2.
Iolanda

“Não use palavras difíceis. Não escreva frases longas. Não conte tudo nas primeiras linhas. Se o leitor sentir que pode parar por ali antevendo o restante, ou desanimar diante de palavras que desconhece, humilhado pela sua erudição ou acabrunhado por sua chateza, se lhe perceber entregando o ouro quando está apenas começando a abrir o caixão, o jornal, a revista, não lhe interessará ver o cadáver. Irá para outra notícia com mais apetência. Não se iluda, porém. Não tente ser original. A ninguém apraz originalidade genuína. Os que mais dizem apreciá-la são os que mais a detestam. Alguém já escreveu sobre o que estás escrevendo, e essa familiaridade com o já acontecido e já reportado é o que o leitor almeja. Repetição conforta. Mostra que tudo continua como era, e assim sucessivamente.”

Mais um cigarro aceso. Sem filtro. Ele fumava muito. Todos fumavam muito nas redações. Eu, não. Nunca fumei.

Seu maço ficava no bolso do paletó. Marrom. Azul-marinho?

“Tampouco seja bom demais na qualidade do texto. O leitor, ou seu colega, ou seu chefe, tem que ler e poder dizer ‘Ah, eu faria essa reportagem muito melhor que esse noviço’. Mas não pareça totalmente foca. O que é um foca? É você, começando na redação, ainda sério e tentando ser respeitado. Não seja respeitado, isso causa inveja, inveja leva a mexericos, mexericos levam a boicotes, boicotes levam a designação para cobertura de assuntos irrelevantes, irrelevância leva para a ponta da fila da demissão. O primeiro levado pelo maremoto.”

Maremoto?

“Uma onda incontrolável que arrasta tudo. Como a que engoliu Lisboa, após o terremoto de 1755. Demissão em massa na redação. Que chega sem aviso. Acontece toda vez que há uma reorganização na diretoria, troca de editor-chefe, enxugamento de pessoal, crise econômica. Desde antes da morte de Vargas, o Brasil já estava em crise econômica, piorou no fim do governo JK, rola morro abaixo desde a renúncia de Jânio Quadros, com esse João Goulart aí nem se fala. Esses maremotos são cíclicos. Engolem cabeças e cargos. Tudo muda, para a chefia continuar como estava. É cíclico, lhe digo. Veteranos tentam ficar fora da linha de tiro. Mas para um iniciante? Bucha de canhão. Nada é pior do que um foca demitido. É desmoralizante para o resto da vida. Demitido como foca, acabou sua carreira como repórter. Conseguirá, no máximo, com muita sorte e apadrinhamento, um empreguinho de copidesque.”

Copidesque é quem conhece e sabe usar a língua melhor que todo mundo, argumentei, Graciliano Ramos era copidesque.

“Copidesque é um pouco isso aqui, a sala dos mortos, congelados, esperando quem virá reclamar o cadáver. E frases curtas. Já falei das frases curtas? Você fala frases curtas, reparei. Faça o mesmo em seus textos.”

* * *

Amarantes tinha pousado a maleta com lentes e rolos de filmes sobre o ventre de um dos engavetados, como ele chamava os corpos no morgue do Instituto Médico Legal.

A refrigeração da sala era forte. Mesmo de paletó, eu sentia frio. Não estava acostumado com ar-refrigerado. Não havia, de onde eu vim. Mesmo no Rio de Janeiro, poucos lugares tinham refrigeração. Até onde sabia, mais por ter passado em frente e sentido o alívio fresco invadindo a calçada, um cinema Metro na Avenida Copacabana e outro mais na Praça Saens Peña, na Tijuca, mais um da mesma cadeia na Rua do Passeio, no centro, e também a filial da rede americana de lojas de departamentos Sears em Botafogo, um magazine chamado Mesbla, de capital brasileiro, creio, próximo do edifício do antigo Senado Federal antes da mudança da capital para Brasília, o Palácio Monroe, uma construção enfeitada por colunatas, volutas, janelas e portões de ferro altos e vidros bisotados, aglomerados de minúcias em cobre e latão, com belos, eu achava, leões de mármore no alto de uma escadaria, compondo um conjunto com jeito de bolo gigante, esquecido como um velho parente inútil, no final da Rio Branco.

O que tem as frases curtas?

