Por Whisner Fraga

Pequenos engasgos, livro de microcontos de Alê Motta, é uma autópsia lírica de um
mundo de aparências. Partindo da premissa bíblica de que o coração humano é
enganoso e perverso, o livro transforma calçadas, corredores, apartamentos, sobrados
em palcos de tragédias silenciosas, em que a extrema contenção do texto torna o
choque da violência ainda mais contundente.

Nestas narrativas, a certeza de que a cordialidade no cotidiano urbano é apenas mito,
ilusão. Em vez de oferecer consolo ou explicações, a obra utiliza a frieza de fotografias
de fachadas e a precisão de um texto minimalista para arrombar portas e expor a
perversidade, a dor e a solidão trancadas entre quatro paredes ou expostas (ainda que
invisibilizadas) debaixo dos viadutos ou de letreiros de lojas.

Neste ponto, é importante pontuar que a cidade é a verdadeira personagem principal
de Pequenos engasgos. A cidade funciona como elemento unificador, que articula
todos os fragmentos narrativos. Essa centralidade do espaço urbano se manifesta em
diversos níveis. A geografia de concretos não é mero pano de fundo estático, passivo,
mas uma força que molda e esmaga as vidas que nela habitam. A cidade é um
organismo vivo, hostil e fragmentado, cujas estruturas testemunham o isolamento, a
violência e a dor de seus habitantes.

A potência da obra reside na tensão criada entre a contenção verbal e a gravidade dos
fatos narrados. A autora enxuga o texto até restar apenas o essencial: é esta secura
lexical que elimina o sentimentalismo gratuito e faz com que o choque da violência
surja de forma abrupta e impactante. Não há espaço para julgamentos explícitos nem
adjetivos que busquem a comoção fácil do leitor. Existe apenas a serenidade
perturbadora com que o absurdo é retratado, ampliando, assim, o choque da leitura.

Essa contenção verbal amplifica a dor e a crueza urbana ao retirar do leitor qualquer
amortecedor emocional ou consolo interpretativo. Alê Motta apresenta atrocidades,
abandonos e brutalidades por meio de frases secas, diretas, expondo o fato bruto,
sem a mediação de abrandamentos morais. A dor dos personagens fica entalada na
garganta de quem lê.

Outro recurso eficiente usado por Alê Motta é o uso de um vocabulário urbano
contemporâneo, incorporando termos de aplicativos, compras digitais e referências da
cultura pop, o que leva o leitor a se identificar com a trama. A incorporação da
linguagem de compras virtuais e nomenclaturas comerciais precisas confere
concretude e trivialidade aos cenários onde a dor acontece.

É perceptível, nas narrativas, que habitantes da cidade estão ali para atrapalhar a
rotina da cidade. Os microcontos são abertos por uma ou mais linhas em negrito, que
descrevem a arquitetura ou uma cena estanque, características de personagens e
normalmente trazem uma marcação social. A autora nos lembra que as tragédias
podem se desenrolar em um espectro social e econômico bem amplo, desde pessoas
em situação de rua à elite urbana, passando por trabalhadores informais,
precarizados, a classe média e profissionais liberais.

Importante ressaltar, também, o caráter transgressor da obra, não apenas em termos
de linguagem. Os temas denunciam o higienismo e a violência institucional, expondo,
sem rodeios, a perversidade exercida sobre populações marginalizadas. A
desconstrução da família tradicional e da hipocrisia social, abertura para a
perversidade sem julgamento moralizante, subversão da autoridade e da verdade
narrativa. Alê Motta desafia o pacto tradicional de veracidade na ficção, quando o
narrador de um conto interrompe o próprio relato heroico com o marcador “mentira”,
admitindo uma covardia no passado para depois inserir o marcador “verdade” e
confessar uma agressão doméstica no presente. A autora faz o mesmo quando dá
versões espelhadas sobre um mesmo pressuposto, em outros contos.

Pequenos engasgos se afirma como um livro visceral e indispensável ao sintetizar a
dor, o isolamento e a perversidade do cotidiano urbano em uma coletânea marcante
de contos. Ao aliar a secura de uma escrita minimalista e telegráfica ao olhar acurado
sobre os territórios da cidade, Alê Motta recusa a facilidade do consolo e extrai beleza
de um painel profundamente sofrido. É uma obra incômoda e necessária, na qual a
contenção da linguagem entrega apenas o estritamente necessário para que a
selvageria humana retratada permaneça, inevitavelmente, represada na garganta de
quem lê.

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