Por André Luís Inácio
Em Indetectável, Celsim P.S. volta aos anos 1980 e 1990 para contar uma história em que vida pessoal, teatro, sexualidade e a epidemia de aids se misturam de tal maneira que é difícil separar uma coisa da outra. O livro parte de uma experiência íntima, atravessada pela amizade e pelo amor, sobretudo pela relação com Dionísio, mas aos poucos amplia esse campo e acaba construindo também um retrato de uma geração. Uma geração que descobria o sexo e experimentava novas formas de liberdade ao mesmo tempo que via amigos adoecerem e morrerem, cercados pelo medo e pelo preconceito.
A forma escolhida pelo autor acompanha essa memória fragmentada. Cartas, lembranças, episódios autobiográficos e passagens quase alucinatórias convivem com as chamadas “pílulas de solidariedade, realidade e saúde pública”, que recuperam a história da aids no Brasil e ajudam a colocar as experiências individuais dentro de um contexto político e social mais amplo. O livro lembra que o enfrentamento da epidemia não aconteceu apenas nos hospitais. Passou pela mobilização de homossexuais, travestis, artistas, médicos, ativistas e organizações da sociedade civil, num momento em que o país também reaprendia a falar em democracia e direitos.
Mas Indetectável não é um livro dominado apenas pela doença e pela morte. Há muito desejo, humor, sexo, amizade, viagens, teatro e uma espécie de urgência de viver que atravessa suas páginas. Talvez esteja aí uma de suas qualidades: Celsim não transforma aqueles anos somente em tragédia. A violência existia, assim como o medo e a perda, mas existiam também corpos desejando, pessoas se apaixonando, criando, fazendo teatro e inventando maneiras de continuar. Quando o autor escreve sobre os muitos amigos que enterrou ainda muito jovem, fala em escrever um “desmassacre”. A palavra parece resumir bem o gesto do livro, que não apaga a catástrofe, mas devolve vida e nome a quem poderia ter permanecido apenas como parte de uma estatística.
O título ganha, assim, mais de um sentido. “Indetectável” pertence ao vocabulário de uma época em que o avanço dos antirretrovirais mudou radicalmente a relação com o HIV, mas aqui a palavra também parece apontar para aquilo que sobrevive à passagem do tempo e precisa ser novamente tornado visível. Ao escrever décadas depois, Celsim P.S. olha para os mortos a partir de um presente que eles não puderam conhecer. O resultado é um livro de memória, mas também de permanência. Mais do que contar como uma geração conviveu com a aids, Indetectável procura devolver presença às pessoas que amaram, desejaram, criaram e morreram antes que o futuro que esperavam finalmente chegasse. Acaba de ser lançado pela editora Fósforo.