“Frases curtas. Assim como você fala, tem que escrever. Frases curtas. Pá, pum. Pá, pum, pá, no máximo. O corpo estava caído na cama. Ou leito. Ou leito conjugal. Ao lado, um copo. Na cama. Sobre a cama. O líquido tinha derramado no lençol, sobre o lençol, em cima do lençol, algo bem fácil de entender. As mãos estavam crispadas no lençol sujo. Os olhos dele, ou dela, estavam esbugalhados. A boca estava aberta. Ponto. Uma espuma escorria do canto. Ponto. A vítima estava…”

A repetição do verbo estar não lhe parece excessiva, Amarantes? E a demora para contar o crime…

“Relatar. Um crime é relatado. Não tenha pressa. O seu leitor já viu a foto do morto na primeira página, com o bocão aberto e o olhão esbugalhado, já viu o copo, já viu os lençóis imundos do puteiro, ou da pensão vagabunda, ou do barraco da favela, seu leitor então já sabe o que aconteceu, você tem de florear para ele poder ver o anúncio de Detefon, Creolina ou Lojas Ducal na coluna ao lado, entendeu?”

Os veteranos são sempre céticos, pensei e não disse. Amargos. Detestam e/ou desprezam os leitores. Imprimiriam as páginas só para si mesmos, se pudessem. Os que eu tinha conhecido nestes poucos dias na redação pelo menos. Repórteres, revisores, redatores, editores, chefes, gráficos, fotógrafos, laboratoristas, linotipistas, contínuos, até o office boy encarregado de aguardar que o telefone desse linha e o contrabandista de cigarros americanos e uísques escoceses e paraguaios, todos, sempre, tinham algum comentário negativo ou sórdido pronto para lançar sobre a máquina de escrever, ao lado de cinzeiros transbordando de tocos de Continental e Hollywood sem filtro, comentários prontos para encerrar qualquer argumentação, sobre política, futebol, arte, o que fosse, com o bordão que, até então, eu só ouvira da boca de gente rica: o Brasil não tem jeito.

“Repita o verbo estar, pode repetir, deve repetir, reforça a ideia que lhe interessa transmitir. O que está anotando nessas laudas? Onde está seu bloco de notas? Todo repórter tem um bloco de notas.”

Ainda não tive tempo de comprar, aí peguei essas folhas.

“Laudas.”

Estavam lá, tinha tantas, peguei só essas poucas.

“São para datilografar a sua reportagem, com cinco cópias. Você deveria saber.”

Eu sabia, mas ainda não tinha me acostumado a chamar de laudas as folhas de papel pautado, com o nome e logotipo do jornal no alto da página, mais linha para título e nome do repórter abaixo.

“O que vai escrever sobre ela? É sobre a morta do Estácio que você vai fazer a reportagem, meu jovem?”

* * *

As duas últimas palavras soaram pomposas como as de um professor indeciso sobre a maneira mais aparentemente modesta de encerrar uma preleção que acredita ter sido memorável. Pompa e amargura frequentemente caminham juntas, eu aprenderia. Tudo em Antonio Amarantes, ou dele relacionado a si mesmo, ou a seus preceitos jornalísticos, ou especialmente sua segurança aparente, talvez real em boa parte, talvez ainda impregnada dos tempos esperançosos de antigo colaborador de publicações banidas pela onda anticomunista do governo do general Eurico Gaspar Dutra, como ele contara, dos tempos da fé num Brasil a caminho de um futuro socialista sob o comando de Luís Carlos Prestes, tudo em suas palavras se pretendia inesquecível, mesmo nas mais banais opiniões ou conceitos, e, admito, aquilo o tornava fascinante para mim. Era, afinal, o primeiro jornalista veterano a se dignar a conversar comigo. E o primeiro que eu conhecia a ter visto e convivido com Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, os dois presidentes que me pareciam os grandes transformadores do país. Mesmo xucro em política, eu era cheio de certezas e acreditava que Juscelino, conciliador e centrista, suplantaria o agressivo conservador Carlos Lacerda, governador do Rio, como sucessor do governo desordenado e sem rumo do trabalhista João Goulart nas eleições presidenciais do ano que vem. E eu seria o primeiro a entrevistá-lo depois da vitória, sonhava.

É, vou, sim, vou, respondi, pensando não na suicida do Estácio, mas no furo de bala no paletó de pijama de Getúlio, testemunhado por Amarantes, ele acabara de me confidenciar, ainda no quarto do Palácio do Catete, em agosto de 1954, chamado por familiares para registrar o momento histórico, antes de sanitizarem a cena. Amarantes fora obrigado a lhes entregar o filme.

“Escreva, então. Olha o papel aí, na sua mão. As laudas.”

Quando voltar para a redação eu escrevo, aqui é muito esquisito, no meio de todos esses mortos.

“Por isso mesmo terá mais força. No meio dos mortos. Vejo que já escrevestes algumas laudas.”

