduz o grupo para sua própria inteligência. O bom mediador cria condições para que o livro circule pela inteligência dos outros. Parece simples. No começo, eu também pensava assim.

Ficam os espaços que entenderem os clubes como construção de comunidade, para além da estratégia de vendas. As bibliotecas que acolherem leitores sem pedir credenciais. Os grupos pequenos, talvez sem grande alcance nas redes, mas capazes de transformar a relação de alguém com um autor, uma linguagem, uma época, uma ferida.

E ficam os livros.

Esse detalhe a performance costuma esquecer. A literatura atravessou escolas ruins, governos hostis, mercados instáveis, modas críticas, vaidades acadêmicas, leitores preguiçosos e escritores vaidosos. Continuará atravessando. Os clubes de leitura podem ser uma das formas mais vivas dessa travessia, desde que preservem sua tarefa essencial: aproximar pessoas de livros e livros de pessoas, sem transformar esse encontro numa celebração vazia.

Os clubes parecem atravessar uma euforia pública. Há excesso, exibicionismo, ingenuidade, oportunismo. Também há energia, descoberta, circulação de autores, formação de leitores, desejo de conversa.

Quando os farsantes se cansarem, talvez restem pessoas sentadas em torno de uma obra, tentando dizer o que ela fez com elas. Sem garantias. Sem superioridade. Sem obrigação de parecerem melhores do que são.

Lembro, enquanto termino este artigo, de um encontro ocorrido há alguns meses em um dos clubes de leitura mais antigos de Fortaleza. Havia mais de sessenta pessoas apinhadas num espaço que acomoda quarenta. Muitas sentaram no chão. Ninguém se importou. Ao fim da discussão, vários leitores permaneceram ali, ainda falando sobre o livro.

Era Quarto de despejo.

Para a literatura, isso já é bastante.

Maurício Mendes é médico, escritor, colunista e mediador de clubes de leitura. Autor do romance O homem não foi feito para ser feliz (Mondru), tem circulado por clubes, eventos literários e espaços de debate sobre literatura contemporânea. É colaborador de O Odisseu e assina a coluna quinzenal A vida real dos livros na São Paulo Review. Concluiu seu segundo romance, Uma mulher séria, representado pela Agência Carreira Literária.

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