São anotações apenas, uma abertura, um início, ou nem isso, só umas anotações, respondi, dobrando as folhas e colocando no bolso no paletó.

“Leia para mim.”

Hesitei, mas tirei as laudas do bolso, desdobrei-as.

Li, relutantemente: parda, subnutrida, o corpo ossudo coberto por um vestido roto, uma baba ainda escorrendo entre os lábios arroxeados, a mulher, provavelmente prostituta, foi encontrada sem vida numa das muitas cabeças de porco da Rua Haddock Lobo, próximo à…

“Pode parar.”

Parei. Aguardei. Ele estendeu o maço de cigarros e a caixa de fósforos. Fiz com a mão sinal de recusa, ele pareceu não compreender, manteve-os diante de mim, aguardando, eu me senti constrangido em rejeitar uma atitude talvez deferente de um veterano a um calouro, puxei um de seus Continental sem filtro, pus na boca, ele riscou o fósforo, acendeu-o, suguei e logo soprei a fumaça, sem tragar, mantive o cigarro entre os dedos por todo o tempo daquela conversa sobre favoritos, até quase os queimar, procurei um cinzeiro, larguei-o lá.

“Você quer ser quem? Nelson Rodrigues? Carlos Heitor Cony? Fernando Sabino?”

Quero apenas trabalhar, ser efetivado, deixar de ser foca, me tornar um jornalista profissional, pensei, com um emprego aonde poderia ir todo dia e pagamento a cada quinzena, o bastante para tomar café com leite, pão e manteiga de manhã, almoçar, jantar e, no fim do mês, comprar um par de livros ou ver algum filme, sair da vaga no quarto da pensão no Catumbi, com mais três expatriados de seus estados ou vilarejos, para um quarto com banheiro só para mim na Glória, no Catete, no Flamengo e mesmo, quem sabe, em Copacabana, e, isso também não disse, porque sabia impossível para um sujeito sem cultura substancial como eu, ou mesmo escrever na minha própria língua com a maestria dele, um austríaco refugiado dos nazistas aportado no Rio de Janeiro sem saber uma palavra de português, por isso não o citei, sim, queria, gostaria, de ser olhado com a admiração como eu tinha olhado para Otto Maria Carpeaux, num canto ao fundo do segundo andar, na redação do Correio da Manhã.

* * *

“Parda, jamais!”, Amarantes sentenciou. “Não há mulheres pardas fora dos documentos de identidade. Inseticida, marmelada, sabonete, banha de coco, liquidificador, detergente, não harmonizam com parda. O leitor já vira a página e busca outra notícia fora da parda. Carlinhos Oliveira escreve parda? Aníbal Machado escreveu parda alguma vez? Nabor Fernandes escreveu parda? Portanto, aprenda com eles. Copie, se for necessário. Parda não existe. Se está na sua reportagem, a morta é morena, mulata, cabrocha, sapoti, cor de jambo, mestiça, tudo menos parda. Quem lê parda desiste de saber o destino da mulher encontrada morta no Largo do Estácio.”

Rua Mem de Sá, corrigi.

“Largo do Estácio. Origens do samba. Popular. Ela poderia ter sido porta-bandeira. Enamorou-se do mestre-sala. Mas era teúda e manteúda de um bicheiro do Morro de São Carlos. Ficou sem nada quando o abandonou. Ela se prostituía para poder dar belos presentes ao mestre-sala. Debalde. Nunca use debalde, aliás. Use entretanto. Melhor: no entanto. No entanto, o mestre-sala trocou-a por uma passista mais jovem. A vida para… Como era o nome da morta?”

Sem nome, sem documentos.

“Iolanda. Ela passa a ser ‘a mulata Iolanda’. Poderia ser Dolores, mas ‘a mulata Dolores’ não soa tão bem quanto ‘a mulata Iolanda’. Uma cabrocha de parar o trânsito na Rua Haddock Lobo, Iolanda.”

Não. Iolanda, não.

“Por que não?”

Tinha minhas razões pessoais para rejeitar aquele nome. Não eram da conta dele. Nem de ninguém.

“Iolanda, sim! A mulata Iolanda.”

Não. Iolanda, não. Nem Clotilde, nem Guilhermina, nem Isaura, nem qualquer outro prenome inventado para a parda pobre que se matou com veneno de rato misturado a guaraná. Não podia, nem pretendia, começar meu trabalho na Folha da Guanabara com mentiras. Um jornalista mentiu uma vez, mentirá sempre. Nunca mais acreditarão nele.

“Bobagem, meu jovem. Invencionice nunca prejudicou a carreira de nenhum jornalista. O que é a coluna do Nelson Rodrigues, se não invencionices? Carlinhos Oliveira? Invencionices. Paulo Mendes Campos, Drummond, Clarice, todos floreiam e embelezam a realidade trivial à volta deles. O jornalista mais famoso do Brasil, David Nasser, fazia o quê? Faça você, também, meu jovem. Invente.”

Gostaria que não ficasse me chamando de meu jovem, pensei em lhe pedir, mas ele já havia emendado na teoria do jornalista como arma de vingança.

“Escreva pensando no cafetão dela. Pense no mequetrefe que todo dia cobria de porrada essa lamentável criatura feia, magra, sem tetas, ainda com alguns dentes na boca, encachaçada, abobalhada, incapaz de faturar metade que fosse das outras marafas da manada dele. Quantas vezes o filho de uma égua botou ela para fora da cabeça de porco, quantas vezes ela voltou, porque não tinha para onde ir e ali, ao menos, mesmo debaixo de cachações e pitombas, tinha o catre, o teto, a privada, a pia. Uma porra de uma puta parda e pobre. Ninguém vai reclamar seu corpo. Só não apodrece naquela gaveta porque a enterrarão como indigente antes da decomposição final.”

Vingança, como?

* * *

“A bela Iolanda, escreva, anote aí, a bela mulata Iolanda, a passista de faiscantes olhos verdes e perolado sorriso cândido, capaz de levantar as arquibancadas da Avenida Presidente Vargas apenas com o sacudir dos quadris de seu corpo generoso, uma beleza esplendorosa que iluminava as noites sombrias dos cabarés da Lapa, carne fervente dos leitos do amor comprado, sonho de todo homem, invídia de toda mulher, a formosa Iolanda foi ontem derrotada, espere, mais, mais, foi fragorosamente derrotada pelo coração dilacerado por um amor, não, amor não, por uma paixão, uma paixão que… Uma paixão secreta para quem Iolanda deixou uma carta, não, carta é longa, um bilhete sem nome do destinatário, onde se lia, se lia apenas, em caligrafia treinada no colégio de freiras de onde ela fugiu aos catorze anos, não, treze, ou mesmo doze, precoce e fornida, com o trapezista do circo que passou pela cidade, um bilhete onde se lia apenas ‘Adeus, amor, seja feliz ao lado de sua família e de seus filhos’.”

Iolanda, não.

“A altruísta Iolanda, a desprendida mulata Iolanda, a profissional do amor que manteve a alma pura em meio ao lodaçal do pecado e do vício, Iolanda, que só desejou a felicidade, mesmo às custas da própria vida, a ventura do homem casado que dela queria unicamente o corpo e o prazer. O amor puro da mulata Iolanda estraçalhou sua existência dourada.”

Você é um poeta gongórico, Amarantes. Eu não sou poeta. Sou realista. Escrevo sobre o que vejo e testemunho. Não consigo escrever essa elegia a uma beleza esplendorosa que iluminava os puteiros da Lapa, olhando para esta mulher congelada na gaveta.

“Então não olhe. Pense que será a vingança desta patética suicida contra o homem que a humilhava e espancava diuturnamente. Repare nas manchas roxas nos braços, nos hematomas da face, nos lábios rachados pelos sopapos do filho da puta. O cafetão vai ser o primeiro a acreditar na sua reportagem. Vai se amaldiçoar por ter perdido essa fonte de renda. E vai ser sacaneado pelos outros cafetões, pelos malandros, bicheiros e putas por dias, semanas, por meses e meses seguidos.”

Não posso. Muito menos usar esse nome.

“Então não chame de Iolanda. Use o nome de uma deusa. Isis. Não, Isis é muito curto. Bernadete. Nome de santa. Veronica! Como a santa que enxugou o rosto de Jesus. A mulata Veronica. Perfeito.”

* * *

O editor de polícia da Folha da Guanabara queria uma reportagem sobre a decadência da antiga área residencial próxima ao Morro de São Carlos. O suicídio da mulher parda na gaveta 23 era apropriado para sublinhar o declínio da região, a má frequência de desqualificados como ela, a necessidade de demolição das cabeças de porco próximas do Largo do Estácio e sua substituição por novas edificações, capazes de atrair para ali população de melhor nível social e econômico. A ida ao IML e o texto não me teriam sido destinados se, como Amarantes percebeu desde o início, os repórteres mais experientes, e até os nem tanto, não estivessem todos designados para cobrir a intensa movimentação de sindicalistas, soldados, tropas, tanques, ativistas, estudantes, políticos importantes e outros tantos irrelevantes a se aglomerar desde as primeiras horas da manhã nas redondezas da Central do Brasil, em volta e sobre o palanque do comício de João Goulart.

“Com tanta coisa importante acontecendo lá na Central do Brasil, sua matéria vai acabar caindo.”

Eu já aprendera que matéria era sinônimo de reportagem entre jornalistas, e cair, um eufemismo para o mais extenso e humilhante ir para o cesto de lixo.

“Escreva de um jeito irrecusável.”

Por que não escreve você mesmo, perguntei, irritado.

“Não sei escrever. Sei falar. Sei fotografar. Sei vender uma ideia. Escrever, não sei. Repórteres de polícia não precisam saber escrever. Basta ir ao local, conversar com testemunhas e policiais, depois voltar para a redação e contar tudo para o copidesque. São os copidesques que escrevem as matérias. Os gagos. Os tímidos. Os medrosos. Os intelectuais que querem escrever romances e livros de poemas, aqueles caras lá no fundo da redação.”

Lembrei de Otto Maria Carpeaux.

“Quando você não presta como repórter, é para lá que te mandam. Você tem cara de quem presta para reportagem. Você tem cara de quem tem fome.”

De que fome ele falava?

“Eu, por exemplo, tenho faro para notícia. Só com uma olhada, sem nem pensar muito, eu sei, eu percebo se estou diante de uma boa reportagem, das que seguram o leitor pelo tornozelo e o derrubam, ou das que vão deixar ele escorregar os olhos e virar a página. A mulata Iolanda, por exemplo.”

Veronica, Veronica, não a chame de Iolanda, insisti. E aguardei. Mas ele se manteve calado, me encarando, também aguardando. Esperava uma pergunta, eu sabia qual, e fiz.

A mulata Veronica é uma boa reportagem?

“Mais do mesmo. Com a agitação dos discursos na Central, e o quebra-quebra que os agitadores devem promover por lá e outras áreas do Rio, vai ser muito difícil emplacar mais uma história de uma prostituta insignificante encontrada morta em cima da cama imunda de uma cabeça de porco que o construtor sócio da Folha da Guanabara quer botar abaixo. Concorda?”

Eu não sabia se concordava. Porque simplesmente eu não sabia nem da importância da notícia para levar o leitor às propagandas, nem da composição societária da Folha da Guanabara, nem se uma reportagem tinha poder de demolir cabeças de porco, menos ainda se aquela mulher da gaveta 23 era uma boa reportagem, a morta que eu agora pensava como aquela pobre mulher da gaveta 23, nem se eu tinha, ou jamais teria, faro para reconhecer em meio àquele cheiro de morte, naquele cômodo cinza e frio, uma boa notícia.

Não sei, respondi sinceramente.

“Claro que não sabe. Está na sua cara. Você acredita no que lhe dizem. Você confia nas pessoas. Você é um bom menino. Esta cidade vai te engolir, meu jovem. Vai triturá-lo e cuspir fora. Tem que ter malícia para sentir o cheiro da notícia. Tem que olhar o que todo mundo está vendo, mas perceber o que ninguém está enxergando. Aquele homem branco e comprido da gaveta 41, por exemplo.”

Não me lembrava. Havia aberto outras gavetas até chegar à da mulher que eu não podia chamar de Iolanda.

“Qual a cor dos olhos dele?”

Eu não me lembrava direito. Apenas que eram claros. E que estavam abertos. Como todos os outros ali. Morre-se de olhos abertos, eu tinha aprendido.

“Azuis.”

Também não registrara a cor dos cabelos do homem branco da gaveta 41. Ele não era o foco da minha reportagem.

“Louros. Finos e louros. Qual a data do óbito?”

Não sei, não li, admiti.

“Se tivesse lido, veria que este homem de pele branca, cabelos louros e olhos azuis, morto com dois tiros no peito e um no pescoço, com nome, sobrenome e carteira de identidade, está deitado ali na 41 há mais de uma semana. Nove dias, para ser mais acurado.”

Isso é notícia, quis saber, genuinamente curioso.

“Raciocine, meu jovem. Como são os outros engavetados?”

Em que sentido?

“Pretos. Pardos. Negros, mulatos, caboclos, cafuzos, mamelucos, todos os engavetados aqui e não reclamados por suas famílias são mestiços. Menos ele. Menos o 41. O seu faro começa a lhe dar algum sinal?”

*

O trecho faz parte do romance O último dia da inocência (Record), que será lançado em agosto. Edney Silvestre é jornalista e escritor, autor de Se eu fechar os olhos agora (também lançado pela editora Record), ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura e do Jabuti, e adaptado para série pela TV Globo.

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